domingo, 30 de novembro de 2025

CONFRATERNIZAÇÕES


Confraternizações, congratulações, presentes e abraços.

 

Banquetes, ceias, missa do Galo, rojões —agora silenciosos — saudando o Ano Novo.

 

Dezembro é o mês em que as lembranças ganham volume e são tratadas como joias raras.

 

Mas, confesso, desiludi-me com essa falação de ‘melhor de tudo’.

 

A Universidade completa 55 anos de criação neste mês, e realmente tem o que celebrar.

 

Cada curso faz questão absoluta de festejar sua data de fundação.

 

E aí que mora o perigo: dezembro costuma despertar interpretações apressadas.

 

Há anos decidi não mais comparecer a certas solenidades que, nem sempre, dialogam com a justiça e a verdadeira história.

 

Quantos heróis autênticos são esquecidos quando a ideologia ultrapassa os muros da racionalidade, produzindo pequenas injustiças silenciosas.

 

Sou muito procurado para entrevistas e depoimentos — afinal, sou o primeiro reitor ainda vivo daquele tempo em que tudo acontecia.

 

E percebo sempre um esforço em destacar personagens que, na época, estavam muito distantes da realidade que vivíamos.

 

Mencionam nomes quase apagados, e às vezes, atribuem-lhes papéis maiores do que tiveram, sobretudo quando falamos de figuras que realmente influenciaram aqueles momentos decisivos.

 

Talvez seja algo próprio deste mês.

 

Já considero cansativas essas entrevistas e homenagens que surgem apressadas no final do ano.

 

A maior homenagem que se presta a um homem público é cuidar do seu legado.

 

Ele sabe que o trabalho iniciado não terá fim.

 

Eu apenas estive presente no começo — na semente plantada com tanta esperança pela nossa cuiabania.

 

Outros têm o dever de acompanhar a evolução dos conhecimentos e devolvê-los à sociedade.

 

A ciência avança depressa.

 

O que era novidade quando me formei em Medicina, em 1960, virou história — e história precisa ser repassada com cuidado, sem invenções e sem vaidades.

 

Essas preocupações sempre retornam em dezembro, talvez porque o mês nos obriga a revisitar balanços pessoais e coletivos.

 

Enquanto isso, as comemorações seguem firmes, ocupando todos os segmentos da sociedade.

 

E o nascimento de Cristo e a chegada do Ano Novo... quantas vezes deixamos de lembrá-los, distraídos por um bom vinho.

 

Gabriel Novis Neves

24-11-2025




sábado, 29 de novembro de 2025

AS PESSOAS PRECISAM MORRER

 

O que seria da humanidade se as pessoas não morressem?

 

Com toda a tecnologia utilizada atualmente, aliada à inteligência artificial, a vida na Terra seria inviável por causa da superpopulação.

 

Faltariam alimentos e não teríamos onde morar.

 

A promiscuidade chegaria a tal ponto que, para sobreviver, teríamos de comer carne humana.

 

Não gosto nem de pensar nessas loucuras.

 

As empresas de tecnologia da China, a cada dia, colocam à disposição da medicina recursos para que a humanidade viva sempre mais.

 

Hoje já temos uma grande população com idade superior a cem anos.

 

Antes de encerrar este século, qual será a expectativa de vida?

 

O mundo passa fome, e países do continente africano não têm o que comer.

 

O Brasil abastece grande parte do mundo com proteínas animais e vegetais.

 

Mas, se não cuidarmos do nosso meio ambiente, isso poderá faltar para nós e para o mundo.

 

A morte faz parte do nosso ecossistema.

 

Não sou mestre na arte da futurologia, mas os fatos estão a mostrar o que escrevo.

 

Temo que venha a acontecer o que houve no desastre de um avião comercial na Cordilheira dos Andes, no século passado.

 

Essa tragédia, registrada em livros e retratada em filmes, mostra o que o homem é capaz de fazer para não morrer: alimentar-se do cadáver humano.

