Ao fim do dia, eu retornava à pensão com a sensação do dever cumprido ou, às vezes, carregando preocupações acumuladas.
O cansaço físico se misturava à necessidade de continuar estudando.
Ainda assim, havia certo conforto naquele retorno.
Era o momento de organizar os pensamentos, rever conteúdos e me preparar para o dia seguinte.
Na pensão convivíamos com colegas vindos de várias partes do Brasil, o que facilitava os estudos, pois os problemas e as dificuldades eram semelhantes.
Alguns tinham o costume de estudar até altas horas da noite.
Outros, como eu, preferiam dormir logo após o jantar e retomar os livros de madrugada.
O cansaço era tanto que a luz acesa no quarto não incomodava quem dormia.
Para enganar a fome das noites e madrugadas havia sempre guloseimas enviadas de casa.
E assim o tempo foi passando.
Quando percebemos, já éramos médicos.
Quanto aprendi no fim do dia, na pensão!
As conversas vinham recheadas de saudade, de sonhos, das conquistas da cidade grande e também de suas perdições.
No silêncio da noite, antes dos estudos, surgiam segredos, confidências e revelações inesperadas.
Havia colegas de outros cursos, que trocavam as enfermarias pelos tribunais do júri, onde bebiam a sabedoria dos grandes mestres do Direito.
Outros frequentavam a sede da União Nacional dos Estudantes — UNE — e, no fim do dia, comentavam na pensão os destinos políticos do país.
O Rio de Janeiro do meu tempo formava excelentes profissionais em suas faculdades, devolvendo-os aos seus torrões natais, e também gerava políticos que ajudaram a construir esta nação.
Quantas lembranças guardo desse fim de tarde e de noite na pensão!
A pensão fez parte da formação dos estudantes do meu tempo.
Como aprendi naqueles anos de pensão!
A geração de meu filho e de meu neto estudou em cidade grande, cursando Medicina e Direito, morando em apartamentos próprios, com faxineira e cozinheira.
Se pudesse voltar no tempo, começaria novamente meu curso de Medicina morando em pensão.
Gabriel Novis Neves
23-04-2026
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