segunda-feira, 25 de outubro de 2010

FAIXAS

Sabe aquelas faixas penduradas nas ruas? Pois bem. Já fui alvo delas. E aqui faço uma rápida retrospectiva. Meses atrás, mais precisamente em julho, um grupo de amigos decidiu fazer uma brincadeira comigo e colocou quatro faixas penduradas ao longo da rua onde moro, com dizeres diferentes. O motivo era simples: cobravam minha presença na padaria onde eu era frequentador assíduo e da qual sumi por força de outros afazeres.

Tudo começou como uma brincadeira dos “Fuxiqueiros”, como são chamados os membros deste grupo de amigos. Entretanto, as faixas, muito bem humoradas, passavam mensagens que davam margem às mais diversas interpretações.

Dentre elas, ressalto: doença, sequestro, apelo político e até assédio sexual. A síndica do meu edifício me interfonou apresentando a sua solidariedade pela falta de respeito das mulheres de agora. A minha filha foi almoçar em um restaurante e não conseguiu comer de tanto explicar que eu estava bem e em casa. Até da Espanha recebi telefonema de uma ex-secretária para saber se estava tudo bem comigo. Leu pela internet notícias dos dizeres das faixas e teve horríveis pesadelos comigo. Pensou logo em doença grave ou sequestro. Tranquilizei-a dizendo que estava tudo bem e as faixas não passavam de uma brincadeira de amigos.

O resultado dessa confusão toda serviu para me mostrar o poder de comunicação das faixas de rua. Todo mundo olha. Todo mundo lê.
No caminho do consultório, um dia desses, li várias com os mesmos dizeres. Bem direta na sua única mensagem. E não era uma brincadeira, ou melhor, era uma brincadeira sim, mas de um “palpite”. O autor do texto da faixa é parente do único presidente da República cassado. É.
As faixas anunciavam o resultado do jogo, antes do mesmo terminar! É bom esperar o apito final do juiz.

Assim, pois, é que resolvi escrever sobre as faixas. Faixas nas ruas sempre mexem com a população.

Servem apenas para brincadeiras de fino humor.


Gabriel Novis Neves (7.5+106)

20-10-2010

domingo, 24 de outubro de 2010

Doutor Pedrossian

Em 1966 é eleito governador do Estado de Mato Grosso - não dividido - o engenheiro ferroviário Pedro Pedrossian. Nascido em Miranda (MS) era filho de armênio, chamado pelos seus amigos de “Turco”.

Estudou engenharia na Escola Politécnica de São Paulo. Jovem ainda foi diretor da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil. Casado com Maria Aparecida Pedrossian tem cinco filhos, sendo seu filho caçula cuiabano do Hospital Geral.

A coligação PSD-PTB indicou como vice-governador, o professor Lenine de Campos Povoas. O candidato derrotado foi o pecuarista e banqueiro, Lúdio Martins Coelho da UDN.

Pedrossian governador tinha vários problemas a enfrentar, sendo que o maior de todos era o desenvolvimento do Estado. Sabia que o caminho único era através da educação. O Estado que herdou - um imenso curral - tinha proprietários.

O analfabetismo ocupava uma das maiores taxas do Brasil. Oitenta e cinco por cento dos professores primários eram leigos. O ensino superior no grande Estado era pontual e o ensino médio o final da educação para poucos.

A educação funcionava como um departamento assim como saúde, cultura, esporte. Pedrossian criou a Secretaria de Saúde e deixou a Secretaria de Educação para cuidar da educação com os seus departamentos de cultura e esporte.

Não negociou, loteou ou indicou nenhum correligionário ou amigo para ocupar a pasta mais importante do seu governo. Solicitou que o Ministério da Educação indicasse um professor qualificado para a missão.

A sua meta educacional era ambiciosa: fortalecer o ensino básico, criar o ensino médio voltado para o trabalho e implantar duas universidades no Estado. Uma com sede em Cuiabá e outra em Campo Grande.

Mesmo em um Estado pobre de dinheiro, construiu o básico-físico das duas cidades universitárias, que doadas ao Ministério da Educação, abrigariam as Universidades Federais de Mato Grosso (UFMT) e Mato Grosso do Sul (UFMS).

