Há um momento silencioso da vida em que os filhos, sem perceberem, deixam de ser apenas filhos. Continuam amorosos, respeitosos e presentes, mas passam também a cuidar, orientar e aconselhar o pai nas pequenas coisas do cotidiano.
Não considero isso uma inversão de papéis, como muitos dizem.
É apenas o tempo cumprindo, com delicadeza, a sua tarefa.
Onde antes havia proteção quase de um lado só, passa a existir uma ternura de mão dupla, feita de atenção, cuidado e afeto.
Quem tem a felicidade de viver bastante observa esse fenômeno com emoção.
Sou testemunha dos cuidados que meus filhos têm comigo.
E gosto muito dessa atenção.
Vejo nela uma demonstração de carinho, de zelo e de amor.
Às vezes, confesso, gostaria que, nesta altura da vida, eles me assumissem por completo.
Não por incapacidade de decidir, mas pelo conforto de saber que já não estou sozinho diante das pequenas exigências do dia a dia.
Também me comove a presença dos netos e bisnetos. Hoje, minha bisneta completa dois anos de vida saudável.
Ainda tão pequena, pede para falar com o biso por vídeochamada.
Na sua alegria inocente, percebo saudade, carinho e uma forma delicada de cuidado.
O mundo da criança costuma ser outra criança.
Mas, quando um idoso passa a fazer parte desse pequeno universo, nasce uma ternura rara, quase sagrada.
É como se as pontas da vida se encontrassem: a infância começando e a velhice agradecendo.
Meus filhos, netos e bisnetos sempre demonstraram interesse em me aconselhar nas coisas simples.
Fazem isso sem imposição, apenas movidos pelo amor.
E essa via de cuidados aumenta a responsabilidade de todos nós.
Os filhos talvez não se consideram conselheiros dos pais.
Mas os pais, quando envelhecem com lucidez e gratidão, aprendem a desejar esses conselhos.
Recebê-los é uma forma bonita de continuar sendo amado.
Gabriel Novis Neves
24-04-2026
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