Até os anos cinquenta, o apito das embarcações no rio Cuiabá ainda emocionava muita gente.
A cidade vivia num relativo isolamento geográfico, e a chegada dos vapores quebrava a rotina calma das ruas antigas.
Mercadorias, jornais, cartas e passageiros traziam notícias do mundo distante.
Quando o apito ecoava sobre as águas, parecia que a cidade inteira despertava.
Crianças corriam para ver o movimento no porto, enquanto adultos aguardavam encomendas, parentes ou simples novidades. O vapor representava progresso para uma população acostumada às dificuldades das longas distâncias mato-grossenses.
Na memória cuiabana daquele tempo, o apito das embarcações ficou associado à esperança à curiosidade e ao encanto das novidades que chegavam lentamente ao coração de Mato Grosso.
Com a abertura das rodovias asfaltadas e a inauguração do aeroporto de Várzea Grande, no fim dos anos sessenta e início dos setenta, a navegação perdeu importância para Cuiabá.
Os barcos continuaram sustentando muitas cidades ribeirinhas até Corumbá, hoje no Mato Grosso do Sul, mas o velho movimento do porto foi diminuindo aos poucos.
Os trilhos da ferrovia aproximaram ainda mais o restante do país.
O isolamento foi desparecendo e, com ele, parte daquele romantismo ligado aos rios.
Mas certas lembranças não envelhecem.
Ainda hoje, quando escuto ao longe o apito de alguma embarcação, imediatamente retorno à velha Cuiabá da minha infância.
Vejo o rio movimentado, os homens descarregando mercadorias, as famílias aguardando visitas e as crianças observando tudo com encantamento.
O apito do vapor não anunciava apenas uma chegada.
Anunciava movimento, esperança e a sensação de que o mundo, mesmo distante, finalmente estava chegando até nós.
Gabriel Novis Neves
28-05-2026
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