segunda-feira, 8 de junho de 2026

CUIABÁ NO BREU


Entre os anos de 1942 e 1950 a energia elétrica em Cuiabá ainda era instável.

 

Bastava uma pane ou uma chuva mais forte para boa parte da cidade mergulhar na escuridão.

 

As famílias recorriam então aos lampiões, às velas e às conversas nas varandas.

 

Curiosamente, muita gente guarda aquelas noites com carinho.

 

Sem rádio e sem luz, os vizinhos se aproximavam mais.

 

As crianças ouviam histórias dos mais velhos e a cidade parecia desacelerar completamente.

 

A falta de energia, que hoje irrita e impacienta, naquele tempo criava momentos inesperados de convivência e intimidade familiar.

 

A usina que abastecia Cuiabá ficava no rio da Casca, na região da Chapada dos Guimarães.

 

Meu pai era tão treinado para diagnosticar a origem dos apagões que, pelas condições do tempo, conseguia dizer com absoluta segurança se o problema estava no gerador de Cuiabá, instalado no morro da Prainha, ou na distante usina do rio da Casca.

 

Quando o defeito era no gerador da Prainha, a luz logo voltava graças aos especialistas da própria cidade.

 

Mas, quando o problema vinha do rio da Casca, o apagão podia durar dias.

 

Quantas vezes meu pai, já de pijama, depois do lanche da noite, sentado na cadeira de balanço na calçada da nossa casa, via de repente tudo escurecer.

 

Era nesse instante que fazia o diagnóstico certeiro da origem do defeito.

 

As velas eram acessas e todos acabavam se recolhendo cedo.

 

Naquele tempo, o cuiabano estava acostumado ao calor e às interrupções de energia.

 

Meu pai havia comprado um pequeno gerador movido a querosene para manter a sorveteria funcionando e a cerveja sempre gelada.

 

Com a chegada da tecnologia moderna e da Usina do Manso, a falta de energia tornou-se rara em Cuiabá.

 

Também desapareceram as grandes enchentes do rio Cuiabá, sendo a última grande cheia registrada em março de 1974, quando bairros ribeirinhos praticamente desapareceram sob as águas.

 

Hoje a cidade permanece iluminada quase o tempo inteiro.

 

Mas, no silêncio daqueles antigos apagões, muitas famílias acabavam se enxergando mais de perto.

 

Gabriel Novis Neves

01-06-2026










Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.