 

Ainda está vivo um sobrevivente dessa tragédia aérea, salvo pelas vísceras dos companheiros que morreram.

 

A ciência médica, aliada à inteligência artificial, é capaz de produzir situações impensáveis na tentativa de prorrogar a vida humana neste planeta Terra.

 

Novos espaços extraterrestres estão sendo estudados por cientistas, que especulam a presença de vida neles.

 

Os espaços terrestres estão todos ocupados pelo homem.

 

A Lua é explorada há anos e outros planetas estão em estudo.

 

O homem acredita que encontrará planetas com vida semelhante à nossa, talvez mais evoluída, já prevendo uma possível catástrofe na Terra.

 

Vamos aguardar o sucesso dessas conquistas, quando o homem se compara ao próprio Deus Todo-Poderoso, criador do Céu, da Terra e de todos os seres vivos.

 

Gabriel Novis Neves

05-06-2024



PALAVRAS MORRENDO


O excelente escritor e biógrafo de personalidades, Ruy Castro, escreveu uma crônica que é um primor de humor, sabedoria e didatismo sobre palavras que estão morrendo em nosso idioma, substituídas por modismos da moda.

 

Há dias publiquei um texto sobre “palavras modernosas” em alta no momento atual e foquei — veja só — na palavra “tóxica”, que passou a significar tudo de ruim que acontece conosco.

 

Hoje, “tóxica” serve para definir pessoas, ambientes, relações e até emoções que causam danos emocionais ou psicológicos.

 

O imortal da Academia Brasileira de Letras enumera algumas palavras que parecem ter sido condenadas ao desuso.

 

Ninguém mais vive: agora se tem vivência.

 

Não existe mais simpatia: só empatia.

 

Ninguém mais diz “perto”: está sempre próximo de sair, de conseguir emprego, de viajar.

 

Ninguém coloca nada em lugar algum: apenas posiciona.

 

Ninguém termina: finaliza.

 

Ninguém tem resistência física ou emocional: é resiliente.

 

Ninguém completa ou enriquece um texto: atualiza.

 

Ninguém acrescenta algo ou alguém: adiciona.

 

Ninguém entrega ou manda alguma coisa: encaminha.

 

Se for endereço, então direciona.

 

E não há mais respeito ou consideração: tudo virou empatia.

 

A empatia abunda — e virou sinônimo até de simpatia, embora sejam coisas bem diferentes.

 

Falar das palavras que estão sendo expulsas da língua portuguesa é coisa desagradável, polêmica e difícil de abordar, diz Ruy Castro.

 

A não ser que você seja contumaz no uso do “eu foco”, “tu focas”, “ele foca”, “nós focamos” e “eles focam” — e resolva focar nelas.

 

E ainda dizem que somos um país que fala a mesma língua desde o seu descobrimento pelo português Pedro Álvares Cabral, em 1500!

 

Sem contar os 279 povos indígenas, falantes de mais de 150 línguas diferentes, além do nosso vasto linguajar regional, onde a mesma palavra pode ter significados completamente distintos.

 

Gabriel Novis Neves

27-11-2025




quinta-feira, 27 de novembro de 2025

CURSO DE ESCUTAR


“A gente ama não a pessoa que fala bonito, mas a pessoa que escuta bonito”, ensinou Rubem Alves.


O pensamento de Caio Fernando Abreu tornou-se meu mantra:

“Um amigo me chamou para cuidar da dor dele. Guardei a minha no bolso e fui…”.


O que as pessoas mais desejam é alguém que as escute com calma e tranquilidade.

Em silêncio.

Sem dar conselhos.

Sem dizer: “Se eu fosse você…”.


A gente ama não a pessoa que fala bonito.

Ama a pessoa que escuta bonito.

A fala só é bonita quando nasce de uma longa e silenciosa escuta.

É na escuta que o amor começa.

E é na não escuta que ele termina.


