quinta-feira, 31 de outubro de 2024

A CORRIDA DA NOTÍCIA


Diz um provérbio popular que “notícia ruim corre mais que pensamento”.


E isso é a mais pura das verdades.


Bastou eu ligar meu celular no café da manhã, que as chamadas telefônicas e mensagens pelo whtsap não pararam.


A maioria era notícias ruins, e logo se formou uma cadeia de informações.


O Ministério Público Federal e a Policia Federal realizaram neste início de dia a Operação Bilanz, prendendo o médico ex-Presidente da Unimed e cinco ex-administradores do plano de saúde.


São acusados de um rombo de 400 milhões nas contas da cooperativa que dirigiram.


Além das prisões, a Justiça Federal determinou medidas, como a busca e apreensão de documentos, a quebra de sigilo telefônico, financeiro e fiscal dos investigados e o bloqueio de bens.


Fiquei muito triste com a notícia e seu desdobramento.


As acusações são gravíssimas, podendo levar à falência o maior plano de saúde do Estado, e centenas de médicos cooperados.


Cuiabá é uma cidade carente de saúde de qualidade para todos.


Com a quebradeira da cooperativa de serviços de saúde, hospitais, laboratórios e médicos também serão afetados.


Não sei como iremos sair dessa.


Não acredito que a Justiça Federal irá recuperar o montante dos recursos desviados mostrado pela contabilidade.


Dias sombrios estão a nos esperar, e eu, que uso muito a Unimed pela idade avançada, não sei como fazer com as minhas infusões de imunoglobulinas mensais.


Já estive internado em UTIs de Cuiabá e São Paulo, sendo a melhor de todas a da Unimed Cuiabá.


Isso não serve para aceitar o rombo de 400 milhões de reais.


Vi o nascimento da Unimed e o seu sucesso, culminando com a construção do seu hospital.


Fui seu cooperado até a implantação do curso de medicina da UNIC, me desligando por incompatibilidade de horários.


Nunca participei da sua administração.


Sei como funciona a justiça em nosso país.


Seus administradores logo estarão soltos.


E o dinheiro será recuperado?


Que o diga o ex-juiz federal Sérgio Moro!


Gabriel Novis Neves

30-10-2024




INTOXICADO


Sinto-me intoxicado com o excesso de notícias sobre as eleições.


A última invenção da mídia é que existe no Brasil, direita, centro e esquerda como ideologias políticas.


Para mim a eleição municipal do domingo passado é uma página virada na vivência dos meus 89 anos.


Estou na fase de ser cuidado pelas minhas cuidadoras, que cuidar de alguém.


Esse tempo foi vencido.


Assim como ser amado que amar.


Tenho juízo e estou preparado para a reta final da minha existência, que é a única certeza que me resta desta vida.


Procuro me manter informado com as novidades do mundo que ainda habito.


Pura perda de tempo.


A chamada grande imprensa nacional dedica grande parte do seu noticiário, com notícias pornográficas e imbecís.


Com personagens ultrapassados e desmoralizados como a ‘ex rainha dos baixinhos’ ou a veterana apresentadora de TV que ninguém vê, dando ‘aula sobre um casamento feliz e duradouro’!


A ex-namorada do ‘rei do futebol’ conta com detalhes sobre seu último casamento.


A apresentadora de TV aconselha ‘transar’ fora do casamento para ser feliz.


Subliminarmente elas pregam a desagregação moral e destruição das famílias — com o seu exemplo de mulheres que venderam e vendem os seus corpos desde muito jovens.


Amealharam muito dinheiro no submundo da sociedade, e agora menopausadas encontram espaços generosos para falarem dos seus pudores.


Tenho que falar de flores, no lamaçal social em que fomos levados.


Futilidades e banalidades são notícias diárias.


Temo pela saúde mental dos jovens, vivendo em uma nação onde o erado é certo.


Intrigas e mexericos não saem das manchetes da grande mídia nacional.


Não respeitam os trabalhadores, exaltando sempre os milionários homens de negócios.


A família que luta para educar seus filhos, único caminho para a sua ascensão social e econômica, não serve de exemplo as mídias.


Estou enojado!


