quarta-feira, 1 de abril de 2026

O BAR DA ESQUINA


Perto da faculdade havia sempre um pequeno bar frequentado pelos estudantes.

 

Não era sofisticado, mas era ponto de encontro depois das aulas.

 

Ali conversávamos sobre tudo: Medicina, futebol, política e a saudade de casa.

 

Entre um café e outro, as preocupações com provas e trabalhos pareciam diminuir.

 

Aquele bar simples tornou-se parte da vida universitária — um espaço onde a amizade também se construía.

 

Os estudantes do interior andavam sempre em grupo: onde ia um, iam todos.

 

Já os do Rio, ao fim das aulas ou dos plantões, seguiam para as suas casas — de ônibus, lotação ou automóvel, muitas vezes já esperados.

 

Nós, em maior número, ocupávamos pensões e repúblicas nos bairros da Glória, Catete, Flamengo e Botafogo, onde os aluguéis eram mais acessíveis.

 

Quando a mesada chegava, nos primeiros anos, íamos jantar no bar e restaurante Recreio — mais pela conversa do que pela comida.

 

Bebíamos chope ‘batizado’ com cachaça, e o prato da vez era o famoso ‘sonho de noiva’: arroz branco, dois ovos fritos e um pedaço de linguiça.

 

Era o mais barato do cardápio.

 

De sobremesa, um café.

 

Namorar, quase sempre, só quando não custava nada — pequenas histórias que a juventude guarda sem cerimônia.

 

Com o tempo, o Recreio mudou-se para a rua Marquês de Abrantes, quase esquina com a Paissandu, e perdeu o charme.

 

Outro reduto de estudantes e boêmios era o Lamas, no Largo do Machado.

 

Dizia-se que ali Noel Rosa se inspirou para compor ‘Conversa de Botequim’.

 

Tive vários companheiros de quarto de pensão: Carlos Eduardo Epaminondas, que não admitia morar longe de Copacabana; Celso Fernando de Barros, intelectual e grande orador; José Vidal ex-seminarista e o mais namorador; Juvenal Alves Correa, de Campo-Grande; Wanderlei de Souza, do Maranhão; Neyzinho, de Cáceres, Ney Pinheiro e Marcondes Pouso Filgueira, de Cuiabá.

 

Alguns iam à república para estudar em grupo.

 

Depois, com a chegada do meu irmão Pedro, passamos a dividir o quarto até o meu regresso.

 

Hoje, todos esses companheiros já se foram.

 

E o bar da esquina perto da faculdade, já não recebe estudantes.

 

Os tempos mudaram — e com eles, ficaram as lembranças.

 

Resta o que não fecha: a mesa vazia, ainda cheia de vozes.

 

Gabriel Novis Neves

28-03-2026







Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.