Aprendi que, em vez de curso de oratória, precisamos fazer um curso de escutatória.


Não aprendi isso nos livros.

Aprendi prestando atenção.


Todos reunidos alegremente num restaurante — pai, mãe, filhos — um falatório animado.

Na cabeceira da mesa, a avó.

Cabeça branca.

Silenciosa.

Como se não existisse.


Não era por não ter o que dizer.

Era por não ter quem quisesse ouvir.


O silêncio dos velhos.


No tempo de Freud, as pessoas procuravam terapeutas para se curar da dor das repressões sexuais.

Hoje, procuram terapeutas por causa da dor de não haver quem as escute.


Não pedem para ser curadas de alguma doença.

Pedem para ser escutadas.

Querem a cura para a dor da solidão.


Chocou-me aquela avó, com tanta sabedoria, sem que ninguém a ouvisse.


Que eu não continue surdo às vozes da experiência.

Vou tentar aprender a ouvir sem interferir.


Transcrevi quase por completo a crônica da antropóloga Mirian Goldenberg sobre a velhice.

Acredito que muitos se verão neste texto.


No mês do idoso, mais compreensão a eles — este é o meu objetivo.


Gabriel Novis Neves

08 de outubro de 2024




quarta-feira, 26 de novembro de 2025

LÂMPADA ACESA NO CORREDOR


Uma lâmpada indecisa revela segredos da noite e ilumina memórias que ninguém pediu.

 

Era comum nas casas cuiabanas deixar no corredor uma lâmpada que piscava.

 

As crianças tinham horror à escuridão, e minha mãe deixava essa luz trêmula acesa durante toda a noite.

 

Até hoje — e não sei o motivo — não consigo dormir no escuro breu.

 

Preciso ter um ponto luminoso como referência, mesmo que seja o do computador.

 

Quantas lembranças um tiquinho de luz é capaz de despertar, mesmo as que tentamos esconder nas gavetas do tempo.   

 

A cuidadora cobre o moldem do computador que fica em seu dormitório para poder dormir.

 

Eu, ao contrário, só consigo adormecer com uma tênue claridade iluminando o meu quarto.

 

É como se aquela pequena luz piscando no corredor de antigamente continuasse me acompanhando, fiel guardiã das horas silenciosas.

 

A luz que pisca no corredor de um quarto de casal revela segredos que ninguém ousou pensar.

 

A noite é misteriosa, mesmo dentro de casa.

 

Ela traz medos antigos, vultos imaginários, diálogos interrompidos, sonhos que não chegaram a nascer.

 

E também faz aflorar lembranças que ninguém pediu: a infância na rua do Campo, o barulho do vento que não chegava, os passos da minha mãe indo verificar se estávamos cobertos.

 

É quando a noite espanta o sono e deixa a intranquilidade reinar.

 

E como é ruim não poder dormir!

 

Uma noite mal dormida é o outro dia quase perdido.

 

A cabeça pesa, o pensamento embaralha, e o humor se perde pelo caminho.

 

Com a idade, o corpo aprende a negociar com a escuridão.

 

Já não ouso desafiar o breu.

 

Aprendi que uma mínima claridade é companhia, quase uma conversa silenciosa que nos acalma.

 

Aquela mesma luz que piscava no corredor da minha infância continua piscando em mim.

 

E, por incrível que pareça, depois de tantos anos e tantas mudanças, o melhor remédio que conheço ainda é esse: a luz que pisca no corredor.

 

Gabriel Novis Neves

24-11-2025










terça-feira, 25 de novembro de 2025

CABIDEIROS


Atrás da porta do quarto havia sempre um cabide improvisado, que guardava chapéus, casacos e até lembranças.

 

Cada peça pendurada parecia contar a rotina silenciosa de quem chegava cansado e deixava ali um pouco de si.

 

Hoje não há mais espaço para esses cabides improvisados.

 

Os cabideiros modernos são uma mão na roda para pendurar a roupa recém-usada, o boné, ou o guarda-chuva.

