Observei um ônibus passar quase vazio numa manhã de semana.
Lembrei-me de quando viajar sentado era privilégio raro.
O tempo muda fluxos, as rotinas e as prioridades.
O veículo seguiu em seu trajeto habitual, mas a cena trouxe a sensação de que as cidades também envelhecem conosco.
O ônibus fez parte da minha infância, num tempo em que não tinha janelas, mas bancos de madeira e duas grandes aberturas laterais.
Meu pai, quase todas as semanas, ia de ônibus ao Porto para saber, na Agência Migueis, notícias sobre a chegada dos pequenos navios que vinham de Corumbá trazendo sacos de cerveja de São Paulo.
Naquela época, o transporte de pessoas e cargas para o Rio de Janeiro e outras partes do Brasil era feito pelo rio Cuiabá até Corumbá, continuando pelo rio Paraguai, em navios maiores até a bacia do Prata.
Para que eu pudesse passear meu pai me levava até o Porto.
A parada do ônibus ficava em frente ao Palácio da Instrução.
Não havia cobrador, e a buzina ficava ao lado esquerdo do motorista.
Durante o percurso havia placas pregadas nos postes de iluminação indicando os locais de embarque e desembarque.
O ônibus descia pela rua em frente aos Correios, entrava na Treze de Junho, dobrava à esquerda e logo alcançava a bela avenida Quinze de Novembro.
Era duplicada, com canteiro central e muito arborizada.
Na época da seca, a navegação até Cuiabá ficava impedida na região de Santo Antônio de Leverger, chamada de Aricá.
O baixo nível das águas formava bancos de areia e pedras.
A Agência Migueis então era obrigada a contratar caminhões para trazer os sacos de cerveja até o bar do meu pai.
Durante o período da seca, quase todas as semanas meu pai ia ao Porto para saber notícias de suas mercadorias — e me levava junto para conhecer a beleza daquele lugar.
Cuiabá envelheceu.
O transporte pesado passou a ser feito por caminhões, e a cidade continua esperando a chegada do trem, cujos trilhos pararam em Rondonópolis.
Hoje alguns pontos de ônibus têm até ar-condicionado.
Mesmo assim, quase nunca estão vazios e atendem mal a população da periferia.
Os trajetos mudaram.
Meus netos e bisnetos nunca passearam de ônibus.
A Agência Migueis também já pertence à memória da cidade.
E aquele ônibus quase vazio que vi passar me lembrou que, às vezes, uma cidade inteira cabe dentro de uma simples lembrança.
Gabriel Novis Neves
15-03-2026
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