Não ter horário é um pequeno luxo.
Passamos a vida obedecendo relógios: hora de acordar, de trabalhar, de almoçar, de pagar contas, de tomar remédios e de cumprir compromissos.
Por isso, quando surge um dia sem obrigação marcada, a alma agradece.
Não é preguiça.
É apenas o corpo e o espírito pedindo licença para existir sem cobrança, sem pressa e sem um relógio dando ordens.
Estou vivendo um dia assim.
Foi uma decisão minha.
Não quero ter horário para nada.
Embora esteja trabalhando no computador do escritório da minha casa, o hábito me faz olhar constantemente para o canto da tela, onde o relógio insiste em marcar a passagem do tempo.
Logo surge a lembrança da hora de terminar de escrever.
Descansar completamente, sem relógios a nos azucrinar a vida, talvez só no céu.
E, mesmo lá, quem sabe não apareça um anjo da guarda trazendo alguma tarefa para ocupar a eternidade?
Não desejo luxo nem preguiça.
Desejo apenas um dia sem obrigações.
Existem prazeres que nos levam a viajar, gastar dinheiro e procurar novidades.
Mas há outros, muito mais simples, como o prazer de não precisar fazer nada.
Fazer nada não tem preço.
É apenas o privilégio de estar em paz comigo mesmo.
Como médico, eram raros os dias sem responsabilidades.
E, quando eles surgiam, logo apareciam as urgências e emergências para preenchê-los.
Deve ser difícil viver sem nunca escapar dos horários.
Às vezes chego a pensar que os preguiçosos cumprem uma função importante: lembrar aos demais que a vida não foi feita apenas para correr.
Alguns religiosos acreditam que, na vida eterna, não haverá obrigações.
A alma agradece a ideia de não ter horários a cumprir.
Mas será que teremos companhia para uma boa conversa?
A dúvida não tem hora para aparecer.
Surge de repente e nos desperta.
Quantas vezes acordo motivado por uma pergunta, geralmente literária, que insiste em ser respondida?
É o espírito chamando o pensamento para trabalhar, mesmo quando o corpo deseja descansar.
O prazer de não ter horário é apenas mais um capítulo da filosofia da vida.
E talvez uma das maiores recompensas da velhice seja justamente esta: descobrir que, de vez em quando, não fazer nada também é uma forma de viver.
Gabriel Novis Neves
06-06-2026
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