sexta-feira, 17 de julho de 2026

ROUPAS NOVAS


Poucas emoções eram tão esperadas quanto vestir uma roupa nova pela primeira vez. Muitas vezes ela ficava guardada durante dias, reservada para um domingo, uma festa ou uma celebração especial.

 

Quando finalmente chegava o momento de usá-la, surgia um orgulho silencioso estampado no sorriso de quem a vestia.

 

A simplicidade daquele gesto transformava a novidade em uma verdadeira comemoração.

 

O meu primeiro terno só fui comprar quando já era estudante no Rio de Janeiro.

 

Em Cuiabá usava roupas simples e os uniformes escolares.

 

Certa ocasião minha mãe foi convidada para o casamento civil da filha única de uma grande amiga.

 

Como havia uma criança pequena em casa e ela não dispunha de roupa adequada para a cerimônia, pediu que eu a representasse.

 

Meu pai era um homem discreto.

 

Sua vida se resumia ao trabalho e à nossa casa.

 

Coube a mim cumprir a missão.

 

Eu tinha apenas onze anos e respondi que não possuía roupa apropriada para uma festa onde estariam presentes tantas autoridades.

 

Ela sorriu e perguntou:

 

— E o bonito uniforme branco do colégio dos padres, feito por alfaiate e ainda sem uso reservado para o desfile de Sete de Setembro?

 

A solução estava encontrada.

 

Aprontei-me e fui para a casa da noiva, que ficava próxima da nossa.

 

Ao chegar, procurei os pais da noiva para justificar a ausência dos meus pais.

 

Em seguida, ofereceram-me uma cadeira.

 

Ali permaneci durante toda a solenidade, sem conversar com ninguém, vestido com o impecável uniforme branco e segurando o boné no colo.

 

O tempo parecia não passar.

 

Meu maior desejo era voltar para casa, livrar-me daquele traje e dar por cumprida a tarefa que minha mãe me confiara.

 

Esse episódio aconteceu há oitenta anos e permanece vivo na minha memória.

 

Hoje percebo que não era apenas uma roupa nova que eu estreava.

 

Estreava também a responsabilidade, a confiança dos meus pais e o respeito que as crianças tinham pelos adultos.

 

Procurei transmitir esses mesmos valores aos meus filhos.

 

Os tempos mudaram, os costumes também, mas certas lembranças continuam vestidas de uma elegância que o tempo jamais consegue desfazer.

 

Gabriel Novis Neves

11-07-2026




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