Fui convidado para um almoço às duas horas da tarde, num lugar bem distante de onde moro.
Tudo fora dos meus padrões habituais. Estou acostumado a almoçar por volta do meio-dia e logo em seguida tirar a sesta para continuar o dia fazendo o que sei: escrever.
Vivo num mundo sem pressa, respeitando meu relógio biológico — e ainda assim, preciso agradar a gregos e troianos.
Pedirei ao motorista que me leve logo após o meio-dia, para que eu possa jogar conversa fora, almoçar e, até as três da tarde no máximo, estar estregue à minha sesta, ainda que atrasada.
Afinal hoje é sábado, e o almoço é em comemoração ao aniversário da minha bisneta primogênita.
‘Jogar conversa fora’ é a versão moderna da ‘conversa fiada’ dos tempos dos meus pais, quando se passavam horas assim, sem compromisso, nas cadeiras de balanço à porta de casa.
Era assim que a cidade se comunicava, sem pressa: transeuntes e admiradores das cadeiras de balanço.
Quantas histórias e novidades conheci desses encontros.
O historiador Estevão de Mendonça jogava conversa fora da janela do seu casarão.
Lembro-me bem das vezes em que ele me chamava para uma prosa despreocupada diante do seu janelão.
Era uma conversa preguiçosa, sem hora para acabar.
Ele sabia de tudo o que havia acontecido em séculos de história — desde a dominação portuguesa até os dias de então.
E com que prazer jogava essa conversa fora.
Outro ponto preferido do nosso povo para a boa e velha conversa fiada era a porta do Bar do Bugre, de frente para as praças Alencastro e da República.
Curioso notar que quem vinha jogar conversa fora estava sempre desacompanhado.
Era uma espécie de catarse, naquele tempo em que ninguém falava de Freud ou Jung — e todos pareciam felizes, num mundo sem pressa.
O progresso acabou com esse saudável relacionamento humano.
Gabriel Novis Neves
29-03-2925
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