Pedrossian não se esqueceu também da parte acadêmica que serviu de suporte inicial as universidades por ele criadas.

Este é um rápido perfil do governador que mais fez pela educação na história destes Estados irmãos. Acreditou e decidiu que Mato Grosso só seria outro se cuidássemos dos nossos jovens.

Aos oitenta e dois anos, longe do poder e dos amigos do poder, chorou ao saber que após quarenta anos, a UFMT reconheceu o seu idealizador.

Parabéns UFMT pelo reconhecimento do trabalho do seu maior responsável!
Obrigado Doutor Honoris Causa - Pedro Pedrossian!


Gabriel Novis Neves

21-10-2010

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

PARA PEDRO

José Mendes compôs uma ingênua canção que retrata com simplicidade um baile lá na serra, onde um ilustre convidado chegou mexendo com todo mundo. Os antigos ainda se lembram dos serviços de alto-falantes das cidadezinhas do nosso Estado. Ao anoitecer, para a alegria da sua população, tocava o - “Para Pedro, Pedro para” - refrão repetido quatro vezes.

Não sinto nostalgia desses tempos que não voltam mais, mas não nego a beleza simples e inocente daquele cenário que vi tantas vezes!

Duas semanas após as eleições, somente duas, leio no noticiário que o nosso Pedro não foi ao baile da serrinha, porém ao almoço do Manso.

Como por encanto ressurge o cenário que achava perdido pelos anos - do baile da serrinha com o refrão: “Para Pedro, Pedro para.”

O cérebro humano é uma caixinha maravilhosa. Apaga as coisas sem importância e mesmo com o decorrer do tempo guarda aquilo que um dia nos encantou.

A natureza nos ensina que tudo tem o seu tempo para acontecer. Na primavera as nossas calçadas são premiadas pelo amarelo das flores das árvores. O povo passa e diz - chuva de ouro, que beleza!

Para presenciar essa beleza da natureza esperamos meses. As plantas e as árvores nascem a partir de uma pequena semente e transformam-se em cenários os mais diversos e perfeitos, mesmo nas suas formas bizarras.

Em nome da beleza e da perfeição, a natureza jamais acelera o seu processo, como nesse injustificável e prematuro almoço. Ninguém aceita que foi para preparar uma convivência parlamentar em Brasília, de quatro anos. Atenção revisão! É isso mesmo: quatro anos.

A sabedoria popular recomenda o resguardo para uma série de situações que enfrentamos. Depois de meses de campanha “pesada” em que a tônica foi “quê dê o dinheiro das máquinas?”, há um período mínimo necessário para a cicatrização da ferida aberta. Duas semanas? Só por milagre acredito ser possível, em nome de Deus, e não no alegado interesse do Estado! Ah! Dá licença!

Fico imaginando a cena do acusador na casa do réu, tudo por amor ao nosso povo! E os que ficaram sabendo das estripulias do baile da serrinha e que insistentemente pediam ao Pedro para parar, e no Manso para não ir?

Haverá tempo para almoços, passeios de lancha no lago Paranoá e quatro anos em Brasília, campo neutro para demonstração de educação política. Os interesses públicos serão tratados, acima dos pessoais, com transparência e compromissos com a nossa gente. Tempo haverá para desfazer o mito que todo político é farinha do mesmo saco. Também limpar a péssima impressão deixada pelo almoço da submissão no Manso.

Para Pedro, Pedro para.


Gabriel Novis Neves (7.5+106)

20-10-2010

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Um corpo

Cinco horas e trinta e seis minutos. O sol estava despontando. Saio para a minha caminhada habitual. No percurso já meu conhecido vejo a banca de jornal ainda fechada. No chão da calçada em frente à banca um menino, dos seus 12, 13 anos, dormindo.

Aproximei-me. O corpinho daquele menino estava em contato direto com o sujo piso da calçada. Geralmente o morador de rua estende um papelão para se deitar. Às vezes jornais velhos servem de coberta. Mas, neste caso, a crueza da situação estava presente em todos os detalhes. Chamou-me a atenção a posição da criança dormindo. Estava na posição predileta na vida intra-uterina: corpo em decúbito lateral esquerdo, cabeça fletida sobre o corpo, os bracinhos quase colados ao tórax anterior, mãozinhas em cima do coração, as perninhas em direção ao abdome.

