sexta-feira, 5 de junho de 2026

AS NOITES DO CINE TEATRO CUIABÁ


Na década de 1940 ir ao cinema em Cuiabá era um importante acontecimento social. 

 

As famílias se arrumavam com esmero para assistir aos filmes americanos, aos musicais e aos dramas românticos que chegavam com atraso, mas encantavam o público da mesma forma.

 

O Cine Teatro reunia namorados, estudantes e famílias inteiras.

 

As calçadas ficavam movimentadas antes das sessões, num vaivém elegante de pessoas conversando e aguardando o início do espetáculo.

 

Muitos jovens conheceram ali as primeiras histórias de amor, aventura e fantasia.

 

Para uma cidade ainda pequena e distante dos grandes centros, o cinema representava uma janela aberta para o mundo, despertando sonhos em quem jamais havia saído de Mato Grosso.

 

As grandes companhias de teatro também traziam seus artistas à Cuiabá para encenações memoráveis.

 

Ainda menino, ouvi pela primeira vez meu pai convidar minha mãe para assistir Procópio Ferreira interpretando a peça Deus lhe Pague.

 

A obra escrita pelo dramaturgo, jornalista e professor Joracy Camargo, membro da Academia Brasileira de Letras, tornou-se um dos maiores sucessos da dramaturgia nacional.

 

Mais tarde, o Cine Teatro passou a abrigar, nas manhãs de domingo, programas de rádio de entretenimento comandados pelos pioneiros Rabelo Leite, Alves de Oliveira, Salomão Amaral entre outros.

 

O público era formado principalmente por estudantes, embora muita gente preferisse acompanhar as apresentações pelo rádio dentro de casa.

 

Os programas terminavam ao meio-dia, pouco antes das matinés, consideradas o lugar ideal para os namoros juvenis, mesmo sob a vigilância atenta dos lanterninhas.

 

Eram funcionários encarregados da disciplina do cinema, caminhando discretamente pelos corredores com pequenas lanternas nas mãos.

 

Como ainda não existia televisão em Cuiabá, os cinemas e os passeios pelo Jardim tornaram-se os maiores entretenimentos da cidade, especialmente nas noites de quinta-feira e domingo.

 

Depois surgiu o Cine Tropical.

 

Tinha capacidade para cerca de mil e duzentas pessoas, poltronas revestidas de couro vermelho e enormes cortinas de veludo.

 

Era considerado o único cinema ‘ajardinado’ do país.

 

Exibia as maiores produções mundiais da época e recebia apresentações de grandes artistas nacionais.

 

O glamour era tanto que assistir às sessões transformava-se em verdadeiro acontecimento social, exigindo dos frequentadores roupas elegantes e comportamento refinado.

 

O Cine Bandeirantes, na rua de Cima e o Cine São Luiz, no Porto, também foram salas que deixaram saudades profundas na memória cuiabana.

 

O prédio histórico que melhor resistiu ao tempo foi o Cine Teatro Cuiabá, que permanece em funcionamento até hoje, preservando parte importante da cultura da cidade.

 

Há quarenta anos surgiu também o Teatro da UFMT, inaugurado por Tônia Carrero com a peça Macunaíma, de Mario de Andrade, dirigida por Antunes Filho.

 

Mais tarde, a universidade criou ainda o Cine Clube Coxiponés, ampliando os espaços dedicados à arte e ao cinema em Cuiabá.

 

Os cinemas mudaram, os costumes também.

 

Mas as luzes se apagando antes da sessão continuam iluminando as lembranças de quem viveu aqueles tempos.

 

Gabriel Novis Neves

31-05-2026






 






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