domingo, 22 de fevereiro de 2026

DOIS MINUTOS A MAIS...


Notei que o relógio da sala estava dois minutos atrasado.

 

Apenas dois.

 

Mesmo assim, senti necessidade de acertá-lo.

 

O tempo já corre com sua própria velocidade; não convém dar-lhe vantagem.

 

Enquanto girava o ponteiro, pensei em quantas vezes, na vida chegamos atrasados por distração — e quantas por escolha.

 

Houve ocasiões em que optei por chegar alguns minutos depois, especialmente nas reuniões de discursos intermináveis.

 

Pequenas rebeldias silenciosas.

 

Mas, no essencial sempre fui pontual.

 

Aprendi em casa a não atrasar compromissos — de preferência, chegar antes da hora.

 

Essa disciplina ajudou-me muito na carreira médica e nos cargos públicos que ocupei.

 

Horário de médico é sempre delicado. Urgências e emergências não respeitam agenda.

 

Não há relógio que acompanhe o relógio de um parto iminente.

 

Dois minutos podem ser o intervalo entre a espera e o primeiro choro.

 

Dois minutos atrasados podem significar uma criança nascendo sem assistência.

 

Na minha casa éramos nove filhos.

 

Todos nascemos em casa, assistidos por médico.

 

No último parto, porém, ele se atrasou apenas dois minutos — e minha irmã resolveu chegar sozinha ao mundo.

 

Talvez tenha sido a mais apressada de nós.

 

O tempo tem vontade própria.

 

Não admite descuido.

 

Lembro-me também de um médico da década de cinquenta que tinha um programa de rádio muito ouvido: ‘Nada Além de Dois Minutos’. Em cento e vinte segundos ele contava uma história inteira.

 

E bastava.

 

Em dois minutos pode-se decidir uma vida, iniciar uma conversa, pedir desculpas, perdoar.

 

Pode-se fisgar um pacu no rio Cuiabá ou perder a chance de lançá-lo ao anzol.

 

Pode-se desperdiçar o essencial ou salvá-lo.

 

Parece pouco, mas não é.

 

Por isso não deixo o relógio da sala atrasado. Não por rigor exagerado, mas por respeito.

 

Ajustar dois minutos é, no fundo, uma forma de dizer ao tempo que continuo atento.

 

E enquanto eu puder girar os ponteiros —ainda que discretamente — estarei lembrando que a vida não se mede em anos, mas na exatidão dos instantes.

 

Gabriel Novis Neves

18-02-2026




N.E.: 'DOIS MINUTOS A MAIS', da tese de David Allen, no livro Getting Things Done (GTD)

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.