Encontrei um sapato sozinho no armário.
O outro não estava ali.
Procurei sem pressa, em outros cantos.
Nada.
Deixei o solitário onde estava.
Há coisas que se perdem sem drama.
O sapato fora do par me lembrou que nem tudo precisa estar completo o tempo todo para continuar existindo.
Tenho o hábito do perfeccionismo.
Considero isso uma doença que me faz sofrer e empreender esforços desnecessários.
Desde criança sou assim; essa mania se exacerbou na adolescência.
Morando em pensão, no Rio de Janeiro, convivendo com outros colegas, essa característica ficou evidente para mim.
Aos domingos, quando todos saíam, eu ficava estudando.
Nem por isso tinha as melhores notas na universidade.
Cheguei a criar um complexo de inferioridade em relação à minha inteligência.
A imaturidade emocional é criadora de verdadeiros monstros.
Faz-nos acreditar que tudo precisa estar completo o tempo todo.
Mas a vida anda — e aprendemos que há perdas que não fazem barulho.
Que nem tudo precisa estar inteiro para continuar fazendo sentido.
Hoje, desde que acordei, já consultei várias vezes o meu saldo bancário.
Sei que é uma atitude neurótica-obsessiva, talvez merecedora de tratamento.
Quantas vezes me surpreendo sonhando com coisas que inevitavelmente se perderão.
Os velhos têm essa mania de procurar.
Pode ser o par do sapato escondido no fundo do armário.
Ou a meia desgarrada que nunca mais aparece.
A vida nos ensina que a perfeição não é condição para viver bem.
Ela se dilui, sem traumas, com o tempo.
O tempo é um mestre paciente.
Muito aprendemos com ele.
Entender a vida é aceitar que tudo é passageiro — inclusive nós.
E, ainda assim, continuamos existindo.
Mesmo incompletos.
Talvez o sapato sem par não seja sinal de perda, mas de lembrança.
Lembrança de que já caminhamos acompanhados.
E de que, embora falte o outro, o passo pode continuar.
Assim é a vida.
E o sapato solitário, guardado no armário, ensina com humildade aquilo que só o tempo nos faz compreender.
Gabriel Novis Neves
11-02-2026
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