Gabriel Novis Neves

28-10-2024




terça-feira, 29 de outubro de 2024

UM DIA SEM COMPUTADOR


Passei o domingo sem e-mail. O motivo foi que o ‘site do Terra’ estava em manutenção.


Isso me causou problemas, pois é nesse dia que faço a programação das crônicas que irei publicar na semana.


Isso não significa que essas escolhas são fixas, e vez por outra estou a mudá-las.


Impossibilitado de receber ou enviar e-mails, fui obrigado a contentar-me com o noticiário da televisão nacional, todo voltado às eleições municipais.


Emoção sentia quando a votação era na cédula de papel, depositado em urnas de tecido verde escuro do Tribunal Regional Eleitoral.


Sua apuração durava dias e era comum urnas serem impugnadas, necessitando de julgamento no TRE.


Muitos candidatos dormiam eleitos e acordavam derrotados.


Era pura adrenalina.


Hoje com o advento das urnas eletrônicas, em uma hora tivemos o resultado das eleições em Cuiabá.


Os jornalistas escalados para as apurações das eleições ficam o tempo inteiro discutindo a ideologia dos candidatos.


Como a maioria deles é de esquerda, ‘puxam a brasa para a sua sardinha’ tornando-se enfadonho aos seus ouvintes.


Não acredito em ideologias, e sim em candidatos honestos, trabalhadores, eficientes, comprometidos com a comunidade, com ênfase em educação, saúde, segurança pública, emprego e qualidade de vida dos eleitores ganhadores e perdedores.


A ‘lengalenga’ sobre quem ganhou e quem perdeu, se da esquerda ou direita não interessa ao eleitor, assim como ‘previsões’ futuras.


O inimigo chamado de adversário político de hoje, poderá ser o correligionário de amanhã e vice-versa.


Quem decide é o povo pelo voto, e torcida e dinheiro nem sempre tem importância.


Estas eleições em Cuiabá decretaram a falência dos institutos de pesquisas e de veteranos marqueteiros vitoriosos.


Assim como dinheiro que sabemos de onde vem, não elege e compra votos do eleitor.


Após o ‘porre de eleições ontem’ vamos aguardar dois anos para votar.


Dessa vez para Presidente da República, dois senadores, deputados federais, governadores e deputados estaduais.


Os acordos das cúpulas dos partidos já começaram, e aqueles com mais de oitenta anos podem se candidatar, sem necessidade de atestado de saúde.


O sonho dos políticos sem votos, é se agarrar em uma vice candidatura para Presidente da República e Governador de Estado, podendo também ser suplentes de senadores.


Gabriel Novis Neves

28-10-2024




segunda-feira, 28 de outubro de 2024

PERCALÇOS DE UM ELEITOR IDOSO


Sai do meu dormitório sentado na cadeira de rodas com a minha cuidadora.


Na garagem o meu filho me aguardava com a sua caminhonete de porta-malas espaçoso.


Escolhi o elevador de serviço para descer.


Logo que iniciou a descida, faltou energia elétrica no prédio onde moro no 20º andar.


Foram momentos horríveis, pois sofro de claustrofobia.


O gerador dos elevadores funcionou, e ele estava parado em frente à parede, entre um andar e outro.


Quando a energia foi suficiente para o elevador continuar a sua ‘viagem até o subsolo’, ele parou em todos os andares.


A cuidadora alojou a cadeira no fundo da caminhonete, e meu filho dirigiu até à seção eleitoral, e eu ao seu lado.


Chegamos ao local destinado para votar para prefeito de Cuiabá, e a ‘operação’ para retorno à minha cadeira de rodas, foi realizada com sucesso.


As minhas três cuidadoras são muito eficientes para esse trabalho.


Sem rampas, público pequeno e educado, logo cheguei à minha seção para votar.


Apresentei à mesária o meu título de eleitor e a minha carteira de identidade.


Em seguida foi me pedido impressão digital.


Avisei que com a idade avançada essas linhas vão desaparecendo.


A mesária iniciou à colher minhas impressões digitais pelo polegar direito, e insistiu por três vezes com o indicador direito, sem sucesso.


