Há quem veja com os olhos, e há quem enxergue com o coração.
Na velha barbearia da rua do Meio, um homem sem visão cortava cabelos — e tocava almas.
Cortava cabelos de olhos fechados, mas parecia enxergar as almas.
Suas mãos sabiam onde o pente devia passar — como se guiassem memórias, e não fios de cabelo.
Deus sabe o que faz.
Tira um sentido e aperfeiçoa outros.
Nunca cortei cabelos ou fiz a barba com barbeiros cegos.
Os antigos dizem que chegaram a cortar cabelos com profissionais sem visão.
Eram caprichosos ao extremo e muito inteligentes, direcionando as conversas com humor e sabedoria.
Sua freguesia era composta quase que só de vizinhos de rua.
Os fregueses diziam que aquele homem via com as mãos.
Sabia quem estava triste ou feliz apenas pelo toque leve do pente sobre a cabeça.
Sentia quando o cliente vinha preocupado, e logo puxava assunto para aliviar o coração.
Falava de futebol, das notícias do dia, das namoradas e da política local.
Era o confessor de todos, e a barbearia uma espécie de templo da amizade.
A cadeira de couro, já gasta pelo tempo, guardava histórias que ele jamais revelava.
O espelho, limpo e brilhante, refletia a vaidade dos outros —mas não a dele.
Cego, parecia enxergar mais longe que todos nós.
Enxergava com o coração.
Quando a tesoura silenciava, o freguês levantava-se leve, como se tivesse deixado ali não apenas os cabelos cortados, mas também os pensamentos pesados.
E antes de ir embora, pagava e dizia: ‘Até a próxima, mestre’.
Ele sorria, virando o rosto em direção à voz.
Sabia exatamente quem era.
Dizem que um dia, já velho, deixou de cortar cabelos, mas continuou frequentando a barbearia apenas para conversar.
E até hoje, quem passa por ali jura ouvir o som da tesoura no ar — lembrança viva de um barbeiro cego que via melhor do que todos nós.
Gabriel Novis Neves
06-11-2025

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