segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

DINHEIRO NA MÃO É VENDAVAL


Recebi um pagamento e não senti a antiga euforia.

 

O dinheiro continua necessário, claro.

 

Mas perdeu o brilho que tinha na juventude.

 

Hoje valorizo mais o tempo do que o saldo.

 

Talvez esse seja um dos sinais discretos da maturidade.

 

Na velhice tenho mais dificuldade de lidar com o dinheiro do que na juventude.

 

Sempre tratei o dinheiro com respeito e parcimônia, para não enfrentar humilhações financeiras no fim da vida.

 

Nunca fui de exibir carrões, mansões ou viagens intercontinentais.

 

Fui educado em uma família simples, onde jamais faltou o essencial.

 

Uma das lembranças mais felizes que guardo é de 1958, quando escrevi para minha mãe dizendo que meu pai não precisava mais me enviar mesada.

 

Senti uma euforia que o tempo tratou de suavizar.

 

Mesmo estudando em faculdade pública, com restaurante universitário, havia despesas com pensão, transporte e livros.

 

Fiz concursos e trabalhei como auxiliar acadêmico no Pronto-Socorro Municipal, interno plantonista da Maternidade Pro Matre e monitor de Ginecologia.

 

Todos esses cargos ajudavam, direta ou indiretamente, na minha manutenção.

 

Naquela época, meu irmão Pedro estudava Economia em faculdade particular e ainda recebia mesada, aumentando o peso sobre meu pai — ainda mais com a chegada do meu irmão Inon.

 

Recordar aquela carta ainda hoje me faz bem.

 

Todo o esforço do meu pai valeu a pena: colheu dois médicos e um economista.

 

Eduquei meus filhos, todos com formação universitária, procurando dar o exemplo de uma vida confortável, porém sem excessos.

 

A longevidade aumenta as despesas da casa: médicos, farmácia, cuidadoras.

 

Ontem recebi o dinheiro dos aluguéis sem a euforia da juventude.

 

Já estava todo comprometido com despesas previamente calculadas.

 

Com o encerramento das atividades do consultório, minha renda diminuiu.

 

Talvez por isso o dinheiro tenha perdido o encanto — não a importância.

 

Hoje compreendo: o dinheiro já não emociona como antes, porque o verdadeiro patrimônio passou a ser o tempo vivido.

 

E tempo, diferente do dinheiro, não admite economia — apenas gratidão.

 

Gabriel Novis Neves

21-02-2026




DINHEIRO NA MÃO É VENDAVAL



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