Fiquei paralisado olhando aquela cena. Sei que estava diante de uma chaga social muito comum nas cidades. Mas o confronto da realidade dura dessas crianças andrajosas e famintas de coração caiu sobre mim com o impacto de uma bofetada. O nosso futuro jogado na calçada. Ajoelho-me ao lado do menino. Percebo movimentos respiratórios. Biologicamente ainda está vivo, porém socialmente está morto há muito tempo. O menino dormia tão profundamente que não se mexeu ao meu toque no seu braço. Pensei comigo: “não é um sono natural. Será que está drogado?” Achei melhor não tirá-lo subitamente do seu aparente torpor. Talvez, pensei, no retorno da minha caminhada eu possa ter a sorte de encontrá-lo um pouquinho mais desperto, e assim poder prestar algum tipo de ajuda para minimizar o seu sofrimento.

Com este pensamento prossegui a minha caminhada. Mas, para mim, a manhã se tornara sombria e triste. A imagem do menino dormindo no chão não saía da minha mente.

Esta nação, tão generosa para alguns, não se interessa pelo seu futuro. Ficaremos eternamente discutindo o óbvio e os pequenos problemas emergenciais de uma determinada situação. Queremos projetos mirabolantes de exploração de recursos naturais no fundo do mar, quando o Brasil de hoje é um profundo fundo de mar de problemas sociais. Para resolver o nosso projeto tecnológico dependemos de ajuda científica dos países que cuidaram das suas crianças. As dificuldades do nosso fundo do mar social dependem exclusivamente de nós. Não me sai do pensamento como um país rico em matéria-prima joga o seu futuro de nação independente nas calçadas das suas ruas.

Por razões que fogem à minha compreensão, resolvo encurtar a minha volta e me dirijo à banca de revista. O menino não está mais lá. Pergunto a um amigo que, diariamente, com a ajuda de dois filhos, monta ao lado da banca de jornal, a sua barraquinha para vender café, sucos de frutas naturais e salgadinhos, sobre o menino que dormia na calçada ao lado da sua barraca. Ele me responde que tinha acabado de chegar e não viu nenhum menino dormindo na calçada. Agradeço a informação e volto pesaroso para a minha casa.

Volto pesaroso e uma pontinha de sentimento de culpa martelando a consciência. Nestes tempos tão cruéis e embotados, será que a praga da indiferença dos nossos governantes frente à tão graves problemas sociais estará contaminando a todos nós? Será que também eu fiquei insensível ao drama que presenciei? Mas não! Não fiquei insensível! Apenas aprendi uma grande e triste lição: a miséria social, principalmente das nossas crianças, não admite adiamentos.


Gabriel Novis Neves (7.5+100)

14-10-2010

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

TROCA-TROCA

Vou propor a mudança do nome de todas as ruas, becos, avenidas, praças e edifícios públicos de Cuiabá. Este seria o primeiro passo para enterrar definitivamente a história desta cidade, que tanto desconforto e perturbação parecem estar causando a algumas pessoas. Extinguir do currículo escolar a disciplina de História do Brasil - principalmente de Mato Grosso, também deve ser levado em conta. Outra medida fundamental seria o fechamento dos cursos de História das Universidades, do Instituto Histórico e Núcleo de Documentação Histórica, assim como das obsoletas Secretarias de Cultura. Além disso, seria preciso que as poucas bibliotecas públicas doassem os seus livros e documentos históricos de Mato Grosso a alguma ONG estrangeira. Lembro ainda que o governo, ao ficar livre dos seus professores de História, faria uma colossal economia, especialmente neste período de gastança com os preparativos da Copa do Mundo.

Com essas medidas, provavelmente, a cidade adquiriria um ar de modernidade e perderia o seu jeito quatrocentão. Não, não fiquei louco, mas é que fiquei tão enternecido e entusiasmado com a proposta que um dos nossos notáveis vereadores fez à Câmara Municipal, que não posso pensar de outra forma. E digo mais: a proposta foi aprovada por unanimidade. O projeto de lei apresentado foi o de substituir o nome da Avenida XV de Novembro pelo nome de um antigo comerciante do bairro do Porto.

