sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

SÍSIFO CARREGAVA PEDRA


Hoje não fiz nada importante.

 

Nenhuma tarefa grandiosa, nenhum compromisso marcante.

 

Apenas vivi o dia como ele veio.

 

No início senti culpa.

 

Depois, um certo alívio.

 

Será que sempre precisamos produzir algo para justificar a existência?

 

Esse raciocínio juvenil já me fez sofrer muito.

 

Fui educado a ‘aproveitar o tempo’, produzindo alguma coisa — avançando nos estudos ou ajudando meus pais nos afazeres domésticos.

 

Mesmo aos domingos e feriados, era preciso fazer algo útil.

 

O descanso completo parecia quase uma falha de caráter.

 

Até hoje só me concedo o luxo de não fazer nada que julgue produtivo durante metade do dia.

 

Do contrário, surge o remorso silencioso.

 

Com o passar do tempo, mudaram apenas as tarefas consideradas grandiosas.

 

Hoje, minha meta é escrever ao menos uma crônica diária.

 

Quando isso não acontece — como nos dias de infusão — sinto que o dia ficou incompleto, como uma página em branco.

 

A educação recebida no berço continua orientando o comportamento na vida adulta.

 

Meus pais eram profundamente comprometidos com a ideia de aproveitar o dia trabalhando.

 

Detestavam a vadiagem e nos ensinaram que o tempo precisava ter propósito.

 

Na velhice, porém, todo dia se parece um pouco com domingo ou feriado.

 

Já não preciso provar nada a ninguém.

 

A vida, prestes ao seu entardecer, pede menos justificativas e mais aceitação.

 

Trabalhei muito na juventude para não precisar explicar minha existência agora.

 

A tarefa que escolhi neste ocaso —escrever — tornou-se uma maneira suave de não ver o tempo passar.

 

Também me sinto útil conversando com amigos, trocando lembranças e pensamentos.

 

Enquanto houver disposição para escrever e a memória permanecer fiel, seguirei cumprindo essa tarefa simples, sem grandiosidade, mas também sem vazio.

 

Se não tivesse essa habilidade, talvez estivesse, como dizia a minha mãe, ‘num mato sem cachorro’.

 

A escrita diária passou a ocupar meus dias com serenidade.

 

E hoje percebo que não fazer nada importante, às vezes, é apenas permitir que a vida respire dentro de nós — em silêncio, sem cobrança, mas cheia de sentido.  

 

Gabriel Novis Neves

19-02-2026




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