Nesse caso digitaram a data do meu nascimento.


Um dos mesários que a tudo assistia comentou comigo que eu era o eleitor ‘mais jovem’ daquela seção eleitoral. 


Retruquei dizendo que por onde passo, esse ‘fenômeno da minha idade’, se repete. 


A votação na urna eletrônica não demorou trinta segundos.


Fiz o retorno até a caminhonete do meu filho, e logo cheguei à garagem do meu prédio, já com energia elétrica.


Descansei até às 16 horas com as aberturas das urnas das cidades com segundo turno.


Se o jogo do Botafogo com o Bragantino no sábado, foi ‘superemocionante’ e com final feliz, espero o mesmo ‘estresse’ com o resultado da eleição para prefeito de Cuiabá.


Que o vencedor seja o melhor para o futuro da nossa querida cidade.


Gabriel Novis Neves

27-10-2024




domingo, 27 de outubro de 2024

PENDURANDO AS CHUTEIRAS


Seria bom se todos nós pudéssemos saber da ‘hora da despedida profissional’.


Muitos avançam o sinal e se dão mal.


Sempre prestei atenção aos sinais da despedida para fechar o meu consultório.


Em casa realizo trabalhos necessários à manutenção do meu cérebro para ele estar sempre em atividade.


Sem compromissos com terceiros e horários.


O primeiro aviso da hora da minha despedida foi com a ‘perda dos joelhos’.


Todas às vezes que me levantava da cadeira da mesa do consultório para exames na sala contígua, sentia dores no joelho e dificuldade para caminhar.


Senti que era chegada à ‘hora da despedida’, e encerrei as minhas atividades profissionais há quase dez anos.


Por isso o governo instituiu a aposentadoria compulsória aos seus funcionários e servidores.


Para os atletas a hora de parar é bem curta, e não adianta forçar a barra com péssimos resultados.


Paul McCartney, um dos maiores músicos do mundo, aos 82 anos está na ‘hora da despedida’, e triste é que não percebeu.


No primeiro dia do seu show em São Paulo no estádio do Palmeiras, não conseguiu vender todos os ingressos, e desafinou pelo menos cinco vezes.


Se estivesse participando do ‘programa de calouros’ do Ary Barroso, seria ‘gongado’.


Está na hora do sobrevivente da ‘banda mais bem-sucedida da música pop’, parar de cantar.


Os ‘Beatles de Liverpool’ de 1960 ganharam fama e dinheiro com o seu rock desafiador de costumes.


‘Desafinado’ em música, só o sucesso do cantor brasileiro João Gilberto.


Paul McCartney não tem o direito de desafinar.


Assisti no cassino de ‘Punta del Este’, no Uruguai, há dez anos um show do Paul McCartney, fantástico!


São momentos que nunca mais esquecerei.


O mesmo não posso dizer da sua apresentação em São Paulo.


Está passando da ‘hora da despedida’ e curtir seus filhos de três casamentos.


Gabriel Novis Neves

16-10-2024




sábado, 26 de outubro de 2024

GUARDAR


Não significa esconder, e sim colocar algo valioso em lugar seguro e de fácil acesso.


Há muito tempo não uso abotoaduras, indispensáveis com camisas de terno.


Tenho dois pares que ganhei, e não me lembro de quem.


Certeza tenho que não as comprei.


Acho ambas bonitas e preciso de uma para usar no sábado.


Estão tão bem guardadas, e não me lembro onde.


O psicanalista aprende a abrir as caixinhas das nossas emoções.


É um trabalho especializado que às vezes demora anos, ou a vida inteira.


Pensei em alternativas para resolver esse problema, que é urgente.


Basta trocar a camisa que precisa de abotoadura, por uma onde o botão resolve.


Complicamos a nossa vida para coisas simples, e esquecemos da sua parte importante, como cuidar da longevidade saudável, educação dos filhos e planejamento adequado, para não sofrermos humilhações financeiras no futuro.


O resto só Deus sabe, como os imprevistos da nossa saúde.


No Brasil é proibido a eutanásia, e quantos de nós nem nos lembramos de doenças, como a de Alzheimer.


