domingo, 17 de outubro de 2010

Feriado

Tem cara de domingo, jeito de domingo, rotina de domingo, só que não é domingo. É feriado no meio da semana. Outro dia enfrentei um desses. Após o almoço, liguei a televisão para assistir a alguns lances do jogo do meu Botafogo – como em todo domingo. Ultimamente ligo a televisão e regulo o volume do som para ser ouvido no outro quarto – minha sala de parto. Quando o locutor anuncia gol, corro para o local da televisão para saber quem marcou e assistir ao replay.

O Botafogo vinha com uma série de derrotas e empates inexplicáveis. Um dia fui obrigado a adotar aquela estratégia de escutar o jogo no outro quarto, pois estava impossibilitado de ficar assistindo ao jogo visualmente. O Bota venceu e, como torcedor do alvi-negro é supersticioso, passei a adotar essa estratégia. O diabo é que o Bota não perdeu mais, porém não ganhou também.

Voltando ao feriado com cara de domingo. Ligo a televisão como de costume e vou para o outro quarto. O som que ouvia não era de transmissão de jogo de futebol. Vou até o outro quarto verificar a programação. O canal estava certo, mas estava passando uma novela. Achei esquisito. Desliguei o aparelho de TV e retornei para o meu local de trabalho.

Mais tarde atendo um telefonema de uma sobrinha, Botafogo doente. Pergunto-lhe sobre o resultado do jogo.

- “Que jogo?” Ela me perguntou.

- “Ora! O clássico do nosso time.” – ainda perguntei levemente indignado.

- “Tio, acorda! Esse jogo será domingo. O senhor até parece que chegou àquela idade que confunde João Germano com gênero humano!!!” E caiu na gargalhada – no maior respeito, claro.

Feriado no meio da semana é isso: uma pegadinha para os mais distraídos. Foi a conclusão a que cheguei após o vexame.


Gabriel Novis Neves (7.5+98)

12-10-2010

sábado, 16 de outubro de 2010

TUDO POR EMPREGO

Há décadas existe na televisão um programa popular, comandado sempre pelo dono da emissora, chamado: “Topa tudo por dinheiro”. É líder absoluto de audiência no seu horário.

“Quem quer mais?” Grita o apresentador jogando notas de dinheiro para o delirante auditório. E repete: “Quem quer mais, quem quer mais?”

Casualmente presenciei um espetáculo que poderia servir de base a um novo programa de auditório na televisão: “Topa tudo por emprego.”

O espetáculo foi o seguinte: um caminhão de propaganda política eleitoral trafegava pelas ruas. Em cima do caminhão duas figuras políticas, mas com trajetórias de vida privada e política diametralmente opostas.

Uma delas galgou degrau por degrau para chegar, pela vontade popular e méritos pessoais, ao topo de uma carreira legislativa - com ética e trabalho. Traída pelo partido que ajudou a construir, está sem mandato. A outra figura é funcionário público federal comissionado. É um tatu em cima de um pau. Alguém o colocou lá e todo mundo sabe quem foi. Na sua biografia política consta que participou de uma eleição de vereador em uma pequena cidade não mato-grossense e não obteve sucesso. Toda a sua história profissional está ligada a um poderoso grupo empresarial. Foi também funcionário comissionado de uma Casa de Leis em Brasília e durante anos aqui em Mato Grosso.

O espetáculo que vi é difícil de digerir, quanto mais compreender, mas era a realidade. Peço então socorro a Fernando Pessoa:

“Mas graças a Deus que há imperfeição no Mundo

Porque a imperfeição é uma coisa,

E haver gente que erra é original,

Se não houvesse imperfeição, havia uma coisa a menos,

E deve haver muita coisa

Para termos muito que ver e ouvir...”


Gabriel Novis Neves (7.5+101)

15-10-2010

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Tiro o chapéu

Embora crítico daquilo que ouço e vejo no período eleitoral, em nome da verdade confesso que tiro o chapéu para os humoristas que, como dizem, andam de mãos dadas com a política. Apreciador que sou das pequenas coisas e detalhes do nosso dia a dia, nunca recebi tantas pequenas informações como agora. É o mundo globalizado onde não há lugar para segredos e privacidade.

A retirada do primeiro mineiro, que há setenta dias estava soterrado nas minas do Chile, foi acompanhada por mil e quinhentos jornalistas de todo o mundo. A disputa pela melhor imagem gerou até briga entre eles. Todos queriam registrar o momento feliz de uma grande tragédia.

Daqui para frente esses bravos operários serão celebridades e não me espanta se aparecerem no Faustão. Ô loco! Adeus confinamento, solidão, solidariedade e privacidade. Terão que aprender a viver como celebridades e serão sempre notícia.

