quarta-feira, 10 de junho de 2026

VASSOURAS NOS QUINTAIS


Houve um tempo em que o dia começava ao som da vassoura riscando o chão do quintal.

 

Era um ruído simples, mas que anunciava o despertar da casa.

 

As folhas eram juntadas em pequenos montes, os canteiros recebiam atenção e a manhã parecia nascer junto com aquele trabalho silencioso.

 

Hoje muitos quintais desapareceram, mas o som da vassoura ainda vive na memória de quem cresceu em casas abertas para a rua e para a vida.

 

Nasci e fui criado em uma casa de portas abertas ouvindo o ruído da vassoura riscando o chão do quintal.

 

Quis Deus que eu chegasse aos 91 anos morando em um apartamento, com portaria e sem quintal.

 

Mesmo assim, continuo escutando, dentro da memória, o som da vassoura riscando o quintal da minha infância.

 

As crianças educadas nas pequenas cidades do interior cresciam envolvidas pela natureza e só percebiam o valor desse privilégio quando viajavam para centros maiores.

 

Foi doloroso para mim deixar Cuiabá para estudar Medicina no Rio de Janeiro, distante dos cenários que haviam acompanhado a minha infância.

 

Como estudante tinha pouco tempo para apreciar as belezas naturais da cidade.

 

Faltavam-me o cheiro da terra molhada pela chuva e a simplicidade dos quintais cuiabanos.

 

Em vez do som da vassoura varrendo o quintal, eram os amoladores de faca que anunciavam a chegada de um novo dia.

 

Tudo parece diferente quando se compara a natureza com o mundo artificial.

 

Sempre defendi a ideia de que a criança criada em contato com a natureza desenvolve uma relação mais saudável com a vida.

 

Muitos dos nossos grandes estadistas, cientistas, professores, pesquisadores, escritores, poetas, jornalistas, artistas e jogadores de futebol nasceram no interior.

 

Os grandes clubes de futebol do mundo continuam sendo abastecidos por meninos vindos das pequenas cidades ou dos países mais humildes.

 

Quase todos eles despertaram um dia ao som de uma vassoura riscando o chão do quintal de suas casas.

 

Talvez por isso nunca tenham perdido completamente a simplicidade das suas origens.

 

Gabriel Novis Neves

09-06-2026




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