Antes do avanço definitivo dos caminhões, as tropas de burro ainda dominavam parte do transporte em Cuiabá nos anos de 1940.
Vinham carregadas de mercadorias, alimentos e produtos do interior.
O som dos cascos nas ruas de terra fazia parte da paisagem sonora da cidade.
Os tropeiros traziam notícias, histórias e costumes de lugares distantes.
Crianças observavam admiradas aqueles homens queimados de sol conduzindo longas filas de animais.
Era um tempo em que a velocidade da vida seguia o passo das tropas e o comércio dependia da paciência das estradas.
Lembro-me de ficar agachado, deslumbrado, observando aqueles homens fortes, conduzindo as filas de animais que abasteciam a cidade.
A Cuiabá rural que conheci tinha o som dos cascos ecoando nas ruas de terra batida.
As tropas eram conduzidas pelos chamados tropeiros, figuras respeitadas e indispensáveis naquele tempo.
Ao chegarem à cidade, armavam barracas em praças afastadas do centro.
Ali preparavam a comida, dormiam em redes e cuidavam dos animais, sempre atentos para que nenhum burro se soltasse durante a noite.
O desfile das tropas parecia um espetáculo silencioso e fascinante.
Quando partiam de volta para os sítios e povoados do interior, deixavam uma sensação de vazio, como se a cidade perdesse um pouco do seu movimento e da sua alma.
O Brasil rural possuía uma riqueza humana e visual difícil de descrever.
Depois vieram os caminhões, as estradas e a pressa moderna, desalojando lentamente os burros dos caminhos antigos.
Até o linguajar do cuiabano mudou com o tempo.
Tenho certeza de que meus bisnetos, se encontrassem hoje uma tropa de burros atravessando a cidade, olhariam a cena com espanto.
Chegamos ao progresso atual graças também à força daqueles primeiros companheiros da agricultura e do transporte.
Com a modernidade, o homem do campo ganhou novas ferramentas e transformou Mato Grosso em potência do agronegócio.
Hoje, muitos dos antigos caminhos das tropas são percorridos por caminhonetes e até jatinhos.
Mas, dentro da memória de quem viveu naquele tempo, o som dos cascos ainda continua passando lentamente pelas ruas de Cuiabá.
Gabriel Novis Neves
01-06-2026
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.