Separei a camisa cedo, ainda com o dia clareando.
Não estava amassada, mas também não estava perfeita.
Decidi usá-la assim mesmo.
Abotoei com calma, olhando no espelho sem muita exigência.
Lembrei que, por muitos anos, sair de casa exigia roupa passada, sapato limpo e cinto alinhado.
Havia um ritual.
Uma atenção aos detalhes que hoje parece exagero, mas que fazia parte da rotina.
Hoje a camisa cumpre sua função.
Não reclama.
Não exige ferro quente nem pressa.
Caminhei até a sala, peguei os óculos e segui com o dia sem ajustar mais nada.
Com os anos passando fiquei menos rigoroso comigo.
Não é relaxamento.
É um cansaço manso, desses que chegam sem alarde.
Deixamos de fazer a barba todos os dias, de engraxar os sapatos antes de sair, de procurar defeitos no espelho.
E, sem perceber, estendemos essa falta de cuidado ao corpo.
Adiamos consultas, pulamos exames, deixamos o médico para depois.
É assim que, de maneira silenciosa, a doença se aproxima.
Às vezes chega como uma pneumonia quase sem sintomas.
Outras, como a necessidade de trocar uma prótese antiga, esquecida no tempo em que cuidávamos melhor de nós.
Não é apenas a camisa amassada que denuncia o envelhecimento.
É a atenção que vai faltando.
O zelo que se perde aos poucos.
Sabemos que pequenos cuidados fazem diferença para a saúde física e mental.
Assim como as camisas sofrem com o uso, o organismo também se desgasta — às vezes cedo demais.
A tecnologia criou tecidos que não amassam e cirurgias que salvam vidas ainda no berço.
Mas nenhuma inovação substituiu o gesto simples de cuidar de si.
Passar a camisa é detalhe.
Passar por si mesmo, com atenção, é necessidade.
Gabriel Novis Neves
01-02-2026
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