 

O da minha casa está no closet do meu dormitório.

 

Está sempre ocupado com a roupa que acabei de usar, bonés, gorros, cinturões de uso diário.

 

Na casa do meu avô o cabideiro ficava no hall de entrada, na dos meus pais no dormitório.

 

É uma peça simples e vertical de madeira ou metálica que serve para organizar e guardar roupas, chapéus, bolsas e guarda-chuvas —um móvel prático que, ao mesmo tempo, decora e dá estilo ao ambiente.

 

Há algo de nostálgico nos cabideiros e nas histórias que eles guardam, especialmente quando ficam nas partes íntimas das casas.

 

O da minha casa é cúmplice de segredos entre mim e ele.

 

Chego a conversar com ele nos momentos de extrema solidão.

 

É um amigo de confiança, porque não fala.

 

Se falasse, muitos segredos seriam revelados.

 

Como é curioso perceber que certas roupas lembram momentos e lugares vividos com emoção!

 

Camisas, calças, ternos, gravatas — cada peça ligada a uma lembrança, a um instante.

 

Abro as portas do guarda-roupa e um filme antigo começa a passar na minha memória.

 

Isso acontece com fatos ocorridos há oitenta anos ou um pouco mais.

 

Minha mulher subiu para o andar de cima há dezenove anos, e ainda hoje sinto emoção ao abrir o seu guarda-roupa.

 

Alguns objetos de uso frequente parecem conservar a presença dos donos — e isso é uma realidade para muitos.

 

Minha casa é um museu de lembranças.

 

Cada cantinho provoca em mim doces recordações e, ao mesmo tempo, uma saudade que dói.

 

Gabriel Novis Neves

12-10-2025




segunda-feira, 24 de novembro de 2025

GUARDANAPO ESCRITO COM BATOM


No café da esquina um guardanapo esquecido trazia um nome rabiscado a lápis.

 

Um amor interrompido, uma despedida silenciosa, um bilhete que o tempo não levou.

 

Tenho reparado que, nas minhas últimas crônicas, ando muito romântico.

 

Será que a idade avançada me faz lembrar da juventude, quando tudo estava ligado ao amor — muitas vezes desejado, mas nem sempre correspondido?

 

Quando fui garçom no bar do meu pai, quantos guardanapos esquecidos com um nome ou uma frase rabiscada recolhi!

 

Nunca imaginei que pudessem esconder um amor interrompido ou uma despedida silenciosa.

 

Geralmente traziam o nome de uma mulher.

 

Pensava tratar-se de uma funcionária, ou talvez do título de uma marchinha de carnaval.

 

Muitos compositores do meu tempo se inspiravam nas mesas do bar e, estabanados, saíam deixando o guardanapo rabiscado.

 

Hoje guardaria esses guardanapos — verdadeiras relíquias — em uma gaveta do meu quarto.

 

Por quantos anos a partitura do chorinho ‘Carinhoso’ do Pixinguinha ficou sem letra?

 

Trinta anos!

 

Até que um dia o letrista João de Barro escreveu os versos, e o mestre os aceitou.

 

Desde então, quase toda a festa termina com todos cantando o imortal Carinhoso.

 

Noel Rosa também escreveu lindas canções em guardanapos de mesas de bar.

 

E numa boate da zona sul do Rio de Janeiro, Dolores Duran escreveu, com batom em guardanapo, a letra de uma das músicas mais belas, musicada por Tom Jobim.

 

Na sorveteria do bar do meu pai os guardanapos esquecidos traziam mensagens escritas com batom.

 

À noite era o ponto preferido das mulheres da chamada ‘vida fácil’, de risadas altas e dentes de ouro, que ali fumavam e tomavam a sua cerveja gelada.

 

Ah! se eu tivesse guardado aqueles guardanapos!

 

Quantos segredos teria desvendado com a ajuda do tempo.

 

Naquele tempo não era costume as pessoas famosas darem autógrafos.

