Havia noites no Rio de Janeiro em que a chuva parecia trazer Cuiabá para mais perto e, ao mesmo tempo, mais distante.
No quarto da pensão, o barulho da água caindo ampliava a saudade da família, das vozes conhecidas, do calor da minha terra.
Nessas horas, o estudo perdia força e a memória ganhava espaço.
Era uma saudade serena, mas profunda, impossível de ignorar.
Hoje, já no início do outono, ao abrir a janela do meu quarto, uma fina garoa molhava o asfalto da rua, retardando o aparecimento do sol.
A enfermeira que dorme no quarto voltado para os fundos do edifício, ao me trazer o café, comentou que durante a madrugada, a chuva caiu forte, acordando-a.
Bastou isso para que eu voltasse às chuvas do Rio de Janeiro, ao som insistente no telhado da pensão.
Vieram, então, as lembranças da cidade onde estudei Medicina e me casei — e de quanto a amo.
Não sei se um dia me despedirei por completo do Rio, mas guardo nítida a memória da minha última visita, há seis anos.
Refiz o caminho de tantas idas e vindas: da avenida Vieira Souto, em Ipanema, pela orla até a avenida Princesa Isabel; dali, o Túnel Novo, a avenida Pasteur, as praias de Botafogo e do Flamengo, até o aeroporto Santos Dummont. Era o mesmo percurso que, um dia me acolheu como estudante vindo de Cuiabá.
Ali permaneci por onze anos.
No Leme, tive um apartamento onde descansei e onde meu filho morou ao estudar Medicina, assim como a minha neta, ao cursar Direito.
Talvez por saber que não voltaria mais, no ano passado o vendi.
Curiosa é a saudade que a chuva desperta em mim.
Quando morava no Rio, a chuva me fazia sentir saudade de Cuiabá — da família, das ruas, das praças.
Hoje, em Cuiabá, quando chove, é o Rio que me visita: o quarto da pensão, a maresia, o asfalto brilhante por onde deslizavam ambulâncias — e uma madrugada em que quase perdi a vida.
A saudade é assim: aproxima o que ficou longe e nunca nos deixa partir por inteiro.
Gabriel Novis Neves
10-04-2026
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