Enquanto muitos cariocas aproveitavam o domingo para ir à praia ou caminhar pela cidade, os estudantes de Medicina quase sempre tinham outro destino.
O domingo, para nós, era dia de recuperar leituras atrasadas, revisar matérias difíceis e tentar organizar o conhecimento que se acumulava ao longo da semana.
Sentado à mesa simples do meu quarto de pensão, passava horas entre livros abertos e anotações espalhadas.
Lá fora, a cidade seguia alegre e barulhenta; ali dentro, reinava o compromisso com o estudo.
A partir do quinto ano, ao ser aprovado no concurso para acadêmico do Pronto Socorro Municipal, escolhi os domingos para os plantões.
Não perdia aulas e ainda aprendia no hospital, onde a Medicina se mostrava viva, concreta, exigente.
Nos primeiros anos, porém, o domingo tinha outro sabor.
Ia ‘filar boia’ na casa de parentes.
A macarronada com galinha era presença quase certa — simples, farta e carregada de afeto.
Às vezes, ainda sobrava tempo para assistir a um jogo do então charmoso campeonato estadual.
Na pensão, a dona da casa e sua mãe idosa, raramente ficavam.
Preferiam o cinema ou o teatro na Cinelândia, onde a vida cultural pulsava com intensidade.
Na década de cinquenta o coração do Rio batia forte no centro da cidade.
Até os desfiles das escolas de samba aconteciam na avenida Rio Branco.
Era também ali que os calouros de Medicina da Praia Vermelha faziam seu trote.
Desfilávamos sem camisa, com o corpo pintado, exibindo uma faixa de calçada a calçada:
— Aí vem a matriz!
Uma pequena banda tocava marchinhas, e alunos e alunas dançavam como um carnaval improvisado.
Curiosamente, os estudantes do interior participavam com mais entusiasmo do que os próprios cariocas.
Quantas madrugadas atravessei estudando, enquanto lembrava daquele desfile alegre, quase um sonho distante em meio às exigências do curso!
Foram seis anos intensos, sem domingos nem feriados de verdade.
Tudo parecia conduzir, a um único momento esperado: o baile de formatura nos salões do Hotel Glória.
E, quando ele chegou, compreendi que cada domingo renunciado havia valido a pena.
Gabriel Novis Neves
24-03-2026
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