Li no jornal Folha de São Paulo, de grande circulação no Brasil, uma manchete que revelava um pequeno detalhe, se o personagem não fosse celebridade no momento: “A ministra não sabe fazer o sinal da cruz!” Uma seqüência de fotos mostra a sua falta de afinidade com os rituais da Igreja Católica durante a missa da Padroeira do Brasil. Mesmo tendo a sua esquerda o Chalita que está de mal com o Serra, não conseguiu colar os gestos do escritor católico, autor da biografia da esposa do Alckmim.

As celebridades políticas são as mais perseguidas pela mídia dos detalhes e do humor - mais do que artistas e jogadores de futebol. Por isso o governo fez de tudo para não permitir os programas humorísticos envolvendo políticos. Desta vez não conseguiram. Quando não existir mais indignação nesta nação, acabarão os humoristas.

Todos se lembram do caso do envolvimento da estagiária da Casa Branca com o presidente. Como rendeu este caso! Falam por aí que se escreveu mais sobre esse deslize do presidente, que sobre a participação americana na segunda Guerra Mundial.

O nosso presidente de Juiz de Fora é mais lembrado pela sua participação no camarote de carnaval com a modelo sem a calcinha, do que como o pai do Plano Real, que extinguiu a inflação no Brasil.

O Brasil é notório pelo seu senso de humor e a prova disso são as lotadíssimas salas de teatro que estão faturando horrores com o tema “humor e política.” Há um consenso nacional que o detalhezinho é hilariante. Proponho mudar o Horário Eleitoral Gratuito, por um bom Programa de Humor Político, e não pelo Horário de Verão.

E a foto da ministra sem saber fazer o sinal da cruz na sua – acredito - primeira missa?

Tiro o chapéu para o jornalista fotográfico da Folha.


Gabriel Novis Neves (7.5+99)

13-10-2010

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

ESFORÇO

Tomo um prolongado banho frio. Ingiro meio copo de café quente sem açúcar. Climatizo o meu dormitório a uma temperatura de 16 graus. Ligo o “Umidificador e Purificador de Ambiente,” na sua capacidade máxima. Deito na cama. Depois de confortavelmente instalado, ligo a televisão. Estou preparado para assistir ao grande e esperado debate de “idéias e propostas” entre o casal de presidenciáveis. Expectativa de soluções ou propostas sinceras não constava na minha noite diferenciada.

Abrem-se as cortinas. O espetáculo começou. Logo na primeira resposta da candidata sabia que a noite seria de luta-livre. Pancada válida só da cintura para cima. E olha que o tema escolhido para a discussão foi educação! Aconteceu de tudo nesse espaço, menos o que fazer com a péssima educação oferecida aos jovens brasileiros.

Veio o intervalo para o segundo bloco. O sono dava sinais que iria derrotar a minha curiosidade de ver o nada para nada. O nível piorou. Uma senhora nervosa destilava ódio puro e “tergiversava” muito. Do outro lado um tranqüilo senhor jogava, com suave ironia, bombas mortais. Fiquei sabendo de cada sujeira! Com relação ao futuro do Brasil, nada. O sono quase me venceu, mas consegui chegar até as despedidas finais. Imediatamente desliguei a televisão, a luz do meu quarto e fui dormir.

Foi um sono cheio de pesadelos horríveis! Sonhei com “genéricos”, e principalmente com “tergiversar.” Como esse verbo foi empregado, gente! Em toda resposta que a senhora dava ao careca aparecia o verbo, última criação dos marqueteiros para se ganhar uma eleição. Nesses debates é “tão bom” não conhecer o currículo e história de vida dos nossos políticos!

Recentemente uma amiga me disse antes das eleições:

- Eu só vou votar em um candidato - e citou espontaneamente o seu nome. A seguir me perguntou se eu faria o mesmo.

- Infelizmente, não, porque o conheço muito bem - respondi.

A amiga surpresa junta as mãos, como em uma oração e desabafa:

- Preciso acreditar em alguém!

Ao contrário do nosso Presidente, não entendo patavina de política, mas manjo mais de futebol que ele. Existe uma regra básica para o time que está vencendo um campeonato com folga. “Jogar com prudência no erro do adversário.”

No debate, o técnico do time que estava vencendo, demonstrando insegurança, mandou o seu time agredir. Todos os que assistiram ao jogo eleitoral, perceberam a fragilidade do time que venceu no primeiro tempo. Abriu totalmente a sua defesa para os contra-ataques mortais.

O jogo está apenas no início. A única chance do time da senhora ganhar seria no primeiro tempo. Ela sabe disso, e o seu técnico e comissão técnica também. Isso ficou bem evidenciado nesse encontro.

