Recebi um pagamento e não senti a antiga euforia.
O dinheiro continua necessário, claro.
Mas perdeu o brilho que tinha na juventude.
Hoje valorizo mais o tempo do que o saldo.
Talvez esse seja um dos sinais discretos da maturidade.
Na velhice tenho mais dificuldade de lidar com o dinheiro do que na juventude.
Sempre tratei o dinheiro com respeito e parcimônia, para não enfrentar humilhações financeiras no fim da vida.
Nunca fui de exibir carrões, mansões ou viagens intercontinentais.
Fui educado em uma família simples, onde jamais faltou o essencial.
Uma das lembranças mais felizes que guardo é de 1958, quando escrevi para minha mãe dizendo que meu pai não precisava mais me enviar mesada.
Senti uma euforia que o tempo tratou de suavizar.
Mesmo estudando em faculdade pública, com restaurante universitário, havia despesas com pensão, transporte e livros.
Fiz concursos e trabalhei como auxiliar acadêmico no Pronto-Socorro Municipal, interno plantonista da Maternidade Pro Matre e monitor de Ginecologia.
Todos esses cargos ajudavam, direta ou indiretamente, na minha manutenção.
Naquela época, meu irmão Pedro estudava Economia em faculdade particular e ainda recebia mesada, aumentando o peso sobre meu pai — ainda mais com a chegada do meu irmão Inon.
Recordar aquela carta ainda hoje me faz bem.
Todo o esforço do meu pai valeu a pena: colheu dois médicos e um economista.
Eduquei meus filhos, todos com formação universitária, procurando dar o exemplo de uma vida confortável, porém sem excessos.
A longevidade aumenta as despesas da casa: médicos, farmácia, cuidadoras.
Ontem recebi o dinheiro dos aluguéis sem a euforia da juventude.
Já estava todo comprometido com despesas previamente calculadas.
Com o encerramento das atividades do consultório, minha renda diminuiu.
Talvez por isso o dinheiro tenha perdido o encanto — não a importância.
Hoje compreendo: o dinheiro já não emociona como antes, porque o verdadeiro patrimônio passou a ser o tempo vivido.
E tempo, diferente do dinheiro, não admite economia — apenas gratidão.
Gabriel Novis Neves
21-02-2026
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