quinta-feira, 9 de julho de 2026

O BARULHO DA CHUVA


Poucos sons são tão acolhedores quanto o da chuva caindo sobre um telhado de telhas de barro!

 

As conversas diminuíam, o cheiro da terra molhada invadia a casa e todos acompanhavam, sem pressa, a força da água.

 

A chuva transformava o ambiente num refúgio de paz, onde bastava observar o tempo passar para perceber que a vida também sabia descansar.

 

Até hoje considero um dos mais belos espetáculos da natureza ouvir a chuva tamborilar sobres as telhas antigas, enquanto o perfume da terra molhada invade a casa.

 

Nesses momentos, o silêncio parece indispensável.

 

Ele permite que a alma acompanhe o cair da água, os pingos escorrendo pelos beirais e o suave murmúrio das enxurradas seguindo seu caminho.

 

Era bonito ver as águas deslizarem pelas ruas ainda sem pavimentação.

 

A terra absorvia parte da chuva, as poças refletiam o céu e tudo parecia respirar aliviado depois do calor.

 

Certa vez perguntaram-me se o asfalto seria o responsável pelo aumento da temperatura em Cuiabá.

 

Respondi que acreditava ser muito maior o efeito do desaparecimento das árvores.

 

A Cuiabá da minha infância fazia jus ao apelido de Cidade Verde.  

 

Suas ruas eram generosamente arborizadas, e os quintais, repletos de mangueiras, cajueiros e

 

outras árvores frondosas, impediam a entrada do sol, distribuindo sombras pelas calçadas e refrescando o ambiente.

 

Naquele tempo, as três cidades mais importantes de Mato Grosso eram conhecidas por seus apelidos: Cuiabá era a Cidade Verde, pela exuberante arborização; Corumbá, a Cidade Branca, pela riqueza de seus calcários; e Campo Grande, a Cidade Morena, pela poeira avermelhada que cobria suas ruas.

 

Os apelidos desapareceram com o passar dos anos.

 

Perderam-se também os nomes carinhosos dados às pessoas, às ruas, aos becos e às ladeiras.

 

Na casa de meu pai, eram dez irmãos, e todos possuíam um ou mais apelidos.

 

Alguns tinhas dois e até três apelidos.

 

Faziam parte da intimidade da família e da identidade de cada um.

 

Assim também era a cidade.

 

Talvez por isso, quando ouço a chuva bater num velho telhado de barro, tenho a impressão de que ela desperta lembranças que o tempo nunca conseguiu levar.

 

Gabriel Novis Neves

01-07-2026




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