Perto da faculdade havia sempre um pequeno bar frequentado pelos estudantes.
Não era sofisticado, mas era ponto de encontro depois das aulas.
Ali conversávamos sobre tudo: Medicina, futebol, política e a saudade de casa.
Entre um café e outro, as preocupações com provas e trabalhos pareciam diminuir.
Aquele bar simples tornou-se parte da vida universitária — um espaço onde a amizade também se construía.
Os estudantes do interior andavam sempre em grupo: onde ia um, iam todos.
Já os do Rio, ao fim das aulas ou dos plantões, seguiam para as suas casas — de ônibus, lotação ou automóvel, muitas vezes já esperados.
Nós, em maior número, ocupávamos pensões e repúblicas nos bairros da Glória, Catete, Flamengo e Botafogo, onde os aluguéis eram mais acessíveis.
Quando a mesada chegava, nos primeiros anos, íamos jantar no bar e restaurante Recreio — mais pela conversa do que pela comida.
Bebíamos chope ‘batizado’ com cachaça, e o prato da vez era o famoso ‘sonho de noiva’: arroz branco, dois ovos fritos e um pedaço de linguiça.
Era o mais barato do cardápio.
De sobremesa, um café.
Namorar, quase sempre, só quando não custava nada — pequenas histórias que a juventude guarda sem cerimônia.
Com o tempo, o Recreio mudou-se para a rua Marquês de Abrantes, quase esquina com a Paissandu, e perdeu o charme.
Outro reduto de estudantes e boêmios era o Lamas, no Largo do Machado.
Dizia-se que ali Noel Rosa se inspirou para compor ‘Conversa de Botequim’.
Tive vários companheiros de quarto de pensão: Carlos Eduardo Epaminondas, que não admitia morar longe de Copacabana; Celso Fernando de Barros, intelectual e grande orador; José Vidal ex-seminarista e o mais namorador; Juvenal Alves Correa, de Campo-Grande; Wanderlei de Souza, do Maranhão; Neyzinho, de Cáceres, Ney Pinheiro e Marcondes Pouso Filgueira, de Cuiabá.
Alguns iam à república para estudar em grupo.
Depois, com a chegada do meu irmão Pedro, passamos a dividir o quarto até o meu regresso.
Hoje, todos esses companheiros já se foram.
E o bar da esquina perto da faculdade, já não recebe estudantes.
Os tempos mudaram — e com eles, ficaram as lembranças.
Resta o que não fecha: a mesa vazia, ainda cheia de vozes.
Gabriel Novis Neves
28-03-2026
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