sábado, 14 de fevereiro de 2026

SINTONIA FINA


O rádio estava ligado, mas o som vinha falhando.

 

Girei o botão devagar até encontrar a estação certa.

 

Um chiado comprido… depois, a voz ficou limpa.

 

Não mexi mais.

 

Fiquei ouvindo.

 

A sintonia exige paciência.

 

Na vida, como no rádio antigo, quando se encontrava o ponto exato, evitava-se qualquer movimento brusco.

 

Bastava um toque descuidado e o chiado voltava.

 

Aprendi cedo que quase tudo depende desse cuidado delicado com os detalhes.

 

Quantos chiados o nosso corpo emite e fingimos não escutar?

 

Pequenos avisos que deixamos passar.

 

Às vezes melhoram sozinhos.

 

Outras vezes pedem atenção.

 

Encontrar o ponto certo consigo mesmo é exercício diário — e silencioso.

 

Nunca imaginei que minhas lembranças seriam matéria-prima da velhice.

 

Hoje escrevo sobre a infância na rua de Baixo, a adolescência entre mangueiras generosas, a maturidade distante e o retorno definitivo à minha cidade.

 

São estações da mesma vida, cada uma com sua frequência.

 

Lembro-me do primeiro rádio em nossa casa.

 

Para ouvir melhor, eu o inclinava no colo e ficava imóvel.

 

Não podia respirar forte.

 

Qualquer movimento traria o chiado de volta.

 

Assim escutei a final da Copa de 1950.

 

Imóvel.

 

O rádio no colo.

 

O coração na boca.

 

Perdemos o jogo.

 

Mas ganhei uma memória eterna.

 

Hoje entendo que a vida inteira temos girado botões invisíveis, procurando clareza no meio dos ruídos.

 

Nem sempre acertamos de primeira.

 

Há interferências, perdas, silêncios.

 

Mas quando encontramos nossa estação interior — essa que mistura paz e lembrança — aprendemos a não mexer mais.

 

Porque a verdadeira sabedoria não está em aumentar o volume do mundo.

 

Está em manter firme a sintonia do coração.

 

Gabriel Novis Neves

13-02-2026




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