sábado, 29 de março de 2025

LIVROS ENSINAM


Com o dia todo livre, nada melhor do que recordar coisa antigas —daquelas que nem mesmo em sebos se encontram nos dias de hoje.

 

Lembro-me dos antigos vendedores de enciclopédias.

 

Eram chamados de representantes comercias e vinham de São Paulo oferecendo seus produtos de porta em porta.

 

A mães, que conseguiam fazer uma pequena economia não pensavam duas vezes para realizar o sonho de ocupar boa parte da estante da sala com livros de capa dura, repletos dos segredos do mundo.

 

A Enciclopédia Britânica, com seus 24 volumes de grande formato, vinha com um brinde irresistível: um Atlas Gigante.

 

Hoje, nem os sebos aceitam essas doações —e, se aceitam, é com certa relutância.

 

Não posso deixar de lembrar de outros clássicos que formavam as bibliotecas da minha infância:

 

—As 13 obras de Monteiro Lobato

 

—Os 18 volumes do Tesouro da Juventude.

 

—Os 19 volumes da Enciclopédia Barsa.

 

—Os 32 volumes da História da Humanidade.

 

—Os 44 fascículos de Gênios da Pintura, da Editora Abril.

 

Ao entrar em qualquer sebo, lá estão elas, nas prateleiras mais altas, quase exigindo uma escada Magirus para serem alcançadas — coleções esquecidas, quietas, esperando por olhares curiosos.

 

É com saudade que me lembro daquela época, agora que a informação é digital, multimídia: texto, imagem, som —tudo atualizado em tempo real e disponível online.

 

Mudou para melhor, é verdade.

 

Mas havia uma alegria especial em receber os fascículos semanalmente.

 

Através deles, conhecia muitos mundos.

 

Hoje, conecto-me ao planeta inteiro pelo celular, sem ocupar um único centímetro da estante.

 

Antigamente, era bem mais difícil adquirir conhecimento em todas as áreas do saber.

 

Hoje, desde cedo, as crianças têm acesso a uma abundância de informações —e talvez por isso não existam mais ‘crianças burras’.

 

Fiz o último ano do segundo grau no Rio de Janeiro, no Colégio Anglo Americano, na Praia de Botafogo.

 

A maioria dos alunos era carioca, e muitos estudavam lá desde o ensino fundamental. O colégio pertencia a um professor português.

 

Lá todos falavam fluentemente espanhol, francês e inglês — e estavam preparados para enfrentar os vestibulares mais exigentes do país.

 

Dois colegas da minha turma passaram no vestibular mais difícil do Brasil: o do ITA — Instituto Tecnológico da Aeronáutica, em São José dos Campos.

 

Diante das dificuldades que enfrentei naquele ano, só pensava nas enciclopédias que minha mãe, com tanto esforço, comprou para me ajudar.

 

Elas não diziam tudo. Mas me diziam o suficiente para continuar sonhando.

 

Gabriel Novis Neves

23-03-2025




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