 

Hoje, com a confusão entre conhecidos e celebridades, é comum encontrar nas mesas de cafés, bares e sorveterias, um bilhete rascunhado num simples guardanapo de papel.

 

Como o jovem pensa diferente do velho!

 

Agradeço à idade que tenho por me permitir viver este eterno romantismo.

 

Gabriel Novis Neves

09-10-2025






domingo, 23 de novembro de 2025

A XÍCARA QUE FICOU NA PIA


Após o café da manhã uma xícara esquecida na pia reflete a presença de quem já saiu.

 

Como os objetos guardam conversas que o tempo não leva!

 

Às vezes lembro de certas conversas que marcaram minha vida.

 

Uma delas, com o historiador Rubens de Mendonça, permanece intacta dentro de mim — não pelo assunto em si, mas pelo gesto humano de trocar ideias.

 

O tema era a guerra do Paraguai, mas o que ficou guardado foi a convivência, o valor da palavra dita com calma, como se o tempo ali também não tivesse pressa.

 

Essas conversas assim como os objetos, resistem silenciosamente.

 

A medalha que carrego no cordão do pescoço — companheira de tantas décadas — certamente ouviu confidências que nem eu lembraria de repetir.

 

Quantas conversas ela preservou, e que o tempo não levou?

 

Viúvo, sinto que é minha obrigação zelar por essas conversas que só eu testemunhei.

 

Não tenho mais com quem dividi-las, e talvez por isso mesmo elas se tornem mais valiosas, mais densas, mais urgentes.

 

Fico imaginando se a xícara esquecida na pia se sente abandonada ou se sabe que logo será resgatada, voltando ao convívio da família. Talvez compreenda que seu papel é justamente esse: testemunhar o dia começando, acolher o silêncio de quem partiu apressado, e guardar mais uma migalha de história.

 

Quantas divagações fazemos sobre esses objetos que guardam conversas, enquanto nós, humanos, tantas vezes as desperdiçamos? Somos, como já ouvi dizer, grandes poluidores das próprias palavras.

 

Segredo entre quatro paredes é quase lenda — e ainda acrescentam que quem conta um conto, aumenta um ponto.

 

A xícara esquecida, ao contrário nada aumenta, nada inventa.

 

Reflete apenas, com honestidade simples, a ausência de quem já saiu: o gesto apressado a última golada de café, a pressa de viver que deixa rastros na cozinha.

 

Talvez por isso ela me comova.

 

No fundo, a xícara na pia é mais do que louça esquecida.

 

É guardiã das conversas que o tempo não leva — essas que sobrevivem no silêncio das coisas e no silêncio profundo de quem as observa.

 

Gabriel Novis Neves

19-11-2025




sábado, 22 de novembro de 2025

FERRO DE PASSAR


Escuto o som do ferro deslizando sobre o tecido e me lembro das manhãs da infância.

 

Entre o vapor e o cheiro de roupa limpa, surge uma reflexão sobre o cuidado e o tempo.

 

A velhice revela o quanto cuidamos da saúde — e, ao mesmo tempo, o quanto nos tornamos prisioneiros dela.

 

Aos noventa anos, lúcido e com boa saúde, levo a vida de um encarcerado doméstico: só saio de casa para ir ao médico, de carro, acompanhado de cuidadora e na cadeira de rodas.

 

Na vida que escolhi, tenho tempo de sobra para escrever e recordar os fatos da infância.

 

Como a vida mudou nesses últimos anos!

 

Aqui em casa ainda usamos o velho e pesado ferro de passar, que traz de volta antigas memórias — os sons do ferro roçando o tecido, o vapor subindo, o cheiro da roupa limpa.

 

Quantas boas lembranças a longevidade saudável nos oferece!

 

Eu ficava ali, no chão, fascinado com o trabalho das passadeiras e atento às suas conversas.

 

Os anos passaram, e de vez em quando me recordo das conversas daquelas tardes abafadas.

