Durante os anos de estudante morei em um quarto simples de pensão no Rio de Janeiro.
Era pequeno, com móveis modestos e uma janela por onde entrava, sem pedir licença, o barulho constante da cidade.
Ali eu estudava, lia os livros de Medicina e escrevia cartas para a família em Cuiabá.
Às vezes, o silêncio do quarto contrastava com o movimento das ruas lá fora.
Aquela pensão era mais do que um lugar de dormir — era o território onde eu organizava sonhos, preocupações e esperanças de um jovem que começava a construir o próprio futuro.
No início pensei que teria dificuldade em viver em tão poucos metros quadrados.
Acostumei-me.
Passei onze anos assim.
Quando retornei à minha cidade natal, já casado e com um filho prestes a nascer, fui morar numa pequena casa de oitenta metros quadrados.
Curiosamente, o meu quarto era menor que o da pensão do Rio — e nele o sol quase não entrava.
Mesmo assim, lembro com alegria daqueles anos em quartos que mal comportavam a minha cama.
Foram tempos em que os sonhos começavam, pouco a pouco, a transformar-se em realidade.
Deixei o casarão da rua do Campo, percorri quartos de pensão no Rio e continuei a viver em espaços pequenos enquanto a vida se organizava.
Quando finalmente consegui um casarão no Porto, meu destino já estava consolidado.
Foram dezesseis anos para que os sonhos da juventude se transformassem em realidade.
A vida, porém, gosta de fazer curvas.
Há mais de trinta anos vivo sozinho em um amplo duplex.
E hoje passo a maior parte do tempo em um quarto claro, onde a luz da manhã me desperta.
Penso então como a vida é curiosa.
Cresci numa casa cheia de crianças.
Depois vieram onze anos num quarto de pensão.
Mais tarde, uma pequena casa.
Durante cinquenta anos habitei espaços cheios de gente, movimento e vozes.
Agora somos apenas dois: eu e a cuidadora.
Talvez a vida esteja fechando o círculo.
Voltei, serenamente, ao meu quarto de pensão.
Gabriel Novis Neves
07-03-2026
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