Os portadores dessa doença e outras que acometem o nosso cérebro, ficam vegetando dependentes de cuidadoras.


Desligam-se totalmente da vida, e nessa situação podem permanecer com os batimentos cardíacos por anos.


A vida só tem sentido quando se pode viver com todos os sinais vitais controlados e sem nenhuma doença maligna em atividade.


Essa é a velhice desejada, quando coisas sem importância são guardadas e não encontradas.


Os entulhos que acumulamos em nosso cérebro, precisam ser eliminados.


Vamos esquecer das abotoaduras e continuar ativos lendo e escrevendo, participando das novas gerações de netos e bisnetos.


Essas recordações quero guardá-las debaixo do meu travesseiro, neste resto de vida que ainda me sobra.


Gabriel Novis Neves

23-10-2024




MINHA QUERIDA NATHÁLIA


O objetivo deste bilhete é para dizer-lhe o quanto estou feliz com o seu casamento!


Você escolheu como companheiro de toda a vida, o colega Lucas.


Você é a minha quinta neta, e responsável pela sexta geração de médicos ‘Novis cuiabanos’.


Comecei a lhe amar nas primeiras semanas da sua vida intrauterina, já que fui responsável para acompanhar a sua mãe Thereza durante o período do pré-natal.


Seu pai Fernando Gabriel descobriu o seu sexo pela ultrassonografia.


Todos os meses durante a gestação da Thereza, ela ia ao meu consultório.


Eu auscultava seu coraçãozinho e acompanhava o seu desenvolvimento.


Quando a sua mãe entrou em trabalho de parto, nós já éramos íntimos.


Orientei à distância a fase preliminar do trabalho de parto e, quando tive certeza que era momento de internar na Femina, fui ao seu apartamento.


Levei um par de luvas e constatei que você estava quase nascendo.


Coloquei a sua mãe no meu Fusca e me dirigi para a maternidade.


Pedi ao seu pai que fosse antes para avisar ao centro cirúrgico e de partos que sua filha estava nascendo.


Cheguei pela garagem, encostei o meu fusquinha na porta do elevador, e levei Thereza direto para a sala de parto.


As enfermeiras mal tiveram tempo de preparar a parturiente.


Você nasceu de parto normal, gritando para todos ouvirem que você estava na Terra.


Linda história de vida que se desdobra na formação de nova família, com filhos.


Espero a chegada de mais bisnetos.


Gabriel Novis Neves

26-10-2024






quinta-feira, 24 de outubro de 2024

PERDI A SESTA


É normal com o avanço da idade o sono diminuir, e lembrar dos soníferos.


É horrível deitar na cama e não dormir.


Fui criado em casa cujos pais praticavam a sesta.


Continuei com esse hábito e sentia-me mal quando não dormia.


A minha mulher que não era daqui, descobriu as delícias de dormir após o almoço, tomar banho de chuveiro, beber meio copo de água gelada e uma xícara de café quente.


Estava renovada para o segundo período do dia.


Mas, já alguns meses não consigo me desligar e relaxar para pegar no sono.


Fico pensando o tempo todo em bobagens, tarefas que devo cumprir, crônicas que devo escrever, como esta.


O jeito é me levantar e procurar o computador, pois notícias já li as mais importantes.


Evito tomar tranquilizantes ou hipnóticos pela manhã, deixando-os para à noite.


A máscara de CEPAP que coloco à noite antes de dormir me induz ao sono reparador de dez horas.


Após o almoço a máscara não funciona comigo.


Irei ficar assim, já que o importante é dormir à noite.


Sem a sesta interrompida pela reação do meu cérebro, terei muito mais tempo para escrever, já que assuntos não faltam.


Selecionei antigos sucessos da MPB, aqueles do fundo do baú, para presentear todas as noites os meus leitores.


Muitos desconhecem totalmente as músicas, pois não eram nascidos na época.


Os comentários que recebo são deliciosos, e gostaria de citar alguns.


Uma professora Ph.D. da nossa universidade:


‘O que encanta nas músicas dessa época é a simplicidade da letra e do arranjo musical. Tanta beleza e expressividade em pouco menos de dois minutos e meio’


Uma jornalista: ‘Só Ele sabe o que teremos pela frente. Eu aprendi a maioria das músicas como essa em castelhano, quando comecei a ouvir, a língua que era muito próxima de nós na minha Dourados. Sabrá Dios, o que nos separa’.


