quarta-feira, 15 de julho de 2026

SONS PECULIARES

 

Em muitas casas, o som ritmado da máquina de costura fazia parte da música do cotidiano. Enquanto a agulha deslizava sobre o tecido, roupas eram ajustadas, remendadas ou criadas pelas mãos habilidosas das mães e avós.

 

Cada peça carregava dedicação, paciência e carinho.

 

Hoje esse som quase desapareceu, mas continua vivo na memória de quem cresceu ouvindo seu compasso.

 

Revivendo a minha infância, recordo que a antiga Cuiabá tinha sons muito próprios.

 

Tudo nas casas produzia uma melodia discreta: a máquina de costura trabalhando num ritmo constante, o ventilador de teto girando lentamente, o relógio da varanda marcando as horas com suas badaladas.

 

Até a rede, embalando as crianças nas tardes quentes, parecia cantar uma canção de ninar.

 

Talvez por isso tantas famílias cuiabanas cultivassem o gosto pela música.

 

Não era raro encontrar um piano, um violino ou um violão dentro de casa.

 

Aprender um instrumento fazia parte da boa educação, e quem passava pelas calçadas frequentemente ouvia melodias que escapavam pelas janelas abertas.

 

Meu pai comprou um piano para minha irmã mais velha e contratou um professor particular.

 

Apesar de todo incentivo, ela abandonou as aulas e pouco tempo depois o piano foi vendido.

 

Meu irmão mais novo, ao contrário, era um autodidata.

 

Tocava piano em qualquer lugar onde encontrasse um instrumento.

 

Eu cresci num ambiente de jogadores de xadrez.

 

Aprendi cedo os segredos daquele jogo fascinante, ainda antes de ser alfabetizado.

 

Mas sempre guardei a vontade de aprender música, desejo que nunca consegui realizar plenamente.

 

Mais tarde comprei um violão para minha filha. Ela também não se interessou pelo instrumento, que acabou sendo doado.

 

Anos depois, recebi outro violão como presente de aniversário e comecei a ter aulas três vezes por semana em casa.

 

Durante as aulas eu progredia.

 

O desafio surgia quando precisava estudar sozinho.

 

Sem disciplina para os exercícios de memorização, abandonei novamente o violão, que até hoje permanece guardado no meu guarda-roupa.

 

Talvez alguns sonhos não tenham sido feitos para palcos.

 

Basta-nos conservar, no coração, a música das lembranças.

 

Gabriel Novis Neves

12-07-2026



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