sexta-feira, 12 de junho de 2026

O PRAZER DE NÃO SEGUIR HORÁRIOS


Não ter horário é um pequeno luxo.

 

Passamos a vida obedecendo relógios: hora de acordar, de trabalhar, de almoçar, de pagar contas, de tomar remédios e de cumprir compromissos.

 

Por isso, quando surge um dia sem obrigação marcada, a alma agradece.

 

Não é preguiça.

 

É apenas o corpo e o espírito pedindo licença para existir sem cobrança, sem pressa e sem um relógio dando ordens.

 

Estou vivendo um dia assim.

 

Foi uma decisão minha.

 

Não quero ter horário para nada.

 

Embora esteja trabalhando no computador do escritório da minha casa, o hábito me faz olhar constantemente para o canto da tela, onde o relógio insiste em marcar a passagem do tempo.

 

Logo surge a lembrança da hora de terminar de escrever.

 

Descansar completamente, sem relógios a nos azucrinar a vida, talvez só no céu.

 

E, mesmo lá, quem sabe não apareça um anjo da guarda trazendo alguma tarefa para ocupar a eternidade?

 

Não desejo luxo nem preguiça.

 

Desejo apenas um dia sem obrigações.

 

Existem prazeres que nos levam a viajar, gastar dinheiro e procurar novidades.

 

Mas há outros, muito mais simples, como o prazer de não precisar fazer nada.

 

Fazer nada não tem preço.

 

É apenas o privilégio de estar em paz comigo mesmo.

 

Como médico, eram raros os dias sem responsabilidades.

 

E, quando eles surgiam, logo apareciam as urgências e emergências para preenchê-los.

 

Deve ser difícil viver sem nunca escapar dos horários.

 

Às vezes chego a pensar que os preguiçosos cumprem uma função importante: lembrar aos demais que a vida não foi feita apenas para correr.

 

Alguns religiosos acreditam que, na vida eterna, não haverá obrigações.

 

A alma agradece a ideia de não ter horários a cumprir.

 

Mas será que teremos companhia para uma boa conversa?

 

A dúvida não tem hora para aparecer.

 

Surge de repente e nos desperta.

 

Quantas vezes acordo motivado por uma pergunta, geralmente literária, que insiste em ser respondida?

 

É o espírito chamando o pensamento para trabalhar, mesmo quando o corpo deseja descansar.

 

O prazer de não ter horário é apenas mais um capítulo da filosofia da vida.

 

E talvez uma das maiores recompensas da velhice seja justamente esta: descobrir que, de vez em quando, não fazer nada também é uma forma de viver.

 

Gabriel Novis Neves

06-06-2026




Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.