quarta-feira, 11 de março de 2026

SINTONIA DELICADA


O rádio estava ligado, mas o som vinha falhando.


Girei o botão devagar até encontrar a estação certa.


Um chiado comprido… depois, a voz ficou limpa.


Não mexi mais.


Fiquei ouvindo.


A sintonia exige paciência.


Na vida, como no rádio antigo, quando se encontrava o ponto exato, evitava-se qualquer movimento brusco. Bastava um toque descuidado e o chiado voltava. Aprendi cedo que quase tudo depende desse cuidado delicado com os detalhes.


Quantos chiados o nosso corpo emite e fingimos não escutar? Pequenos avisos que deixamos passar. Às vezes melhoram sozinhos. Outras vezes pedem atenção. Encontrar o ponto certo consigo mesmo é exercício diário — e silencioso.


Nunca imaginei que minhas lembranças seriam matéria-prima da velhice. Hoje escrevo sobre a infância na rua de Baixo, a adolescência entre mangueiras generosas, a maturidade distante e o retorno definitivo à minha cidade. São estações da mesma vida, cada uma com sua frequência.


Lembro-me do primeiro rádio em nossa casa. Para ouvir melhor, eu o inclinava no colo e ficava imóvel. Não podia respirar forte. Qualquer movimento traria o chiado de volta.


Assim escutei a final da Copa de 1950.


Imóvel.


O rádio no colo.


O coração na boca.


Perdemos o jogo.


Mas ganhei uma memória eterna.


Hoje entendo que a vida inteira temos girado botões invisíveis, procurando clareza no meio dos ruídos. Nem sempre acertamos de primeira. Há interferências, perdas, silêncios.


Mas quando encontramos nossa estação interior — essa que mistura paz e lembrança — aprendemos a não mexer mais.


Porque a verdadeira sabedoria não está em aumentar o volume do mundo.


Está em manter firme a sintonia do coração.


Gabriel Novis Neves

13-02-2025




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