sábado, 15 de novembro de 2025

GARRAFAS DE LEITE


Relembro o tempo em que o leite era entregue em garrafas de vidro logo ao amanhecer, e o som da carroça do leiteiro servia de despertador para a vizinhança.

 

Quando cheguei ao Rio de Janeiro, em 1953, para estudar Medicina, guardo vivas recordações da garrafinha de leite deixada à porta dos apartamentos e do barulho característico do leiteiro pelas madrugadas.

 

Quantas vezes, estudando até altas horas, ouvia o som da carroça se aproximando.

 

Com todos da pensão dormindo, eu abria devagar a porta de serviço, tomava o leite direto pelo gargalo e, com o mesmo cuidado, deixava a garrafinha vazia na lixeira do edifício.

 

A dona da pensão nunca desconfiou de mim.

 

Outras vezes, voltando de festas, fazíamos verdadeira ‘limpa’ nas garrafinhas encostadas nas portas dos apartamentos.

 

Era uma travessura quase institucionalizada entre os estudantes do Rio de Janeiro daquela época.

 

Com o progresso, as coisas boas da vida que guardamos na memória foram sendo substituídas por um tempo de medo e violência, dominado pelo crime organizado.

 

Ninguém mais caminha pelas madrugadas cariocas, nem percorre a orla do Leme ao Leblon como antes.

 

As figuras tradicionais do Rio — o Pedro das Rosas, os vendedores de amendoim torrado, os espetinhos de churrasquinhos — desapareceram dando lugar aos moradores de rua, menores abandonados, dependentes químicos e malfeitores.

 

A cidade boêmia que conheci, com suas boates, cantores de bar e a Lapa folclórica, ficou no passado.

 

A velhice tem as suas vantagens e desvantagens — a maior delas é lembrar da poesia da juventude que se perdeu.

 

A grande vantagem, contudo, é permanecermos lúcidos, escrevendo crônicas como esta e convivendo com as pessoas que amamos.

 

É um privilégio criar filhos, acompanhar o crescimento dos netos e, agora, viver a paixão dos bisnetos — já são cinco.

 

Meu sonho seria conhecer os doze, conforme o planejamento dos meus seis netos.

 

Gabriel Novis Neves

24-10-2025





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