Durante os anos em que morei no Rio, uma das minhas maiores alegrias era receber cartas de casa.
Quando a dona da pensão avisava que havia correspondência para mim, o dia ganhava outro significado.
Abrir o envelope era como diminuir a distância entre o Rio de Janeiro e Cuiabá.
Nas palavras da família vinham notícias, conselhos e muito carinho.
Aqueles papéis simples tinham o poder de renovar meu ânimo para continuar os estudos.
Quantos ensinamentos traziam aquelas cartas!
Gostaria de guardar, ao menos algumas delas nesta altura da vida.
Com certeza eu saberia usufruí-las melhor, tal a riqueza de experiências que continham.
Minha mãe escrevia muito bem e, quantas vezes, depois da leitura, eu me deitava no quarto e permanecia ainda por longo tempo com a carta sobre o peito, enquanto o pensamento percorria distâncias sem fim.
Aquela carta carregava o peso da ausência e, ao mesmo tempo, a doçura da presença.
Quanta expectativa havia no retorno do filho médico, formado, em 1960, na melhor Faculdade de Medicina do Brasil.
E meus pais tinham toda a razão.
Quanto orgulho sentiram de mim ao verem minha ascensão no consultório e nos cargos públicos que ocupei.
Senti-me recompensado pelos longos anos que passei distante de casa.
Tive ainda a felicidade de me casar com uma mulher argentina-carioca, tão do agrado deles!
A convivência com meus cinco irmãos mais novos começou, de fato, quando a caçula tinha apenas nove anos.
Tive a oportunidade de ajudar a todos, e também a meus pais.
Às vezes penso no que teria acontecido se eu houvesse permanecido aqui.
Talvez tivesse acumulado fortuna, sucedendo meu pai no comércio.
Desconfio disso, embora me faltasse talento para o comércio.
Acertei, sem arrependimento, na escolha da cidade para viver.
Hoje, já não escrevo cartas.
Escrevo lembranças transformadas em crônicas.
E nelas, de algum modo, continuo respondendo às cartas que o tempo guardou.
Gabriel Novis Neves
01-04-2026
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