sexta-feira, 17 de abril de 2026

DESPEDINDO DA VIDA DE ESTUDANTE


Chega um momento em que percebemos, com nitidez, que um ciclo se encerra.

 

Nos últimos dias de faculdade, caminhei pelos mesmos corredores com um olhar diferente. Cada sala, cada colega, cada rotina adquiria um significado especial.

 

Já não eram apenas espaços e pessoas —eram lembranças em formação.

 

Sabia, no íntimo, que aquele tempo não voltaria.

 

Era uma despedida silenciosa, sem cerimônia, mas profundamente carregada de emoção e gratidão por tudo o que vivi.

 

A despedida formal aconteceu quase por acaso, após a solenidade de colação de grau no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, em 15 de dezembro de 1960.

 

Fizemos o juramento de Hipócrates e, ao final, tínhamos a certeza de que aquela seria a nossa última reunião como estudantes.

 

Um pequeno grupo de colegas mais próximos, todos sem namoradas, decidiu prolongar aquele instante.

 

Fomos à boate Balalaika, na rua Siqueira Campos, em Copacabana.

 

Não me recordo quantos éramos.

 

Era um dia de semana, e a casa estava quase vazia.

 

Jantamos um sanduiche com chope.

 

A música era ao vivo, mas tímida; havia poucas mulheres para dançar — talvez mais interessadas em outros programas.

 

O conjunto musical, sob o nosso leve protesto, logo se despediu.

 

E as mulheres percebendo que daquele grupo nada se aproveitaria, também se afastaram.

 

Seguimos ali, conversando e bebendo, como quem tenta prolongar o que se despedia.  

 

O único garçom, paciente e discreto, abriu as cortinas ainda escuras do salão.

 

A manhã já havia chegado.

 

Do lado de fora, a cidade despertava: banhistas a caminho da praia, bondes e ônibus em movimento, vozes de feirantes e vendedores ambulantes misturando-se ao som do novo dia.

 

Pagamos a conta e permanecemos por alguns minutos na calçada, como se aquele instante pedisse mais um pouco de nós.    

 

Era a despedida de jovens médicos vindos de várias partes do Brasil, que durante seis anos compartilharam os mesmos caminhos, movidos por um ideal comum.

 

Voltamos em silencio, de bonde para a pensão. Havia em nós a serenidade do dever cumprido e a consciência de que aquele fora, de fato, o último encontro.

 

Depois disso, cada um seguiria para a sua origem, levando consigo o que o tempo não apaga.

 

E assim, sem perceber, deixávamos de ser estudantes — para começar a ser história.

 

Gabriel Novis Neves

15-04-2026




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