Uma amiga portuguesa: ‘Essa música da Sula Miranda, direcionada para os caminhoneiros, é muito boa’.


Um médico professor: ‘Essa música saiu do fundo do baú, eu não conheço’.


Professora aposentada: ‘A imortal Carmem Miranda! Foi para outra dimensão, deixando saudades’!!!


Encheria laudas do Word, postando essas respostas gratificantes para as músicas que envio.


Gabriel Novis Neves

22-10-2024




quarta-feira, 23 de outubro de 2024

MEMÓRIA RETRÓGRADA


Muitos acham que aos 89 anos tenho uma invejável memória retrógrada, e eu concordo.


Lembro de fatos da minha infância e juventude, sem jamais esquecê-los.


A partir dos quatro anos lembro nos mínimos detalhes tudo o que me aconteceu.


A viagem de hidroavião para passeio no Rio de Janeiro em 1939 com meus pais, eu, Yara e Pedro — de meses nos braços de minha mãe.


Chovia muito, a banda de música da Polícia Militar tocava, e eu chorava.


Bem mais tarde soube que o coronel chefe da Polícia Militar quando viajava, era praxe naquela época, a banda tocar na despedida e na chegada das autoridades.


Soube também que o coronel era Máximo Levy, meu vizinho na rua de Baixo.


Eu chorava muito com medo do avião, da chuva e do barulho da banda.


Lembro-me da pracinha do Lido em Copacabana, onde minha mãe nos levava para brincar no escorregador e balanço com duas cadeiras, uma minha a outro da Yara, e só.


Não me lembro de outros lugares que visitei, como: a casa da minha avó Eugenia, tias e tios, nem do meu retorno à Cuiabá.


Lembro das histórias que o meu pai me contava, dos moradores da rua de Baixo, do tempo que moramos com o meu avô Alberto Novis, quando aprendi a jogar xadrez antes de ser alfabetizado.


Dos passeios com o meu avô no Porto, montado no seu cavalo.


Os médicos antigos usavam o cavalo como meio de transporte, depois motocicletas e finalmente automóveis.


Dos seis anos até hoje me recordo dos fatos, reuniões e conversas que foram importantes para mim.


Estou escrevendo sobre esse assunto provocado por uma carta de um amigo da década de setenta.


Ele cita que teve uma reunião comigo e indica o local.


Eu não me lembro absolutamente nada do relatado.


O nosso cérebro costuma deletar o que não é importante.


Esse assunto não deveria ser do meu interesse e o meu cérebro com certeza, me fez esquecer.


Escrevo sobre o passado e o meu consultor é a minha memória retrógrada.


‘O que a memória ama fica eterno’ —Adélia Prado.


Gabriel Novis Neves

19-10-2024


Rio de Janeiro, Copacabana,
Praça do Lido, 1939.
Gabriel e Yara




BASTOU CHUVISCAR


Para a população cuiabana se alegrar basta um chuvisco pela manhã, embora o termómetro na hora do almoço estivesse marcando 34º!


O asfalto da minha rua amanheceu molhado, bom para o meu jardim e sua cuidadora.


Se hoje não chover mais, o meu jardim será molhado à tarde.


O serviço de meteorologista avisa que irá chover à tarde e à noite.


Como esse serviço não tem credibilidade, vamos esperar para ver até quando teremos o céu com nuvens de queimadas.


Sinto saudades daquelas chuvaradas do meu tempo de criança, com raios e trovões.


Gostava de sentir o borrifo cair no meu rosto quando deitado no dormitório.


Os casarões antigos eram cobertos com telhas de barro, assentadas em ripas sem forros.


Os quartos mais escuros eram premiados por espaços com vidro.


A minha casa possuía dois corredores separados por uma porta que tinha a parte inferior inteira de madeira e a superior de madeira roliça, com chave, de maneira para ser visto por alguém de dentro de casa.


