A cadeira ficou vazia na outra ponta da mesa.
Sempre esteve ocupada.
Hoje, não.
Preparei o café como de costume e me sentei.
O espaço chamou mais atenção que a ausência.
Cadeiras vazias falam.
Ou melhor — parecem falar.
Guardam presenças, conversas e silêncios.
Aprendi que certos vazios não se preenchem; apenas se respeitam.
Hoje vivo essa experiência.
Primeiro, a mesa sem uma cadeira.
Depois, apenas as cabeceiras.
Há vinte anos ocupo uma delas.
No início estranhei as ausências.
A vista procurava o que já não estava ali.
Com o tempo, passei a respeitar.
Sinto quase como invasão quando alguém se senta naquela outra ponta.
Não por antipatia, mas por memória.
A vida nos conduz por destinos que não escolhemos, e acabamos acreditando que as cadeiras falam.
Não falam.
Guardam.
Quem alcança a longevidade atravessa todas essas etapas e sente na alma o peso suave de cada uma.
A casa do velho — e ele próprio — muitos chamam de museu.
Cercado de lembranças.
Tenho móveis que atravessaram gerações.
São testemunhas mudas do nosso passado.
Tudo permanece em silêncio, ocupando um espaço de saudade.
Nas academias, a cadeira vazia tem número. Logo é ocupado por outro, chamado de ‘imortal’.
Curioso como o homem culto inventa palavras para suavizar o inevitável.
Na academia, morreu, perde-se a cadeira.
Na vida, não.
Há pessoas substituíveis.
E há as insubstituíveis.
As insubstituíveis não deixam apenas um lugar vazio à mesa.
Elas passam a habitar o nosso coração.
Suas cadeiras permanecem vazias e chamam mais atenção assim do que se estivessem ocupadas.
E a minha mesa de café continua com a outra extremidade calada.
Silenciosa.
Mas profundamente presente.
Gabriel Novis Neves
15-02-2026
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