sábado, 22 de março de 2025

DOMINGO TRISTE


Hoje é domingo. Como todos os dias, acordo bem cedo.

 

Mas os domingos já amanhecem tristes.

 

Olho pela janela e vejo as ruas vazias, poucos transeuntes caminhando sem pressa.

 

Um ou outro carro desliza silencioso pelo asfalto.

 

O centro comercial dorme com suas portas cerradas. Nos prédios, um silêncio espesso protege o sono dos moradores.

 

Nas calçadas, mendigos dividem o repouso com cachorros magros, todos embalados pelo frio da indiferença. A cidade parece morta.


Os domingos carregam peculiaridades que só eles têm — e muitas delas são melancólicas.

 

Tenho a impressão de que nesse dia, muita gente prefere tomar café fora de casa.

 

Talvez seja o dia de folga da empregada, ou apenas um pretexto para sair.

 

Os clientes das padarias aos domingos não são os mesmos da semana.

 

No almoço, restaurantes, botequins e botecos transbordam de gente.

 

Poucos ainda mantêm o hábito do almoço caseiro.

 

Há os que buscam a mesa de parentes, tentando resgatar a tradição do almoço de domingo em família.

 

Outros preferem pegar a estrada para almoçar fora da cidade, enfrentando filas sob um calor de quarenta graus.

 

É preciso vocação para esse tipo de programa.

 

Depois do almoço, a cidade mergulha num torpor.

 

A tristeza se instala de vez, e me dá vontade de dormir, ainda que eu saiba que despertarei para a segunda-feira, o dia mais antipático da semana.


Por que me sinto assim em relação ao domingo? Seriam as lembranças da infância, quando ele era tão aguardado e celebrado?

 

Naqueles tempos, tudo de bom acontecia aos domingos.

 

Missa na Matriz, chá com bolo e casa cheia.

 

No almoço macarronada com galinha e de sobremesa doce de goiaba.

 

O refresco de caju e as histórias dos mais velhos completavam a festa.

 

À tarde, futebol descalço até escurecer.

 

Depois, banho no quintal, sob a água fresca do poço, e o “ajantarado” preparado por mamãe, que sempre parecia esperar uma visita de última hora.

 

Antes de dormir, um joguinho de botão no corredor da minha casa.

 

Por fim, um copo de leite, a oração noturna e o sono tranquilo. Segunda-feira, colégio.


Talvez o domingo seja melancólico porque me lembra tudo o que ficou para trás. Ou porque me lembra que a vida adulta nos roubou aqueles pequenos rituais de felicidade.

 

O domingo é tão inútil que nem para uns drinques serve — a ressaca da segunda-feira não perdoa.


Sim, o domingo é um dia triste.

 

Gabriel Novis Neves

17-03-2025





Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.