quarta-feira, 17 de junho de 2026

ESPERANDO A CHUVA PASSAR


Antigamente ninguém carregava previsão do tempo no bolso.

 

Quando a chuva chegava, restava esperar.

 

Debaixo de marquises, varandas ou pontos de ônibus, as pessoas conversavam enquanto observavam as gotas caindo.

 

Muitas amizades começaram durante essas pausas inesperadas.

 

A chuva interrompia o caminho, mas aproximava as pessoas.

 

Curiosamente, naquele tempo, era comum sair de casa com um guarda-chuva debaixo do braço.

 

Ele servia tanto para proteger do sol forte de Cuiabá quanto para enfrentar a surpresa de um temporal repentino.

 

Na maioria das vezes, esperava-se a chuva passar sob uma marquise, em um ponto de ônibus ou à mesa de um bar.

 

Quantas amizades nasceram dessas pausas inesperadas.

 

Como eu gostava da Cuiabá da minha infância, onde tudo era motivo para uma nova conversa e, mesmo nascida sob uma marquise enquanto a chuva caía.

 

Ninguém parecia conhecer a pressa, e a vida seguia em um ritmo mais tranquilo.

 

Menino, da porta de minha casa ou do bar de meu pai, eu apreciava o espetáculo dos pingos desenhando círculos nas poças, sabendo que logo deixariam de molhar ruas e calçadas.

 

Numa cidade pequena, todos se conhecem, mas nem sempre conversam.

 

A chuva tinha o dom de aproximar as pessoas, iniciando, às vezes uma amizade duradoura ou até uma bonita história de amor.

 

Nas cidades do interior a chuva era recebida como uma benção, fortalecendo a agricultura e renovando a esperança.

 

Bem diferente das grandes cidades, onde muitas vezes é vista como um transtorno.

 

Ela altera a rotina, provoca congestionamentos, causa prejuízos e aumenta a tensão de quem vive cercado pela pressa.

 

Em Cuiabá, felizmente, deixamos para trás as grandes enchentes que tanto preocupavam a população antes da regularização do rio pelo sistema da barragem do Manso.

 

Em outras regiões do país, especialmente no Sul, as chuvas continuam provocando tragédias que se repetem ano após ano.

 

Como o tempo mudou!

 

Aquela chuva inesperada, que nos obrigava a parar por alguns minutos e nos presenteava com uma boa conversa, tornou-se cada vez mais rara.

 

Talvez a chuva continue a mesma.

 

Nós é que já não sabemos esperar por ela passar.

 

Gabriel Novis Neves

14-06-2026




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