quinta-feira, 15 de fevereiro de 2024

MORTE, UM ASSUNTO RECORRENTE


Era bem cedo ainda. De uma amiga do Sul recebi mensagem dizendo estar curtindo uma santa chuvinha. Dessas gostosas para ficar na cama por mais um tempinho.


Aqui no Centro Oeste as mudanças climatológicas sempre se fazem de baixo para cima.


Provavelmente, já depois do almoço teremos pelo menos um chuvisco em alguns bairros da nossa cidade.


Chuvinha boa para molhar as plantas do meu jardim, que solicitam mais água para florir.


Com a chegada do carnaval, temos que nos preocupar com a dengue e com a covid, que insistem em não nos deixar em paz.


No início do século passado, não tínhamos antibióticos nem vacinas. Daí, os exames complementares de imagens se resumirem em um simples Raio X de difícil definição.


Os laboratórios de análise clinica ficavam no exame simples de urina — para pesquisa de infeção e albumina — e de sangue.


É, passei por esse verdadeiro corredor de terror, vivendo sonhos realizados.


Nunca pensei que pudesse chegar até aqui para relatar isso.


Para aqueles que nasceram na década de trinta, quando a expectativa de vida beirava os cinquenta, considero-me uma lenda desse período.


Uma de minhas irmãs há que vive ‘intrigada’ comigo por escrever, aqui e ali, sobre a morte. Diz que tenho uma obsessão por esse tema. Nesse ponto, não é que ela tem toda a razão?


Quando nasci, meu pai já estava no alto dos seus quarenta anos, ‘cheirando’ à expectativa de vida, que atingia os cinquenta anos.


Fui educado por um pai idoso. Então, era frequente estar lado a lado com colegas de classe órfãos.


Hoje, já estou vizinhando os noventa, com expectativa de chegar ao centenário. Que Deus me ouça!


Escrevo sobre a morte porque tive a ventura de não ter sido ainda, nem de longe, ameaçado por ela.


As doenças que me acompanham, são degenerativas, próprias do envelhecimento.


Daí a razão de chamar a atenção para situações em que a morte nos afasta dos nossos amores. Aliás, no dia a dia não damos nenhuma atenção à ‘danada’.


Sim, vou me inclinar ao carnaval, alegria do povo, com o ‘enterro dos ossos’.


Gabriel Novis Neves

08-02-2024



Celebração do 'Día de los Muertos', 
no México


terça-feira, 13 de fevereiro de 2024

ÀS VOLTAS COM A INSÔNIA


Mesmo na qualidade de médico, sou um disciplinado usuário de medicamentos, sempre prescritos pelos especialistas.


Não sou alérgico, o que facilita — e muito — o trabalho de meus colegas.


A enfermeira acompanha a distribuição dos remédios, respeitado o horário. Depois, prega o papel na parte interna da ‘janela’ do armário da copa. 


É roteiro para as cuidadoras. Sem essa ‘colinha’, a administração correta dessas drogas se faz impossível!


Toda atenção a postos, necessito sempre de uma ajuda às oito e às dezoito horas. O total chega ao ‘assombroso’ número de vinte e um comprimidos e cápsulas.


Tenho mantido esse ritmo no decorrer dos últimos cinco anos. Coberto de sucesso!


Mas — existe sempre um ‘mas’ — tomei a peito a decisão de suspender um deles.


E o fiz sem consultar o especialista que me receitou o medicamento para combater minha terrível insônia. Eram três.


Tomando-os, eu passava o dia todo sonâmbulo, o que me dificultava as ações.


Às oito e meia da noite, o sono já me abraçava. Logo me deitava: onze horas seguidas.


Acordava espontaneamente. Tomava o café e me punha a trabalhar, mas com vontade de ficar na cama. 


Resolvi, sem consultar meu especialista, suspender um dos ansiolíticos de receita branca carbonada!


Meu Deus! Por que fiz isto! 


Fui me deitar às nove da noite. Precisei chamar a enfermeira de plantão quase à meia-noite. 


Decidi recuar: tomei o medicamento que havia suspendido. Mais duas horas de espera, e nada do sono chegar!


A enfermeira me ofereceu uma banana-maçã. Recusei. Já me havia servido de outras duas antes de me deitar. 


Nova oferta: um pedacinho de pudim de leite com duas gotas de um hipnótico.


Não pude recusar. Afinal, era a minha última cartada para não passar a noite às claras.


Veio-me a ideia de escrever esta crônica já totalmente estruturada, ao menos na cabeça. Acabei dormindo.


Manhãzinha, o Sol já vinha espreguiçando. Fui acordado pela enfermeira para a rotina do novo dia.


Às oito horas, aferição do peso corporal, sinais vitais, colírio lubrificante. 


