domingo, 16 de março de 2025

SEGUNDA-FEIRA CHATA


Assim como existem pessoas chatas, há dias que também são. Hoje, especificamente, é um deles.

 

Não sei se é a desaceleração destes primeiros dias do ano, ainda impregnados com o cheiro de festas, ou se sou eu que acordei assim — chato.

 

Parece que vou enfrentar o desconhecido, o que, convenhamos, é um absurdo.

 

A funcionária da cozinha veio me avisar que para o almoço, aproveitará as sobras da feijoada de sábado.

 

Com uma boa pimenta malagueta e farinha de mandioca fina, tudo bem. Melhor ainda se houver algumas fatias de laranja.

 

Aprendi a comer comida adormecida nas pensões do Rio de Janeiro.

 

Na minha casa as sobras serviam para alimentar os porcos.

 

Esse choque cultural aconteceu em 1957, quando à noite, fui pegar água na geladeira da pensão onde havia acabado de me mudar.

 

Naquela época, fazia minhas refeições nos bandejões da faculdade e alugava uma vaga de quarto para morar.

 

Dividia o espaço com o meu irmão Pedro, no apartamento de um casal de judeus recém-chegados da Europa. Tinham sobrevivido à perseguição alemã na segunda Guerra Mundial, cujo tratado de paz foi assinado em 1945.

 

Passaram fome. Aprenderam a valorizar a comida a ponto de nunca desperdiçá-la, nem mesmo uma rodela de tomate.

 

Ao abrir a porta da geladeira e encontrar, sobre um pires, uma solitária folha de alface, um filme passou pela minha cabeça.

 

Lembrei da minha infância e adolescência. Da lata vazia de vinte quilos de banha de porco posta na porta da cozinha, em frente à área de serviço. E da cozinheira despejando ali as sobras do almoço e do jantar, que depois eram levadas para os chiqueiros.

 

Naquele momento, compreendi que o mundo tinha fome. E que desperdiçar comida era um privilégio indevido.

 

O fisioterapeuta deve estar chegando. Seus exercícios não fazem parte das coisas agradáveis — especialmente em uma segunda-feira.

 

Mas seguimos em frente. Amanhã será outro dia.

 

Gabriel Novis Neves

10-03-2025



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