Durante muitos anos guardar sacolas era um costume presente em quase todas as casas.
Elas ficavam cuidadosamente dobradas em gavetas, armários ou atrás das portas, sempre prontas para uma nova utilidade.
Era uma atitude simples, motivada muito mais pela economia do que pela preocupação ambiental.
Sem perceber, muita gente aprendeu a evitar desperdícios muito antes de esse tema ocupar espaço nas conversas e nos noticiários.
Os antigos tinham o habito de guardar tudo o que pudesse servir novamente.
Sacolas, vidros, caixas, latas e embalagens ganhavam novas funções dentro de casa.
Quando os armários já não comportavam tantas coisas, fazia-se uma boa arrumação e parte daquele material seguia para o lixo.
Naquele tempo os resíduos eram recolhidos pelos caminhões da prefeitura e levados para áreas afastadas da cidade.
Mesmo ali, muitas peças ainda encontravam utilidade nas mãos dos catadores, que reaproveitavam ou comercializavam aquilo que ainda tinha valor.
Recordar essas pequenas práticas é um belo exercício de memória.
Meus pais não eram gastadores.
Tudo em casa era feito com moderação, sem excessos e sem desperdícios.
A Cuiabá da minha infância era uma cidade simples, onde a maioria das famílias levava uma vida parecida.
Meus amigos frequentavam os mesmos lugares: a escola pública, o posto de saúde, a igreja, o cinema, os jardins e as praças.
Os hábitos de alimentação e vestuário também não eram muito diferentes entre as famílias.
Quase todas as casas possuíam quintais generosos, onde se cultivavam frutas, verduras e se criavam alguns animais para complementar a alimentação, enriquecida pelos peixes abundantes do rio Cuiabá.
Os brinquedos eram feitos por nós mesmos, e as calçadas e quintais constituíam nossos espaços preferidos de diversão.
Era comum encontrar cabras, vacas, galinhas e outras criações domésticas nos fundos das casas.
Quando retornei a Cuiabá, muitos daqueles costumes haviam desaparecido, inclusive o hábito de guardar sacolas e reaproveitar objetos.
A vida tornou-se mais prática, mas também mais descartável.
Passamos a comprar mais, guardar menos e substituir com rapidez aquilo que antes procurávamos conservar.
Talvez por isso eu admire tanto as lições de economia e simplicidade que aprendi na infância.
Elas me ensinaram que o verdadeiro valor das coisas não está apenas no que possuímos, mas no cuidado que dedicamos ao que temos.
Hoje, quando vejo uma simples sacola guardada em uma gaveta, não enxergo apenas um objeto reaproveitado.
Vejo uma lembrança silenciosa de um tempo em que se desperdiçava menos, se compartilhava mais e a vida parecia caminhar com maior simplicidade.
Gabriel Novis Neves
15-06-2026
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