Só então pude dar sequência ao que me enche o dia de encantamento. Sem minha crônica diária, parece que meu coração não sorri.


Gabriel Novis Neves

13-2-2024




segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024

TRÍDUO DE MOMO


O chamado ‘tríduo momesco’ — corresponde ao domingo, segunda e terça-feira — pode englobar mais dias, a depender da região.


Ao sábado precedente a ele, diz-se ‘sábado gordo’. O seu baile é o mais concorrido.


No domingo e na terça da despedida do carnaval, os foliões invadem as ruas até raiar a quarta-feira de cinzas.


Mesmo sabendo que essa festa se repete ano a ano, as folias de Momo deixam saudades. Essa a razão por que o povo as estica para o primeiro domingo da quaresma. É a festa do ‘enterro dos ossos’.


Em Cuiabá, ‘a maior expressão de nossa cultura popular’— que é o carnaval — está com seus dias contados. Se é que…


Nas grandes cidades brasileiras, especialmente naquelas com sambódromo, as seis escolas vencedoras exibem o troféu no domingo do ‘enterro’.


E saber que o carnaval no Nordeste tem seu início nas festas do réveillon! A data para encerrar, só Deus sabe.


O ‘Bacalhau da Batata’ é um bloco famoso: ele desfila na quarta-feira de cinzas em Olinda, Pernambuco.


Ali, milhares de incansáveis foliões reeditam o bloco dos ‘bonecos gigantes’.


Já em Recife, dançam sem parar as ‘vassourinhas’. Haja preparo físico, resistência e juventude para levar o ‘frevo’ pra avenida.


Em Salvador, despontam os ‘trios elétricos’. Os shows de grandes artistas empolgam os foliões.


Acentuo a rivalidade entre o carnaval do Rio e de Salvador. São considerados os melhores do mundo, cada um com sua peculiaridade.


No Rio de Janeiro, as ‘escolas’ desfilam na rua Marquês de Sapucaí, no sambódromo. A curtição do povo é sem igual.


Em Salvador, os trios elétricos percorrem os circuitos carnavalescos, com seus artistas preferidos. O povo acompanha os trios cantando.


Não de agora, existe essa ‘birra’ entre as cidades para saber quem é o ‘maioral’ do carnaval.


Não por acaso, aqui também havia muita discussão para saber quem tinha o melhor carnaval de Mato Grosso. Isso, antes da divisão do Estado.


Corumbá, além do dinheiro a potes dos fazendeiros do Pantanal, levava a fama da belezura do rio Paraguai. Sem dizer de suas mulheres: uma mais linda que a outra.


Mas — isto não carece de discussão — o melhor carnaval sempre foi o nosso.


Até a nossa Universidade Federal ostentava uma escola de samba! Nunca soubemos o que é perder título! Uau!


Gabriel Novis Neves

11-2-2024


Fotografias de domínio público, na Internet:












Vídeo criado e publicado por FRANCISCO DAS CHAGAS ROCHA no grupo do Facebook "Cuiabá-MT de Antigamente" a partir de registros fotográficos de lentes de 
Foto Chau e Nenê Andreatto 

<https://www.facebook.com/share/v/Qx94gtg9YroJc1Jg/?mibextid=oFDknk>

MEU PAI, O BUGRE


Sem curso superior e vivendo de biscates — hoje diríamos ‘bico’ —, no alto dos seus 26 anos meu pai resolveu abrir um bar.


Nessa empreitada, teve o auxílio de sua mãe, Eugênia. Carioca, era filha única de um marechal gaúcho com uma argentina.


Abriu o bar na antessala de um galpão do cinema de Cuiabá, no centro da cidade. Na retaguarda, sua mãe e irmãs: forneciam salgados à ‘empresa’ familiar.


Cabia a ele agasalhar seus irmãos menores no ensino fundamental. Tinô, Ioiô e Joãozinho vieram se juntar ao proprietário ‘Bugre’, um nadinha mais velho.


O sucesso do negócio foi tanto, que comprou bela residência. Ficava na esquina da rua de Cima, ao lado da Sé Catedral.


Reformada a residência para bar e sorveteria, mudou-se do barracão do cinema, onde trabalhara até 1970. Foi quando fechou o bar, meio século de portas abertas.


Numa cidade calorenta, para o sustento da família, nada melhor do que vender cerveja, refrigerante e sorvete.


Meu pai, na rota do costume da época, teve nove filhos. Desses, quatro homens.


Preocupado com o amanhã, estimulou a todos fizessem o curso superior. Resultaram daí dois médicos e um economista. O caçula, que lhe leva o nome, é bacharel em direito.


As meninas são casadas: três são normalistas, uma pedagoga e outra assistente social.


