Na década de 1940 ir ao cinema em Cuiabá era um importante acontecimento social.
As famílias se arrumavam com esmero para assistir aos filmes americanos, aos musicais e aos dramas românticos que chegavam com atraso, mas encantavam o público da mesma forma.
O Cine Teatro reunia namorados, estudantes e famílias inteiras.
As calçadas ficavam movimentadas antes das sessões, num vaivém elegante de pessoas conversando e aguardando o início do espetáculo.
Muitos jovens conheceram ali as primeiras histórias de amor, aventura e fantasia.
Para uma cidade ainda pequena e distante dos grandes centros, o cinema representava uma janela aberta para o mundo, despertando sonhos em quem jamais havia saído de Mato Grosso.
As grandes companhias de teatro também traziam seus artistas à Cuiabá para encenações memoráveis.
Ainda menino, ouvi pela primeira vez meu pai convidar minha mãe para assistir Procópio Ferreira interpretando a peça Deus lhe Pague.
A obra escrita pelo dramaturgo, jornalista e professor Joracy Camargo, membro da Academia Brasileira de Letras, tornou-se um dos maiores sucessos da dramaturgia nacional.
Mais tarde, o Cine Teatro passou a abrigar, nas manhãs de domingo, programas de rádio de entretenimento comandados pelos pioneiros Rabelo Leite, Alves de Oliveira, Salomão Amaral entre outros.
O público era formado principalmente por estudantes, embora muita gente preferisse acompanhar as apresentações pelo rádio dentro de casa.
Os programas terminavam ao meio-dia, pouco antes das matinés, consideradas o lugar ideal para os namoros juvenis, mesmo sob a vigilância atenta dos lanterninhas.
Eram funcionários encarregados da disciplina do cinema, caminhando discretamente pelos corredores com pequenas lanternas nas mãos.
Como ainda não existia televisão em Cuiabá, os cinemas e os passeios pelo Jardim tornaram-se os maiores entretenimentos da cidade, especialmente nas noites de quinta-feira e domingo.
Depois surgiu o Cine Tropical.
Tinha capacidade para cerca de mil e duzentas pessoas, poltronas revestidas de couro vermelho e enormes cortinas de veludo.
Era considerado o único cinema ‘ajardinado’ do país.
Exibia as maiores produções mundiais da época e recebia apresentações de grandes artistas nacionais.
O glamour era tanto que assistir às sessões transformava-se em verdadeiro acontecimento social, exigindo dos frequentadores roupas elegantes e comportamento refinado.
O Cine Bandeirantes, na rua de Cima e o Cine São Luiz, no Porto, também foram salas que deixaram saudades profundas na memória cuiabana.
O prédio histórico que melhor resistiu ao tempo foi o Cine Teatro Cuiabá, que permanece em funcionamento até hoje, preservando parte importante da cultura da cidade.
Há quarenta anos surgiu também o Teatro da UFMT, inaugurado por Tônia Carrero com a peça Macunaíma, de Mario de Andrade, dirigida por Antunes Filho.
Mais tarde, a universidade criou ainda o Cine Clube Coxiponés, ampliando os espaços dedicados à arte e ao cinema em Cuiabá.
Os cinemas mudaram, os costumes também.
Mas as luzes se apagando antes da sessão continuam iluminando as lembranças de quem viveu aqueles tempos.
Gabriel Novis Neves
31-05-2026
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