quarta-feira, 18 de março de 2026

O ÔNIBUS PASSOU VAZIO


Observei um ônibus passar quase vazio numa manhã de semana.

 

Lembrei-me de quando viajar sentado era privilégio raro.

 

O tempo muda fluxos, as rotinas e as prioridades.

 

O veículo seguiu em seu trajeto habitual, mas a cena trouxe a sensação de que as cidades também envelhecem conosco.

 

O ônibus fez parte da minha infância, num tempo em que não tinha janelas, mas bancos de madeira e duas grandes aberturas laterais.

 

Meu pai, quase todas as semanas, ia de ônibus ao Porto para saber, na Agência Migueis, notícias sobre a chegada dos pequenos navios que vinham de Corumbá trazendo sacos de cerveja de São Paulo.

 

Naquela época, o transporte de pessoas e cargas para o Rio de Janeiro e outras partes do Brasil era feito pelo rio Cuiabá até Corumbá, continuando pelo rio Paraguai, em navios maiores até a bacia do Prata.

 

Para que eu pudesse passear meu pai me levava até o Porto.

 

A parada do ônibus ficava em frente ao Palácio da Instrução.

 

Não havia cobrador, e a buzina ficava ao lado esquerdo do motorista.

 

Durante o percurso havia placas pregadas nos postes de iluminação indicando os locais de embarque e desembarque.

 

O ônibus descia pela rua em frente aos Correios, entrava na Treze de Junho, dobrava à esquerda e logo alcançava a bela avenida Quinze de Novembro.

 

Era duplicada, com canteiro central e muito arborizada.

 

Na época da seca, a navegação até Cuiabá ficava impedida na região de Santo Antônio de Leverger, chamada de Aricá.

 

O baixo nível das águas formava bancos de areia e pedras.

 

A Agência Migueis então era obrigada a contratar caminhões para trazer os sacos de cerveja até o bar do meu pai.

 

Durante o período da seca, quase todas as semanas meu pai ia ao Porto para saber notícias de suas mercadorias — e me levava junto para conhecer a beleza daquele lugar.

 

Cuiabá envelheceu.

 

O transporte pesado passou a ser feito por caminhões, e a cidade continua esperando a chegada do trem, cujos trilhos pararam em Rondonópolis.

 

Hoje alguns pontos de ônibus têm até ar-condicionado.

 

Mesmo assim, quase nunca estão vazios e atendem mal a população da periferia.

 

Os trajetos mudaram.

 

Meus netos e bisnetos nunca passearam de ônibus.

 

A Agência Migueis também já pertence à memória da cidade.

 

E aquele ônibus quase vazio que vi passar me lembrou que, às vezes, uma cidade inteira cabe dentro de uma simples lembrança.

 

Gabriel Novis Neves

15-03-2026




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