 

Quanta saudade sinto daquele tempo e das pessoas que já se foram!

 

O ferro de passar é uma desculpa para revisitar um passado que não volta mais.

 

Como as coisas simples, com o passar dos anos se transformam em relíquias de beleza e ainda nos emocionam.

 

Não gosto dos domingos, quando o passado insiste em se misturar ao presente, como um filme que não pedimos para rever.

 

Só quem cuida da própria saúde tem a chance de viver essas lembranças da juventude.

 

Procuro pelos antigos colegas da escola, na esperança de dividir recordações — não reencontros.

 

Até minha esposa, bem mais nova que eu, partiu há tempos.

 

Como eu gostaria de conversar com ela sobre a nossa primeira casinha de oitenta metros quadrados, onde o ferro de passar trabalhava na copa, deslizando sobre o tecido com seu ruído ritmado!

 

Tudo passou como uma noite curta de verão.

 

Gabriel Novis Neves

16-11-2025




sexta-feira, 21 de novembro de 2025

O GATO DA IGREJA


Vive entre bancos e velas, indiferente às preces, mas fiel ao silêncio dos fiéis. 

 

Ninguém sabe de onde veio, mas todos sentem que ele pertence àquele lugar. 

 

O gato apareceu um dia na igreja e, sem pedir licença, adotou a casa. 

 

Nos primeiros dias, o sacristão tentava expulsá-lo para a rua — embora o animal não incomodasse ninguém. 

 

Mas ele sempre voltava, silencioso e determinado. 

 

Ninguém sabia seu sexo, e todos o chamam de ‘o gato’. 

 

Magro e desconfiado, acabou despertando a compaixão do sacristão, que passou a dividir com ele a marmita. 

 

Senhoras caridosas começaram a trazer pequenas garrafas de leite, que despejavam com cuidado num prato esmaltado, esperando que o bichano se aproximasse. 

 

Na reza das sete da noite, sempre sobrava um pedaço da carne da sopa. 

 

O gato foi conquistando a simpatia dos fiéis e, pouco a pouco, foi engordando — talvez mais do que o necessário. 

 

Até que, certa tarde, na missa das cinco, o sacristão, ao abrir as portas, deparou-se com ‘o gato’ deitado junto à pia batismal...  

 

Dava de mamar a oito gatinhos famintos. Solidário, o sacristão levou a recém-descoberta mãe e sua ninhada para o quintal dos fundos da igreja. 

 

Quando os filhotes cresceram, contou o ocorrido aos fiéis, e todos se prontificaram a adotá-los, deixando a mãe no lugar que era seu — a igreja. 

 

Desde então, ela permanece ali, serena, entre bancos e velas, sem incomodar ninguém. 

 

O sacristão, com a ajuda dos devotos, garante-lhe alimento e abrigo. 

 

A igreja foi reformada e as portas passaram a abrir-se apenas nos horários das missas. 

 

Mas ficou a pergunta: como um outro gato soube da presença da fêmea na igreja? 

 

Como a encontrou? 

 

Mistério que ninguém jamais conseguiu explicar. 

 

Talvez fosse apenas uma das discretas formas com que Deus demonstra que a vida — em todas as suas criaturas — é um ato divino. 

 

E assim, a gata continua na igreja, entre bancos e velas, fiel ao silêncio dos fiéis e à saudade da sua filharada cujo destino ignora.

 

 A natureza, afinal, é simples e sábia na arte de perpetuar a espécie. 

 

Gabriel Novis Neves 

11-11-2025




quinta-feira, 20 de novembro de 2025

LUZES QUE SE APAGAVAM


Havia um instante mágico, quase sagrado, quando as luzes do cinema começavam a se apagar.

 

O burburinho cessava, os cochichos se calavam e, no escuro, o coração batia mais forte.

 

Era o sinal de que algo ia começar — uma aventura, um romance e um mundo inteiro que cabia naquela tela iluminada.

