Foi ela a responsável pela minha permanência em Cuiabá como médico.
Se não fosse a barata voadora, não faço a mínima ideia de como, nem onde, estaria hoje.
A história foi assim:
Naquela noite silenciosa, da nossa chegada a Cuiabá, a lampadazinha do abajur do meu quarto de dormir foi desligada.
As dúvidas sobre a minha decisão de voltar para Cuiabá começaram a me consumir.
Os pensamentos iam e vinham, insistentes, como se cobrassem uma resposta que eu ainda não tinha.
De repente, uma barata voadora entrou, em voo desorientado, na escuridão do quarto.
Ouvi o barulho seco do seu corpo batendo no guarda-roupa.
Minha companheira, assustada, acendeu o abajur.
Expliquei-lhe o motivo do ruído, que hoje chamo de barulho da salvação.
Ali estava, no chão, a barata voadora.
Aquele instante despertou em Regina um misto de medo e solidariedade.
Em mim, nasceu a certeza de que eu havia escolhido o caminho certo.
Enquanto conversávamos, a barata desapareceu.
Gostaria, se pudesse, de demonstrar a ela o meu carinho e o meu agradecimento pela ajuda prestada no momento em que eu mais precisava.
Jamais esqueci o som do seu choque no guarda-roupa.
A mãe dos meus filhos, presente em todos os momentos delicados que a vida nos ofereceu, está ausente há vinte anos.
Tenho certeza de que, no céu, Regina estará lendo esta declaração de gratidão à barata voadora.
Foi ela, afinal, que a fez decidir adotar Cuiabá para sempre.
Era o grande desafio do desconhecido.
—Eu nunca soube que barata voasse – disse Regina.
Foi aquele episódio que me revelou, de uma vez por todas, a solidariedade, a coragem e a confiança da minha jovem companheira —qualidades que a acompanharam por toda a nossa vida em comum.
Sentimentos que só florescem, de verdade, entre pessoas que se amam.
E até uma barata, naquela noite, ajudou o amor a escolher seu destino.
Gabriel Novis Neves
07-04-2026
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