Esse preâmbulo testemunha a inteligência prática e o cuidado que meu pai, Olyntho Neves — o bugre do bar —, emprestou ao que fez.

 

Trazia esta convicção: não havia melhor maneira de educar que não pelo exemplo.


Como não me lembrar do seu carinho aos irmãos: a todos bem encaminhou. Um ficou com ele até que tomou a decisão de fechar o bar.


Curioso: a nenhum dos filhos incentivou a continuar o seu negócio. Ah, colheu em vida o acerto de suas escolhas!


Os pais eram decisivos no futuro dos descendentes.


Meu pai teve nove irmãos. Os três mais velhos puderam estudar no Rio de Janeiro.


Dois deles abraçaram a magistratura, aposentados como desembargador. Um foi engenheiro agrimensor.


Sem recursos para sustentar a ‘escadinha’ no Rio, os demais irmãos ficaram por aqui.


Minha avó, retornando ao seu torrão natal, levou seu filho caçula. Foi procurador do Ministério da Fazenda.


Só uma pessoa bafejada por tamanha largueza de visão seria capaz de fazer o que meu pai se propôs a fazer.


Não nos cumulou de bens materiais. A todos brindou com a educação superior.


A mim, primogênito, foi dado o privilégio de implantar — a outros abraçado — a UFMT. Também fui o primeiro médico da ‘dinastia’ Novis Neves.


Nosso pai — isso nos ficou — foi um ser extraordinário. 


Temos certeza de que ele, feliz, assistiu a tudo que fizemos. Plantada por nossos pais, essa árvore floresceu frutos de excelência. Nossa gratidão!


Gabriel Novis Neves

23-1-2024




domingo, 11 de fevereiro de 2024

TUDO É CARNAVAL


De hoje por diante, tudo se resume a carnaval nas principais cidades do Brasil.


Entre elas, sete dispõem de ‘sambódromo’: Rio de Janeiro, São Paulo, Florianópolis, Vitória, Santos, Porto Alegre e Manaus.


O nome ‘sambódromo’ foi proposto por Darcy Ribeiro. Compreende esse espaço com arquibancadas, arquitetado por Oscar Niemayer.


Antigamente, as ‘Escolas de Samba’ desfilavam pelas avenidas comuns.


O sucesso desse novo lugar para as ‘escolas’ desfilarem foi de total deslumbramento no carnaval carioca de 1984.


Não demorou, foi copiado por outras seis cidades brasileiras.


Em quase todas as capitais e nas principais cidades, brilha um bom número de escolas de samba.


Custo altíssimo. Está a depender de doação do governo e das empresas, a que se soma a venda de ingresso para o desfile.


Quando televisada, cobram cachê. O seu samba-enredo é comercializado.


Aos turistas se impõem preços escorchantes para a fantasia e para o ingresso, franqueada a eles a participação nos desfiles.


Bem no início, tive direito ao ingresso em camarote vip, com diversas atrações nacionais e internacionais. Bebida de boa qualidade e abundante. Ah, isso rolava!


Fui uma vez ao Sambódromo da Sapucaí. Não pretendo decepcionar meus amigos: não me candidato a voltar!


O desfile se caracteriza pela monotonia, sendo repetitivo e, até mesmo, sem graça.


Hoje, nem pela televisão me dou ao prazer de assistir a essa festa popular, tida como a maior do planeta.


Os temas focam sempre a história de nossa escravidão. Sobressai igualmente nossa descendência africana, assim como as riquezas naturais e minerais. Na mira, cintila a vida no morro.


Cuiabá teve suas escolas de samba, mas já vai longe: de sessenta a oitenta. Deixou saudades. Isso, sim!


Hoje, desapareceram das avenidas e clubes, ficando o carnaval de rua restrito a Chapada dos Guimarães, Livramento, Santo Antônio de Leverger e Barão de Melgaço.


Nossos compositores já não se seduzem com a produção de músicas carnavalescas.


 E o nosso carnaval agoniza, não obstante o esforço de uns poucos que resistem.


Este ano, para complicar, temos que enfrentar novo ataque da variante da Covid, que afugenta as multidões.


Ficar em casa — que me perdoem os amantes do carnaval — é melhor numa cidade em que os súditos do Momo não imperam.


Gabriel Novis Neves

10-2-2024


Praça do Choppão preparada para receber foliões, sábado de Carnaval

Lá no fundo da imagem, o terror


sexta-feira, 9 de fevereiro de 2024

"SE ELA DANÇA, EU DANÇO" (Composição: MC Leozinho)


Escrevi um texto intitulado ‘liberdade extremada’: são novos costumes baseados em fatos reais. Depois de pronto, eu o li e reli por diversas vezes.