 

Lembro-me bem: o cheiro do carpete, o estalar das poltronas de madeira, o brilho das lanterninhas guiando os retardatários até seus lugares.

 

As luzes se apagavam devagar, como se o tempo também diminuísse o passo.

 

E, de repente, o silêncio.

 

Um silêncio cheio de expectativa, de sonhos que vinham de Hollywood e pousavam, por alguns minutos, em Cuiabá.

 

As crianças se ajeitavam nas poltronas, os casais se davam as mãos e os vendedores de balas faziam sua última corrida pelos corredores.

 

A projeção começava, e todos éramos transportados para outro mundo.

 

O Cine Teatro, o Bandeirantes, o Tropical, o São Luiz — cada sala tinha seu cheiro, sua alma e sua plateia fiel.

 

As luzes que se apagavam não apenas anunciavam o início do filme, mas o começo de uma emoção compartilhada.

 

Hoje, nos shoppings modernos, o escuro continua o mesmo, mas o encanto é outro.

 

Falta o ruído das bobinas, o chiado do projetor e o murmúrio de espanto na hora do beijo final.

 

Fecho os olhos e ainda vejo as luzes se apagando devagar, como se anunciassem o sonho que estava por vir.

 

Era o momento em que a realidade se recolhia — e o menino que eu fui sentado na poltrona do cinema, acreditava que tudo era possível.

 

Gabriel Novis Neves

Cuiabá, 11 de novembro de 2025



Cine Parisien






Luiz Montanha projetou o filme "A Noiva", na inauguração do Cine Teatro Cuiabá, na década de 1940.

FOTOGRAFIA
 DO ACERVO DO HISTORIADOR FRANCISCO DAS CHAGAS ROCHA









quarta-feira, 19 de novembro de 2025

O RELOJOEIRO DE MÃOS TRÊMULAS


Consertava o tempo alheio, mas já não dominava o próprio.

 

Cada relógio devolvido era um ato de fé — um segundo a mais roubado da eternidade.

 

O tempo parece castigar quem vive sempre desafiando a finitude.

 

É o caso do relojoeiro de mãos firmes e vista aguçada que resolveu enfrentar o próprio tempo.

 

Mesmo aposentado pela idade, continua em sua oficina tentando consertar o tempo dos outros.

 

A sua idade já não lhe permite tanto, e isso é considerado normal.

 

Cada relógio revivido é mais um segundo arrancado da eternidade.

 

Mas as mãos trêmulas — que ele insiste serem de família — dificultam o percurso pelas engrenagens outrora tão conhecidas!

 

O relojoeiro precisa de mãos firmes para exercer com esmero o seu ofício, além de uma visão privilegiada para apertar minúsculos parafusos.

 

O relógio mudo que chega às suas mãos faz o velho renascer ao ouvir novamente o seu tic-tac.

 

Em todas as profissões temos limites, e chega a hora de parar — é melhor não insistir.

 

O obstetra de idade avançada pode não conseguir ouvir o feto, mesmo com o sonar.

 

Pior ainda quando se confunde ante o canal de parto, complicando tudo mais

 

Eu parei de aparar crianças, por causa dos meus joelhos, aos oitenta anos — lúcido, com boa visão e mãos seguras.

 

Meu avô, mesmo sem audição, exerceu a sua especialidade de otorrinolaringologista até o final da vida.

 

Ele tinha um pacto com Deus ao atender seus clientes.

 

Mas o relojoeiro de mãos trêmulas já não dominava o seu tempo, e mesmo assim insistia em consertar o tempo alheio — verdadeiro ato de fé.

 

Como são bonitos esses atos de perseverança.

 

A minha mãe, longeva, foi adaptando suas atividades profissionais até os últimos anos de sua existência.

 

Eu segui o seu exemplo e descobri, neste meu crepúsculo, a literatura que me oxigena.

 

Com boa memória e todo o tempo disponível — escrevo sem parar.

 

Gabriel Novis Neves

12-11-2025