E, pensando cá comigo: para que eternizar o carinho para com o Marechal Deodoro da Fonseca, proclamador da nossa república no dia 15 de novembro? Dizem por aí que o povo brasileiro não tem memória mesmo?! Então vamos ajudar na idiotização do povo!

O projeto de lei aprovado pela Casa do Povo de Cuiabá foi à sanção do Prefeito, que vetou a novidade. No retorno à Câmara, o veto foi derrubado por unanimidade. Por pudor e respeito às crianças, não irei transcrever a justificativa. Finalmente estaremos humanizando o histórico e tradicional Bairro do Porto, substituindo uma reles data por um nome super conhecido, na sua avenida principal!

Esta idéia me animou tanto que irei coletar as assinaturas necessárias constitucionalmente para propor à Câmara da minha cidade outras correções históricas. A primeira solicitação será a mudança imediata do nome da Praça Alencastro para Praça do “Bar do Bugre.” A justificativa é que por meio século um comerciante muito conhecido na cidade tinha um bar em frente à praça que, na verdade, era um jardim. Todos sabem que os europeus adoram conversar em bar na praça. Sabendo da sua existência, seria mais um ponto de turismo para oferecer ao pessoal que por aqui aportar para a Copa.

E assim, aos poucos, com a participação popular, iremos mudar a velha cara de Cuiabá. Tenho apenas uma preocupação com esse negócio de trocar nome de logradouros públicos. As três últimas tentativas realizadas neste sentido na nossa querida cidade não deram certo. A mudança do nome da Avenida do Lavapés para 31 de Março não colou. A mudança de nome da Avenida Mato Grosso foi abortada e a Avenida dos Trabalhadores, mesmo com o nome trocado, ninguém a chama pelo novo nome, a não ser o cobrador do IPTU.

Bem se vê que sou chegado a uma brincadeira. A verdade é que o nosso povo e a sua história merecem o respeito de todos. E para aqueles que sentem aquele desconforto com as tradições cuiabanas, lembrem-se: “a porta da rua é a serventia da casa.”


Gabriel Novis Neves (7.5+85)

29-09-2010

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Números

Sempre fugi dos números, um dos motivos de ter escolhido a medicina como profissão. A medicina, que muitos insistem em afirmar ser uma ciência, não é exata. Alguns a chamam de arte e, outros, de a ciência das evidências. Pensei que no exercício da medicina jamais me defrontaria com os terríveis números. Doce ilusão!

O médico trata de humanos, mas seus equipamentos básicos dependem da leitura e interpretação de números: medir a pressão arterial, contar o número de batimentos cardíacos e respiratórios, assim como verificar a temperatura corporal e peso dos pacientes. A medicação é efetuada mediante cálculos matemáticos complexos, envolvendo o número de anos vividos e o peso do paciente, para a fórmula salvadora - sempre em números.

Não há como evitar os números na nossa vida. O nosso nascimento é composto de dia, hora, mês e ano. Tudo são números. E os números irão marcando a nossa trajetória, que se encerra com o número do dia, hora, mês e ano. Esses números obedecem a certa lógica, que correspondem ao nosso ciclo vital.

Entretanto, há números sem explicações convincentes, incompreensíveis mesmo. Analiso o resultado dos números das últimas eleições. Não consigo entender. A matemática é uma ciência exata - tão diferente da medicina!

Mas como explicar, pela matemática, que um candidato ao Senado, avaliado pelas pesquisas com 92% de aprovação, após a apuração dos votos aparece somente com minguados 37%?

E um candidato ao governo do Estado, de uma coligação sem partidos fortes e apoio ostensivo da máquina administrativa, marcar presença com 32% dos votos, praticamente o dobro dos votos do candidato da coligação de dois dos maiores partidos do Brasil?

