sexta-feira, 26 de junho de 2026

O CAMINHÃO DE LEITE


Em muitas manhãs cuiabanas o caminhão de leite anunciava sua chegada pelas ruas ainda silenciosas.

 

As famílias preparavam vasilhas e aguardavam o momento da compra.

 

O movimento fazia parte da rotina diária e marcava o início das atividades da casa.

 

O leite chegava fresco, vindo das propriedades próximas.

 

Pequenos sons do cotidiano desapareceram com o tempo, mas continuam vivos na memória de quem os ouviu durante anos.

 

O leite da minha casa e do bar do meu pai vinham da chácara do seu Mário Esteves, localizada no bairro Grande Terceiro, na região do Porto.

 

Chegava em latões de vinte litros.

 

O funcionário deixava os recipientes na cozinha, onde o leite era fervido no fogão de lenha.

 

Depois, minha mãe retirava parte da nata para o lanche do meu pai e separava o leite destinado ao consumo da família.

 

O restante seguia para a sorveteria do bar.

 

Quando o leite coalhava, era aproveitado na fabricação do sorvete mais saboroso que já experimentei.

 

Ali nada se desperdiçava.

 

O leite era transformado nos mais variados tipos de sorvete, todos feitos de forma artesanal.

 

Até hoje sinto o sabor do sorvete de baunilha, cuja essência era comprada no armazém do seu João Gomes, no Baú.

 

Curiosamente, não me lembro de ver meu pai desfrutando dos produtos da própria sorveteria.

 

Recordo-me dele comprando a matéria-prima, acompanhando a produção e cuidando para que nada faltasse, mas raramente o vi saboreando um sorvete.

 

Até hoje os mais antigos recordam, com saudade, os produtos daquela sorveteria.

 

Ela era muito procurada após as sessões do Cine Teatro Cuiabá, durante os passeios pelo Jardim e também depois da missa na Catedral.

 

Não eram raras as vezes em que o estoque do dia se esgotava completamente.

 

Menino, eu adorava participar da fabricação dos sorvetes e picolés, e mais ainda de sua venda.

 

A criança do interior aprende lições que muitas vezes passam despercebidas aos que crescem nas grandes cidades.

 

Quanta coisa aprendi trabalhando no bar do meu pai.

 

Muito do que conquistei na maturidade devo às experiências simples e valiosas dos meus primeiros anos de vida.

 

Hoje, quando a memória me leva de volta àquele tempo, ainda consigo ouvir o caminhão de leite chegando e sentir o perfume dos sorvetes que adoçaram a minha infância.

 

Gabriel Novis Neves

24-06-2024




Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.