Os corredores eram os locais prediletos da gurizada para os jogos de botões, retirados dos casacos do meu pai, com exceção do goleiro que era uma caixa vazia de fósforo entupida de terra.


Telefone fixo pregado na parede e o enorme aparelho de rádio-eletrola em um canto que não atrapalhasse a passagem das pessoas.


Quatro enormes salas que serviam de dormitórios e ‘sala de visitas’.


A continuação dos corredores terminava na varanda onde a família se reunia para bater papo com ‘visitas mais caseiras’.


As ‘importantes’ eram recebidas na sala de visitas.


Após a varanda vinha a copa, lugar das nossas refeições, do pote de barro para a retirada da água que bebíamos, coberto com um prato de alumínio, com uma toalhinha de crochê feito pela minha mãe e o caneco de alumínio par a retirada da água.


Depois da copa vinha a cozinha, com fogão de lenha e forno de tijolos.


A banha de porco para preparar nossas refeições era comprada em latões de 20k e ficava ao lado do fogão.


Banheiro da família e ao lado local para passar ferro com brasa nas roupas da casa.


Como era gostosa a chuva de antigamente, com o quintal forrado de mangas!


Elas eram catadas e vendidas nos armazéns da rua do Meio.


Tudo passou tão rápido, deixando saudades das coisas simples da minha Cuiabá, como uma boa chuvarada.


Gabriel Novis Neves

17-10-2024





segunda-feira, 21 de outubro de 2024

SEMANA DE FESTAS


Entramos na ‘semana de festas’ para a nossa família.


No sábado minha neta caçula, que é médica, irá se casar com Lucas, seu colega de faculdade.


Alguns virão de fora, como a mãe e irmã do Lucas, do Rio de Janeiro, e de Portugal, sua prima Bruna com o filho Lourenço.


No sábado passado minha filha escolheu a roupa que irei comparecer aos eventos do casamento civil e religioso.


Terça –feira haverá um jantar de confraternização familiar no apartamento do meu filho Ricardo.


A cozinha deverá ficar por sua conta e do seu sogro Mauro Arantes, craque na preparação de quitutes saborosos.


Na 5ª feira o casamento civil será realizado no salão de festas do prédio onde mora minha neta Isabelle, seguido do jantar preparado por um buffet.


Sábado será o grande dia, com o casamento religioso no santuário de Nossa Senhora Auxiliadora.


Meus três filhos e três netas casaram lá, e são muito felizes.


Minhas duas bisnetas levarão as alianças e meus dois bisnetos participarão do cortejo nupcial.


A bisneta de cinco meses comparecerá nos braços da mãe.


A igreja deverá estar lotada, pois o casal é muito querido na nossa cidade.


O exercício da medicina propiciou a eles uma maior aproximação com a sociedade cuiabana.


Após a cerimônia religiosa os noivos receberão os cumprimentos em um buffet da cidade, seguido do jantar juntos aos seus pais.


Haverá música boa para dançar e bebidas.


Essa festa se prolongará até o dia clarear,


Está programada para ser uma ‘festa de arromba’.


Muitos sairão do buffet direto para votar nas eleições para a prefeitura de Cuiabá, para só então descansarem até às quatro da tarde, início da apuração.


A tradicional ‘lua de mel’ será em um pequeno país ‘perdido’ na Ásia, banhado pelo oceano Índico, onde tudo é muito caro.


A religião predominante é o islã.


O mundo evoluiu, os valores são outros, mas a tradição do casamento da noiva vestida de branco, véu e grinalda, com a lua de mel bem distante, continua.


Que sejam felizes e com muitos filhos, são meus votos.


Gabriel Novis Neves

21-10-2024




domingo, 20 de outubro de 2024

SINTONIA DE RÁDIO


Recebi de um empresário de comunicação um convite que me fez lembrar dos primórdios do rádio, quando aos domingos na hora do almoço escutávamos a ‘crônica da cidade’.


Ouvia Rabelo Leite, Alves de Oliveira, Paulo Zaviaski, Brunini, entre outros pela Rádio A Voz do Oeste, a pioneira.


O jovem empresário me propôs que escrevesse uma crônica que não fosse longa, falando de Cuiabá e meus amores.