Para quem quer fugir dos números, tem mais. Outro candidato, sem militância político-partidária, funcionário público federal concursado, de um pequeno partido político fracionado, virgem de eleições, conseguiu abocanhar 25% dos eleitores, ficando com uma vaga do Senado.

Um dos derrotados pelo senador eleito e apelidado de taxi fez até um filme com o presidente da República, que de tão artificial, só fez diminuir o número dos seus votos.

Não contando que a candidata-ministra foi aconselhada a não fazer campanha por aqui, pois o seu grande cabo eleitoral sozinho daria conta do recado. Resultado dos números apurados: a ministra ficou em 2º lugar, perdendo para um candidato que nem tinha comitê no Estado.

A seringueira com 20 milhões de votos encantou o Brasil e surpreendeu o mundo.

Realmente não entendo nada de números e a matemática nunca foi uma ciência exata, pelo menos na política.


Gabriel Novis Neves ( 7.5+94)

09-10-2010

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

CUIABÁ FEDE

Um cheiro forte de coisa podre me acorda um pouquinho antes do meu horário habitual. Imediatamente, após escancarar a janela, faço um detalhado inventário no meu quarto tentando encontrar a causa material do desconforto olfativo. Revisto armários, gavetas, olho em baixo da cama, examino as roupas da cama, o solado do sapato e do chinelo, e nada. Vou ao banheiro, onde o rigor da auditoria é maior. Tiro os protetores dos dois ralos que dão saída à água do chuveiro e do sistema sanitário. De joelhos meto as minhas narinas nessas escavações para identificar se era dali a origem da fedentina. Nada. Tudo ok por aqui.

Vou à copa para o guaranazinho ralado. O odor era maior que no meu quarto. Abro portas e janelas para eliminar o mau cheiro e faço também uma inspeção pela copa e cozinha. Nada. Meu apartamento está limpo. Saio para a caminhada. Entro no fétido elevador – até ali o cheiro era perturbador.

Ao chegar à calçada do meu prédio a fedentina continuava. E foi aumentando à medida que eu percorria os quatro bairros do meu trajeto habitual – bairros considerados de elite e que concentram o maior PIB da cidade.

Encontro amigos caminhando em horários não convencionais para eles. Pergunto se estão sentindo a catinga que sinto. Respondem que fugiram de casa por causa do mau cheiro e já estavam arrependidos, pois na rua a poluição olfativa era mais intensa.

Nas proximidades do buracão aberto para a construção da Arena Pantanal para dois jogos da Copa do Mundo, encontro um varredor de rua. Pergunto a ele se por acaso saberia me dizer qual a origem de tamanha fedentina. Com o cabo da sua vassoura aponta para a direção onde diz estar situado o causador do desconforto, e me explica:

- Lá seo “dotô”, há anos está instalado um curtume. Conforme a direção do vento o fedor se dirige para cá. Hoje fomos sorteados. Vamos rezar para o vento mudar de direção, pois ninguém merece. Imagine o senhor se na época da Copa bater um vento desses na hora do jogo? No mínimo os estrangeiros irão pensar que nós peidamos durante as partidas de futebol!

- Não fale assim que é feio - disse ao limpador de rua.

- Então como que fala, seo “dotô”?

- Flatulência, respondi.

- Ah! Sei. Nominho difícil de falar né? Fico com o meu.

Lógico que eu estava brincando! Na verdade ninguém usa aquele termo. O mais comum é aquele mesmo usado pelo varredor de rua. Agradeço o esclarecimento e prossigo minha caminhada.

A seguir encontro um conhecido que foi logo reclamando do cheiro desagradável. Diz ele que na saída para Rondonópolis, a quarenta quilômetros de Cuiabá, tem um enorme curtume que o obriga a fechar os vidros do carro sempre que passa por lá. “O cheiro é exatamente igual a esse, o problema - continua ele - é que aquele curtume está bem distante do perímetro urbano de Cuiabá, e este está praticamente dentro da cidade.” Concordei com ele.

Retorno para casa com duas certezas: não tenho nenhum problema neurológico afetando o meu olfato e que ele, definitivamente, jamais se acostumará com a fedentina provocada pelo curtume de Cuiabá.


Gabriel Novis Neves (7.5+102)

16-10-2010