Hoje não fiz nada importante.
Nenhuma tarefa grandiosa, nenhum compromisso marcante.
Apenas vivi o dia como ele veio.
No início senti culpa.
Depois, um certo alívio.
Será que sempre precisamos produzir algo para justificar a existência?
Esse raciocínio juvenil já me fez sofrer muito.
Fui educado a ‘aproveitar o tempo’, produzindo alguma coisa — avançando nos estudos ou ajudando meus pais nos afazeres domésticos.
Mesmo aos domingos e feriados, era preciso fazer algo útil.
O descanso completo parecia quase uma falha de caráter.
Até hoje só me concedo o luxo de não fazer nada que julgue produtivo durante metade do dia.
Do contrário, surge o remorso silencioso.
Com o passar do tempo, mudaram apenas as tarefas consideradas grandiosas.
Hoje, minha meta é escrever ao menos uma crônica diária.
Quando isso não acontece — como nos dias de infusão — sinto que o dia ficou incompleto, como uma página em branco.
A educação recebida no berço continua orientando o comportamento na vida adulta.
Meus pais eram profundamente comprometidos com a ideia de aproveitar o dia trabalhando.
Detestavam a vadiagem e nos ensinaram que o tempo precisava ter propósito.
Na velhice, porém, todo dia se parece um pouco com domingo ou feriado.
Já não preciso provar nada a ninguém.
A vida, prestes ao seu entardecer, pede menos justificativas e mais aceitação.
Trabalhei muito na juventude para não precisar explicar minha existência agora.
A tarefa que escolhi neste ocaso —escrever — tornou-se uma maneira suave de não ver o tempo passar.
Também me sinto útil conversando com amigos, trocando lembranças e pensamentos.
Enquanto houver disposição para escrever e a memória permanecer fiel, seguirei cumprindo essa tarefa simples, sem grandiosidade, mas também sem vazio.
Se não tivesse essa habilidade, talvez estivesse, como dizia a minha mãe, ‘num mato sem cachorro’.
A escrita diária passou a ocupar meus dias com serenidade.
E hoje percebo que não fazer nada importante, às vezes, é apenas permitir que a vida respire dentro de nós — em silêncio, sem cobrança, mas cheia de sentido.
Gabriel Novis Neves
19-02-2026
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