segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

PREENCHENDO O CORAÇÃO

 

A cadeira ficou vazia na outra ponta da mesa.

 

Sempre esteve ocupada.

 

Hoje, não.

 

Preparei o café como de costume e me sentei.

 

O espaço chamou mais atenção que a ausência.

 

Cadeiras vazias falam.

 

Ou melhor — parecem falar.

 

Guardam presenças, conversas e silêncios.

 

Aprendi que certos vazios não se preenchem; apenas se respeitam.

 

Hoje vivo essa experiência.

 

Primeiro, a mesa sem uma cadeira.

 

Depois, apenas as cabeceiras.

 

Há vinte anos ocupo uma delas.

 

No início estranhei as ausências.

 

A vista procurava o que já não estava ali.

 

Com o tempo, passei a respeitar.

 

Sinto quase como invasão quando alguém se senta naquela outra ponta.

 

Não por antipatia, mas por memória.

 

A vida nos conduz por destinos que não escolhemos, e acabamos acreditando que as cadeiras falam.

 

Não falam.

 

Guardam.

 

Quem alcança a longevidade atravessa todas essas etapas e sente na alma o peso suave de cada uma.

 

A casa do velho — e ele próprio — muitos chamam de museu.

 

Cercado de lembranças.

 

Tenho móveis que atravessaram gerações.

 

São testemunhas mudas do nosso passado.

 

Tudo permanece em silêncio, ocupando um espaço de saudade.

 

Nas academias, a cadeira vazia tem número. Logo é ocupado por outro, chamado de ‘imortal’.

 

Curioso como o homem culto inventa palavras para suavizar o inevitável.

 

Na academia, morreu, perde-se a cadeira.

 

Na vida, não.

 

Há pessoas substituíveis.

 

E há as insubstituíveis.


As insubstituíveis não deixam apenas um lugar vazio à mesa.

 

Elas passam a habitar o nosso coração.

 

Suas cadeiras permanecem vazias e chamam mais atenção assim do que se estivessem ocupadas.

 

E a minha mesa de café continua com a outra extremidade calada.

 

Silenciosa.

 

Mas profundamente presente.

 

Gabriel Novis Neves

15-02-2026





Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.