domingo, 7 de junho de 2026

O APITO DA EMBARCAÇÃO


Até os anos cinquenta, o apito das embarcações no rio Cuiabá ainda emocionava muita gente.

 

A cidade vivia num relativo isolamento geográfico, e a chegada dos vapores quebrava a rotina calma das ruas antigas.

 

Mercadorias, jornais, cartas e passageiros traziam notícias do mundo distante.

 

Quando o apito ecoava sobre as águas, parecia que a cidade inteira despertava.

 

Crianças corriam para ver o movimento no porto, enquanto adultos aguardavam encomendas, parentes ou simples novidades. O vapor representava progresso para uma população acostumada às dificuldades das longas distâncias mato-grossenses.

 

Na memória cuiabana daquele tempo, o apito das embarcações ficou associado à esperança à curiosidade e ao encanto das novidades que chegavam lentamente ao coração de Mato Grosso.

 

Com a abertura das rodovias asfaltadas e a inauguração do aeroporto de Várzea Grande, no fim dos anos sessenta e início dos setenta, a navegação perdeu importância para Cuiabá.

 

Os barcos continuaram sustentando muitas cidades ribeirinhas até Corumbá, hoje no Mato Grosso do Sul, mas o velho movimento do porto foi diminuindo aos poucos.

 

Os trilhos da ferrovia aproximaram ainda mais o restante do país.

 

O isolamento foi desparecendo e, com ele, parte daquele romantismo ligado aos rios.

 

Mas certas lembranças não envelhecem.

 

Ainda hoje, quando escuto ao longe o apito de alguma embarcação, imediatamente retorno à velha Cuiabá da minha infância.

 

Vejo o rio movimentado, os homens descarregando mercadorias, as famílias aguardando visitas e as crianças observando tudo com encantamento.

 

O apito do vapor não anunciava apenas uma chegada.

 

Anunciava movimento, esperança e a sensação de que o mundo, mesmo distante, finalmente estava chegando até nós.

 

Gabriel Novis Neves

28-05-2026









Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.