Pelo andar da carruagem teremos mais coisas, a saber. A candidata pela primeira vez foi à Igreja de Nossa Senhora Aparecida, a Padroeira do Brasil. Ela assistiu à missa por imposição dos marqueteiros, só que eles se esqueceram de avisá-la da importância da comunhão. Na mesma hora, rádios, sites, jornais e televisão anunciavam o fato: “Foi à missa e se negou a Eucaristia.” Sabe qual a justificativa que ela deu aos jornalistas por não ter comungado?

“Essa pergunta é preconceituosa. O meu Deus me entende.”

Será que o Deus dela, ficou em Brasília? Era o comentário.

Para mim basta de debate! Única novidade que deve surgir no “debate de idéias” eu já sei.

“A candidata está processando o Brasil!”


Gabriel Novis Neves (7.5+99)

13-10-2010

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Mitos

Na Antiguidade Grega foram criados mitos majestosos, poderosos, misteriosos ou belos, e que fazem parte até hoje do nosso inconsciente. De vez em quando alguns emergem nas nossas divagações para dar algum sentido às nossas vidas. Poderia escrever páginas e páginas sobre esses mitos. Mas, os mitos a que quero me referir não são os da Antiguidade. São os mitos modernos. Aqueles criados com o objetivo único de confundir, enganar e manipular a mente dos menos atentos.

São tantos os mitos modernos! Mas vou falar de um mito que está sendo criado e que se encontra diretamente ligado à minha profissão de médico: excesso de médicos no Brasil. Em todas as esquinas e camadas sociais, o número excessivo de médicos no Brasil é falado como uma realidade provada e comprovada. Essa afirmação é um mito. Faltam médicos no Brasil!

Para facilitar a compreensão vou citar por regiões o número de médicos no Brasil e compará-lo com outros países. A Região Norte, com uma população de 15.359.608, possui um médico para cada grupo de 1.130 habitantes - esses dados são indicadores também de países africanos. O Nordeste, com população de 53.591.197, tem um médico para cada grupo de 968 - Singapura, para 714 habitantes tem um médico. Centro-Oeste, de 13.895.375 habitantes, tem um médico para 590 habitantes - o México tem um médico para 510 habitantes. O Sul com 27.719.118 habitantes possui um médico para 500 habitantes - os Estados Unidos tem um médico para 411 habitantes. O Sudeste, com população de 80.915.332, possui um médico para 439 habitantes - a França tem um médico para 296 habitantes.

Agora falando do nosso Mato Grosso. No cômputo nacional o nosso Estado só perde, na relação médico por habitantes, para SP, ES, TO, MG, RS, PR. Empatamos com RO. E pasmem! Ganhamos do DF, GO, MS, RJ, PE, RN, PB, CE, PI, SE, AL, MA, AM, RR, AP, AC, PA. A Bahia não forneceu dados para a pesquisa.

Pelos dados apresentados só poderíamos concluir que Mato Grosso tem um dos melhores sistemas de saúde do Brasil. Ledo engano! A realidade da nossa saúde pública é bem cruel. Mesmo estando entre os oito Estados com maior número de médicos por habitante, o povo sofre humilhado por falta de atendimento. Por quê? Culpa dos médicos? Dos gestores da saúde? Não. O grande responsável por esse relaxamento e descaso com a saúde pública é aquele que detem o poder de fazer alguma coisa, e não faz nada: o governo.

Culpado, sim! Não existe política pública nacional para a fixação do médico no interior do Brasil – o que acarreta uma sobrecarga nos Hospitais das Capitais, criando o triste e lastimável espetáculo da “ambulância terapia.” O governo usa a saúde pública para fazer politicagens e barganhas, como se pudesse barganhar com a vida humana. E o fator principal desse caos é a má gestão do dinheiro público – os escândalos frequentes estão aí para não me desmentir.

A falta de financiamento governamental cada vez é mais preocupante. Embora Mato Grosso seja um Estado riquíssimo, a saúde que o governo oferece a sua heróica população carente é paupérrima, para não dizer quase inexistente. Causa-me grande revolta saber que o governo possui inúmeros recursos disponíveis a favor da saúde da população, e, no entanto, a população padece. O povo trabalha, o governo atrapalha.

Num dos Estados onde o número de médico por habitante é considerável, a falta de uma política pública para redistribuir esses médicos pelo interior, é, no mínimo inaceitável. Os médicos até que tentaram mudar este quadro através de uma greve para exigir melhores condições de trabalho. Ouviu-se então, do autoritário governador da época (Ciro Gomes), o surgimento do tão revoltante mito: “Podem pedir demissão. Médico é igual sal: branquinho, existe em todo o lugar, e é baratinho.”