Assaltou-me uma dúvida no tocante à conveniência ou não de publicá-lo. 


Como esse costume, além de recente, é até recorrente, decidi compartilhar.


Interessante como as pessoas se interessam por saber absurdamente dos hábitos dos outros, ainda que os mais íntimos.


Tenho certeza de que meus leitores irão se divertir com a curiosidade de alguns.


Vou-me arriscar a contar um fato que aconteceu comigo há bem pouco. 


Não vai longe o dia em que passei a partilhar uma música à noite. Atribuo a ela o nome que julgo ser o mais condizente.


Postei ‘Café da Manhã’, de Roberto e Erasmo Carlos, cantada por Erasmo e Nara Leão. Como envio a quem me é próximo, ousei dar-lhe este título: ‘Música de Motel’.


À época em que estourou a indústria dos motéis, essa música era tocada, no mais das vezes, pela dupla.


A dupla — isso é chover no molhado — era famosa, com notoriedade à farta.


Destampou a curiosidade de uma universitária, já no gozo da aposentadoria. Ao ouvir ‘café da manhã’ como música de ‘motel’, quis saber se fazia tempo que eu não o frequentava. 


Esse texto e canção — bom é esclarecer —, eu não enviei a uma pessoa em particular. Remeti a meus três grupos de amigos, sem distinção.


Vem-me aquilo de sempre: quem pergunta, acaba por correr o risco de receber o troco da resposta. E essas perguntas, algo indiscretas, não costumam acabar bem.


Acovardado, refletindo bem, entendi que o melhor a fazer seria não alongar a conversa. 


A vida moderna encerra certas situações das quais é difícil desfazer a teia em que nos enleamos.


Enviar uma crônica, uma flor ou uma música para, pelo menos, quinhentas pessoas pode nos tecer embaraço.


Hoje à noite, tenciono enviar uma ‘música para dançar’. Será, de novo, encaminhada ao mesmo grupão.


Quero só ver como é que eu vou me sair dessa ‘confra’. Se essa turma toda inventar de me convidar a uma dança, não sei como reagirei? Haja fôlego!


Eis o que me ficou disso tudo: a vida segue ministrando suas aulas. Só não aprende aquele que tapa os ouvidos a ela. 


Gabriel Novis Neves

11-2-2024









quinta-feira, 8 de fevereiro de 2024

TECNOLOGIA DESUMANA


Trabalhar dependendo de tecnologia não é tarefa das mais fáceis.


A pessoa tem que dominar o conhecimento tecnológico básico. Caso não, fracassa em suas pretensões.


Desde cedo, estou tentando utilizar o e-mail de meu notebook.


Clico o título da crônica, ela não abre. Na telinha, aparece uma circunferência fina que roda sem parar.


Roda, roda, roda e desliga. Na parte superior do e-mail, em letras vermelhas, o aviso: ‘problemas com a conexão’. O aparelho se desliga, e tudo volta à estaca zero.


Primeiro procurei socorrer-me de meu fisioterapeuta. Ele passeia, soberano, por este campo. Prometeu-me que, no dia do meu tratamento — faltam só ‘cinco’ —, poderia me ajudar.


‘A máquina é inteligente e, às vezes, trava para segurança do usuário. Nesses casos, é preciso reconectá-la.’ Aí está sua orientação.


Esse procedimento é bem comum em meio aos que sabem do riscado. Mas não é esse o meu caso.


Liguei para meu técnico em informática. Por estar em atendimento, só poderá me socorrer daqui a uma hora.


Chove chuva fina lá fora.


Quando chove com ventos, o sinal da tevê fica magoado. E quem sofre é o usuário.


De repente, o técnico me chama pelo WhatsApp. A ele, repasso o problema.


Pede-me que abra, na tela do computador, o aplicativo Team Viewer e lhe forneça o ID e o número da senha.


Reinicia seu trabalho à distância. Do meu escritório, passo a acompanhá-lo, embora nada entenda…


Recomenda que eu desligue o ‘modem’ (leia-se môudem) por cerca de dez minutos e depois religue.


Pronto, estava concluído! Seu atendimento foi um sucesso!


Como é que pode um jovem dominar, com mestria, nossa sofisticada tecnologia?


Cheguei ao fim da tarde, sem pendência nenhuma.


No dia seguinte, em um procedimento no hospital, causou-me estranheza saber que ali ninguém possuía iPhone. 


Procurei ajuda para receber o sinal do wi-fi. Não havia quem soubesse manejar o iPhone.


Casa com o que penso: até mesmo em tecnologia, a dificuldade para sermos solidários impera. 


A meu modo de ver, mais um indício de que a tecnologia não é humana.


Gabriel Novis Neves

3-2-2023