quarta-feira, 14 de outubro de 2026

A CHAVE ESQUECIDA NA PORTA


Um pequeno descuido desperta grandes lembranças.

 

Ao perceber a chave esquecida na porta, fui transportado às memórias da infância — tempo em que a confiança era tanta que ninguém trancava a casa, e o medo ainda não morava nas esquinas.

 

No tempo da minha avó Eugênia, mãe de quinze filhos, ela só fechava a porta da rua depois de contar as crianças espalhadas pelo chão.

 

Às vezes, alguma passava a noite na casa de vizinhos, e isso era comum.

 

Na casa dos meus pais, a porta da rua tinha apenas um trinco — a tranca era usada de vez em quando.

 

Era a maneira inteligente que minha mãe encontrou para controlar a chegada dos filhos.

 

Eles precisavam tocar com os dedos a janela do quarto dela.

 

Então, ela se levantava, retirava a tranca de madeira e abria a porta.

 

Perguntava sobre o horário, cheirava o hálito dos meninos para saber se haviam fumado ou bebido, e em seguida apontava para a varanda, onde um copo de leite os esperava sobre a geladeira.

 

Só depois nos mandava para o quarto.

 

Essa disciplina durou até meus primeiros anos de Medicina, quando eu vinha passar as férias em casa.

 

Nunca tivemos chave.

 

E mesmo depois de formado, nunca fumei nem bebi na frente dos meus pais.

 

Curiosamente, foi meu pai quem passou a me entregar, todos os dias, duas carteiras de cigarro — uma para mim e outra para a Regina.

 

As chaves das casas antigas eram enormes, pesadas, e ninguém as carregava no bolso.

 

A cidade era tão tranquila que ninguém temia ladrões.

 

Quando morei na casa assobradada do avô da Regina, na rua Paissandu, no Rio de Janeiro, ele tinha o hábito de manter a porta sempre trancada, guardando a chave na varanda.

 

Ao anoitecer, conferia cada fechadura e subia para seus aposentos, onde mantinha uma bela biblioteca.

 

Raras eram as noites que não descia para verificar se todas as portas estavam bem fechadas.

 

Eu brincava, chamando-o de neurótico obsessivo.

 

Hoje, no meu apartamento do vigésimo andar, tenho chaves modernas, fechaduras com travas e olho mágico.

 

Ainda assim, confesso: tenho medo de ladrões.

 

Gabriel Novis Neves

01-11-2025




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