Ele contrataria um locutor para a leitura em sua plataforma digital, que tem centenas de seguidores.


Iria procurar também patrocinadores.


Dando certo esse projeto, sobraria um dinheirinho para mim, que sempre é bem-vindo.


Tenho quase quatro mil textos publicados, e nunca recebi nada por esse trabalho.


Quanto maior o número de acessos na plataforma da crônica, melhor o rendimento para o autor do texto lido.


Foi um convite diferente que recebi, e pretendo atender logo ao pedido.


Com esse dinheiro recebido, abrirei uma conta na poupança, pois não sei o que poderá me acontecer nos próximos anos.


A vida é longa cheia de imprevistos, onde é proibido adivinhar.


Gosto de tudo de Cuiabá.


Do seu povo gentil e acolhedor de fala peculiar.


De suas ruas, com subidas e descidas, estreitas e curtas, sem saída.


Seus becos, morros, largos.


Com seus apelidos gostosos: rua de Baixo, do Meio, de Cima, do Campo, da Fé, da Piçarra, da Esperança, do Cemitério, do Baú, da Lixeira, da Boa Morte, do Colégio dos Padres, do Areão, do Mundéuzinho, do Araés, do Quilombo, do Caixão, Lava-pés.


Becos como: o Alto, o Torto, o Estreito, o do Urubu, o Quente, o Sem Saída, o do Candeeiro.


Morros como: o da Prainha, da Luz, do Tambor, do Coxipó.


Largo da Matriz, da Mandioca, o Jardim, Campo d´Ourique.


Rio Cuiabá, cortando a cidade e o do Coxipó.


Assim como as pessoas, todos os seus lugares públicos eram conhecidos pelos seus apelidos.


Esses são os amores da minha Cuiabá.


Gabriel Novis Neves

21-04-2024




sábado, 19 de outubro de 2024

PIPOCA


Conheci pipoca na carrocinha que ficava estacionada em frente ao bar do meu pai e na porta do Cine Teatro Cuiabá.


Era vendida em saco de papel pequeno e grande, bem salgadinha.


A meninada da minha época assistia a sua fabricação e sempre consumia.


Essas carrocinhas expandiram para as portas das escolas, e bem mais tarde para dentro da cidade universitária.


No escuro do cinema era comum se ouvir o barulho da mastigação dos milhos da pipoca.


Comprava-se o ingresso para o cinema com um saco de pipoca na mão.


Quando foi instalada a universidade federal no Coxipó da Ponte, logo apareceu a carrocinha de pipoca.


O pipoqueiro, que até hoje tira o seu sustendo da venda da pipoca, teve todo o apoio da reitoria.


Trabalha, inclusive à noite, e a carrocinha é guardada nas dependências da universidade.


Isso despertou a curiosidade de alunos e professores, que ficaram seus amigos.


Certa ocasião, recebi fotografias do pipoqueiro e sua carrocinha, no lugar onde ficava após o término das aulas da noite.


Um professor, que ficou muito amigo do vendedor, sendo inclusive seu ‘biógrafo’, colocou-o em ‘vídeo e voz’ para um papo comigo.


Fiquei sabendo de fatos que nunca imaginei, bastante gratificantes para mim, como por exemplo, a sua permanência na cidade universitária e como tudo começou na vida desse ‘migrante e pobre’.


Tenho em casa sempre o milho de pipoca, e em ‘casos especiais’ peço a cuidadora de plantão que prepare uma vasilha para mim.


É quando, encostado na cabeceira da cama amparado por três travesseiros, assisto pela TV, as partidas do meu ‘time do coração’ e o de ‘adoção bairrista’.


Pipoca gostosa é bem salgadinha, e não vejo quando a travessa se esvazia.


Em jogo difícil, peço bis, e termino com a outra quantidade sem perceber.


Durmo bem e só vou me lembrar das pipocas salgadas quando vou pesar e constato aumento do peso produzido pela retenção de líquidos pelo sal da pipoca.


Prometo que não irei mais pedir pipoca salgada, mesmo que o ‘meu time esteja sofrendo’.


Gabriel Novis Neves

12-07-2014