Entre tantos colegas, houve um que não se destacava pelas notas, mas pela generosidade.
Sempre disposto a ajudar, dividia o pouco que tinha — fosse um livro, uma explicação ou uma palavra de incentivo.
Sem perceber, ensinava mais que muitos professores.
Com ele aprendi que a Medicina também se constrói com humanidade.
E que o verdadeiro conhecimento inclui a capacidade de compartilhar.
Minha turma reunia alunos de todos as regiões do Brasil.
Naquele tempo havia menos de trinta escolas de Medicina em funcionamento, e o número de estudantes vindos do interior superava o dos cariocas.
Meus colegas mais próximos eram, em sua maioria, do interior.
Morávamos em pensões, frequentávamos o restaurante universitário e, nos primeiros anos, vivíamos quase exclusivamente para a universidade.
As aulas eram essencialmente teóricas e, nas horas vagas, muitos se dedicavam à biblioteca ou aos laboratórios —especialmente o de anatomia.
Foi ali que conheci um colega singular, um verdadeiro ‘rato de laboratório’.
Assinava presença nas aulas teóricas e seguia direto para dissecar peças anatômicas.
Era sempre o último a jantar, quando o restaurante já se preparava para fechar.
Sua paixão pela anatomia era tamanha que conquistou a confiança do bedel, até conseguir as chaves do laboratório.
Passava noites em claro estudando e, com generosidade, ensinava aos amigos.
Logo foi nomeado monitor da disciplina.
Suas aulas práticas, muitas vezes, superavam as dos próprios professores.
O professor Cavalcante logo o chamou para auxiliá-lo em cirurgias, reconhecendo a excelência de seu conhecimento.
Esse colega — que hoje já não está entre nós — sempre me convidava para acompanhar práticas de técnicas operatórias no Instituto Médico Legal, à noite.
Sua dedicação à anatomia, às técnicas cirúrgicas e à cirurgia geral impressionava a todos — inclusive quando comparada ao seu desempenho nas demais disciplinas.
Havia sido o primeiro colocado no vestibular e permanecia entre os melhores alunos do curso.
Ensinava com naturalidade e, mais tarde, casou-se com uma caloura igualmente apaixonada pela anatomia.
Costumava dizer, com um brilho nos olhos: — Gostaria de estar na sala dos médicos, e que a irmãzinha do centro cirúrgico da Santa Casa viesse me chamar: ‘Doutor, seu paciente está anestesiado! ’
Só então — dizia ele — descobriria qual a cirurgia iria realizar.
Ele ensinou a muitos, sem jamais perceber.
E a mim, deixou a lição mais bonita: o verdadeiro mestre é aquele que reparte o saber sem saber que ensina.
Gabriel Novis Neves
12-04-2026
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