Um pequeno descuido desperta grandes lembranças.
Ao perceber a chave esquecida na porta, fui transportado às memórias da infância — tempo em que a confiança era tanta que ninguém trancava a casa, e o medo ainda não morava nas esquinas.
No tempo da minha avó Eugênia, mãe de quinze filhos, ela só fechava a porta da rua depois de contar as crianças espalhadas pelo chão.
Às vezes, alguma passava a noite na casa de vizinhos, e isso era comum.
Na casa dos meus pais, a porta da rua tinha apenas um trinco — a tranca era usada de vez em quando.
Era a maneira inteligente que minha mãe encontrou para controlar a chegada dos filhos.
Eles precisavam tocar com os dedos a janela do quarto dela.
Então, ela se levantava, retirava a tranca de madeira e abria a porta.
Perguntava sobre o horário, cheirava o hálito dos meninos para saber se haviam fumado ou bebido, e em seguida apontava para a varanda, onde um copo de leite os esperava sobre a geladeira.
Só depois nos mandava para o quarto.
Essa disciplina durou até meus primeiros anos de Medicina, quando eu vinha passar as férias em casa.
Nunca tivemos chave.
E mesmo depois de formado, nunca fumei nem bebi na frente dos meus pais.
Curiosamente, foi meu pai quem passou a me entregar, todos os dias, duas carteiras de cigarro — uma para mim e outra para a Regina.
As chaves das casas antigas eram enormes, pesadas, e ninguém as carregava no bolso.
A cidade era tão tranquila que ninguém temia ladrões.
Quando morei na casa assobradada do avô da Regina, na rua Paissandu, no Rio de Janeiro, ele tinha o hábito de manter a porta sempre trancada, guardando a chave na varanda.
Ao anoitecer, conferia cada fechadura e subia para seus aposentos, onde mantinha uma bela biblioteca.
Raras eram as noites que não descia para verificar se todas as portas estavam bem fechadas.
Eu brincava, chamando-o de neurótico obsessivo.
Hoje, no meu apartamento do vigésimo andar, tenho chaves modernas, fechaduras com travas e olho mágico.
Ainda assim, confesso: tenho medo de ladrões.
Gabriel Novis Neves
01-11-2025

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.