sábado, 11 de julho de 2026

MANHÃS DE DOMINGO


As manhãs de domingo possuíam um ritmo diferente.

 

As ruas despertavam devagar, os sinos das igrejas marcavam o tempo e as famílias prolongavam o café da manhã.

 

Não havia a agitação dos dias úteis.

 

A cidade parecia respirar lentamente, convidando todos a desfrutar da companhia de quem amavam.

 

Era um silêncio sereno que hoje quase desapareceu, mas continua vivo na memória de quem teve o privilégio de vivê-lo.

 

Quanta saudade dos domingos da minha infância!

 

A pequena Cuiabá, com pouco mais de vinte mil habitantes, cabia num abraço.

 

Havia a missa na Matriz pela manhã, o futebol no campinho de terra, almoço com macarronada e galinha caipira.

 

Depois vinha a sesta na rede da varanda, a alegria de ter meu pai em casa durante todo o dia e as visitas que minha mãe recebia com seu jeito acolhedor.

 

Assim eram os domingos que jamais deixaram a minha memória.

 

Poucas coisas são melhores do que ser criança. Crescemos apenas para descobrir que a saudade é a presença daquilo que o tempo levou, mas o coração conservou.

 

Aos 91 anos, sinto-me privilegiado por guardar lembranças tão vivas.

 

O tempo levou pessoas, modificou a cidade e transformou costumes, mas não conseguiu apagar o que realmente importa.

 

O progresso trouxe conforto e facilidades, mas também nos deixou saudades.

 

A cidade que um dia foi o nosso grande brinquedo transformou-se em lembrança.

 

Sempre achei melancólico o entardecer dos domingos.

 

O silêncio voltava a envolver a cidade, anunciando que o descanso chegava ao fim e que uma nova semana estava prestes a começar.

 

Aprendi, ao longo da vida, que os dias só se tornam especiais quando lhes damos significado.

 

Minha mãe compreendia isso como ninguém. Rompia a rotina da casa com pequenas mudanças: pintava as paredes com cores alegres, mudava a disposição dos móveis, promovia encontros familiares e fazia de cada domingo uma oportunidade de aproximar as pessoas.

 

Às vezes sinto vontade de reencontrar os amigos da infância, companheiros das primeiras descobertas.

 

Quase todos seguiram caminhos dos quais não se volta.

 

A biologia venceu os encontros, mas não conseguiu vencer a amizade.

 

Assim é a velhice.

 

Vivemos cercados por lembranças, e nelas descobrimos que alguns domingos nunca terminam.

 

Gabriel Novis Neves 

07-07-2026






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