O rádio estava ligado, mas o som vinha falhando.
Girei o botão devagar até encontrar a estação certa.
Um chiado comprido… depois, a voz ficou limpa.
Não mexi mais.
Fiquei ouvindo.
A sintonia exige paciência.
Na vida, como no rádio antigo, quando se encontrava o ponto exato, evitava-se qualquer movimento brusco. Bastava um toque descuidado e o chiado voltava. Aprendi cedo que quase tudo depende desse cuidado delicado com os detalhes.
Quantos chiados o nosso corpo emite e fingimos não escutar? Pequenos avisos que deixamos passar. Às vezes melhoram sozinhos. Outras vezes pedem atenção. Encontrar o ponto certo consigo mesmo é exercício diário — e silencioso.
Nunca imaginei que minhas lembranças seriam matéria-prima da velhice. Hoje escrevo sobre a infância na rua de Baixo, a adolescência entre mangueiras generosas, a maturidade distante e o retorno definitivo à minha cidade. São estações da mesma vida, cada uma com sua frequência.
Lembro-me do primeiro rádio em nossa casa. Para ouvir melhor, eu o inclinava no colo e ficava imóvel. Não podia respirar forte. Qualquer movimento traria o chiado de volta.
Assim escutei a final da Copa de 1950.
Imóvel.
O rádio no colo.
O coração na boca.
Perdemos o jogo.
Mas ganhei uma memória eterna.
Hoje entendo que a vida inteira temos girado botões invisíveis, procurando clareza no meio dos ruídos. Nem sempre acertamos de primeira. Há interferências, perdas, silêncios.
Mas quando encontramos nossa estação interior — essa que mistura paz e lembrança — aprendemos a não mexer mais.
Porque a verdadeira sabedoria não está em aumentar o volume do mundo.
Está em manter firme a sintonia do coração.
Gabriel Novis Neves
13-02-2025
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