Os dados aqui apresentados foram publicados no Jornal do Conselho Federal de Medicina. A má distribuição de médicos no Brasil criou na população das capitais e outros grandes centros, o mito do excesso de médicos. Liquidem com este mito!


Gabriel Novis Neves

02/06/2010

terça-feira, 12 de outubro de 2010

O TEMPO VOA

Elas esperam ansiosamente o Dia das Crianças para ganhar um presente. Brincam, exploram e curtem o presente à exaustão, e o abandonam quando destruído ou simplesmente quando perdem o interesse. No Dia das Crianças do ano passado ganhei de um jovem amigo um presentão.

Disse-me alguém, há alguns anos, que todos nós temos uma criança dentro de nós. E não é que temos mesmo? Eu, por exemplo, não só tenho como sou uma criança grande, e recebi o meu brinquedo com a maior alegria. Mas, ao contrário das crianças pequenas, guardo com o maior carinho, e interesse redobrado o meu brinquedo – hoje ele faz parte da minha vida, e é o meu companheiro de todas as horas. Não à toa, pois com ele a minha autoconfiança aumentou, a minha curiosidade foi estimulada, e me deu uma autonomia nunca pensada. Uma jóia mesmo. Inestimável.

Meu brinquedo-companheiro me fez até comprar outro. Caso um se danifique, tenho outro igual ao que ganhei. Como o tempo para “criança da minha idade,” não passa, voa, há um ano abandonei muitos dos meus prazeres por ele. Meus amigos me chamam de “criança” que não gosta de nada, não sai de casa - a não ser para ir ao consultório, não viaja, não freqüenta a sociedade e seus eventos. Não bate-papo nos lugares badalados, tal qual um prisioneiro.

Como o julgamento apressado e as aparências das pessoas enganam! Durante muitos anos, por dever do ofício fui sim um prisioneiro, no mundo das multidões. Agora viajo no “presente que ganhei” sempre acompanhado de gente que me entende. Não sinto solidão com os meus amigos virtuais. A autonomia deste vôo, não respeita distâncias ou fronteiras.

O fato é que, o brinquedo que ganhei no Dia das Crianças ano passado guardo-o até hoje, e espero que se eternize comigo. E é tão simples o meu brinquedo! Não existe no comércio, e sim no coração de quem entende de gente. O meu brinquedo é:

www.bar-do-bugre.blogspot.com


Gabriel Novis Neves (7.5+98)

12-10-2010

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Humor

A revista Veja de semanas atrás trouxe matéria explicando ao leitor os vários tipos de humor. Segundo a reportagem existe quatro tipos de humor: corrosivo, agregador, autodepreciativo e o de bem com a vida. E alerta que todos nós temos um pouco de cada um deles. Em outra reportagem li que, “desde a antiguidade, o humor faz parte da democracia como instrumento de crítica aos governantes”, e que o “humor é uma das chaves para a compreensão de culturas, religiões e costumes das sociedades”

Bom. Concordo com tudo. Por isso me causou espanto, e acredito que em grande parte dos brasileiros, a estúpida e antidemocrática tentativa de censura aos programas humorísticos nas eleições deste ano. Mas, o povo brasileiro não é um povo qualquer. Ele é o grande povo brasileiro. Já que os humoristas foram censurados, o povo elegeu um palhaço profissional para deputado federal. A força política do humor é tão forte, que este palhaço foi eleito o deputado federal mais votado do Brasil pelo nosso Estado mais rico e alfabetizado. É o representante legítimo da indignação brasileira no Congresso. É o uso do humor corrosivo – aquele empregado para criticar, provocar e manipular os outros por meio do sarcasmo e do ridículo.

Existem várias formas de exteriorizar a nossa indignação através do humor, sendo as mais tradicionais através da escrita, televisão, caricaturas e charges. Todos os jornais e revistas possuem um número considerável de colaboradores, articulistas, cronistas etc., mas só um caricaturista ou chargista. Mas, uma boa imagem fala mais que uma enciclopédia.

Páginas de revistas famosas sempre foram preenchidas pelos caricaturistas, e suas curtíssimas indagações. O “Amigo da Onça”, do imortal Péricles, era mais certeiro nos seus objetivos do que as dezenas de páginas escritas pelo David Nasser. É bom lembrar o imortal Millôr, que semanalmente ocupa uma página da principal revista do Brasil, utilizando desenhos, letras e pequenas frases. O mestre em recente entrevista afirmou que sempre fez jornalismo com humor, pois “quem não tem humor não vive, é vivido.”

Como gostaria de demonstrar toda a minha indignação, se um dia fosse premiado pelos Deuses do humor.

Quero viver e não ser vivido, nesses dias que me sobram da poupança de uma vida íntegra.


Gabriel Novis Neves (7.5+95)

09-10-2010