quinta-feira, 6 de julho de 2023

ESTAFA MENTAL


Acordei hoje mais velho, com estafa mental e dificuldade de concentração para o meu trabalho diário que é o de escrever por prazer.


A sua etiologia foi o excesso de jogos de futebol que assisti pela TV ao último final da semana, emendando com os jogos da Libertadores e Sul-Americana, na nova semana.


Tudo isso acumulado com a tensão da vitória do Botafogo contra o Palmeiras, quando o time de São Paulo desperdiçou um pênalti no final do jogo.


A emoção que senti com a bola não acertando o alvo me obrigou a pedir a minha acompanhante um lanche caprichado para mim.


Pensei até que não teria assunto, e este é o que não me falta.


O Botafogo atual é tão diferente daquele que conheci criança ainda em Cuiabá!


Agora virou empresa cujo dono é um norte-americano que nem português sabe falar.


Seu técnico era português, um ilustre desconhecido.


Seus jogadores nunca foram convocados para a seleção brasileira.


A maioria é formada por desconhecidos e muitos nunca jogaram no Maracanã.


O artilheiro folgado do brasileirão é um jogador paraibano do interior que foi jogar em Portugal.


O técnico português o trouxe para o Botafogo e Tiquinho Soares virou ídolo do meu time.


Não estendo esta crônica, pois todos sabem que os leitores do meu blog não gostam de temas sobre futebol e política.


Muito menos de saber como “se assa um porco”, apelido do Palmeiras, que é com Fogão...como é conhecido o Botafogo.


Agora, que o Bota é um time de jogadores cujos salários mensais são inferiores à de um único jogador do Palmeiras, que é o Dudu, isso é inexplicável para quem é torcedor do Botafogo desde a época das gemadas receitadas pelo Presidente Carlito Rocha.


Da mascote do clube da Estrela Solitária - um cachorro vira lata, que era o Biriba.


Do centroavante Heleno de Freitas chamado de Gilda, estrela de Hollywood pela sua beleza, elegância física e trato fino com a bola.


Do jornalista João Saldanha como técnico campeão carioca.


Do gênio Mané Garrincha, cuja estreia assisti.


Dos jogadores que emprestaram à seleção brasileira para ser tricampeã mundial (58-62-70).


Agora vamos com o Tiquinho Soares e mais dez para a conquista do Campeonato Nacional de 2023!


E a minha estafa mental terminou!


Gabriel Novis Neves

07-07-2023




quarta-feira, 5 de julho de 2023

ANOS DECISIVOS DA MINHA VIDA PRODUTIVA E LONGEVA


Hoje é dia do meu aniversário.


Estou completando oitenta e oito anos e encerrando o décimo segundo capítulo dessa breve viajem comemorando e rememorando alguns anos que foram decisivos em minha vida.


Todos os oitenta e oito anos foram decisivos para mim.


Embora possua uma bela memória para me ajudar, selecionei apenas mínimas passagens, pois não tenho formação acadêmica para ser Memorialista, como o jornalista e escritor Ruy Castro, que muito admiro.


Após o 6 de abril de 2006, com a morte da Regina, minha mulher, mãe de meus três filhos, os anos ficaram diferentes e já se foram dezessete anos.


Os anos decisivos desapareceram da minha vida.


Os anos foram se sucedendo com mais coisas boas e alguns probleminhas da idade avançada, que espero que avance mais um pouquinho.


Dos seis netos (cinco mulheres), assisti à colação de grau das cinco, e em dezembro a do último e único neto (bacharel em Direito).


São advogados, administrador e médica da sexta-geração dos médicos Novis Neves de Cuiabá.


Assisti também ao casamento de três netas em Cuiabá.


Acompanhei ao nascimento de três bisnetos em Cuiabá e outro em Portugal.


Em outubro já está marcado o casamento da minha neta Fernanda, e com certeza, no final do ano que vem da minha última neta Natalia.


Tenho ainda muita emoção programada a ser vivida e eu quero estar presente.


Vivo dias felizes por conseguir verificar que ajudei Regina a construir esta bela família, unida e impregnada de valores humanos e morais, na religião católica, todos trabalhando com ética.


Aposentado da minha profissão de médico, enquanto espero o crescimento dos netos e a chegada dos bisnetos, vou me distraindo com o “brinquedo que ganhei” do Dr. João Cunha no “Dia das Crianças”, em outubro de 2009.


É o meu blog “bar-do-bugre.blogspot.com”, onde publico as minhas crônicas diárias.


Desde que foi fundado o blog bar-do-bugre nossa equipe é a mesma, não remunerada.


Sem ela não teria condições de ter publicado no nosso jornal eletrônico mais de três mil crônicas, o que daria para imprimir trinta livros.


Escrevo e envio o texto para nossa revisora Cristina Meirelles.


Esta me devolve.


Releio e envio com a data da publicação ao nosso editor para apreciação, correção, publicação e a parte de artes gráficas, mais apreciadas que os textos.


Os comentários dos leitores, envio ao editor (Dr. João Cunha) para que ele tenha um feedback.


Minha coluna mais lida é a que publicava aos domingos – “Os Pitorescos”.


As que menos interessam e despertam atenção são sobre futebol e política, que dificilmente escrevo.


Envio pelas “Listas de transmissão” em grupos de até 250 pessoas e eu tenho três grupos de amigos.


Graças ao recebimento persistente dessas crônicas sou da “Academia Brasileira de Médicos Escritores – 1987-2023 (ABRAMES), Rio de Janeiro.


Minha paixão são as minhas duas bisnetas e dois bisnetos.


Aos sábados, quando elas têm folga, vem almoçar comigo, contam uma série de novidades e me ensinam outras.


São minha fonte permanente de inspiração e vontade de viver mais.


Hoje com certeza todos virão à tardinha cantar os “parabéns para você” e soprar as velinhas do bolo com o número 88 e furar os balões da decoração da sala.


No dia oito, sábado, virão para o almoço atrasado da festa do meu aniversário.


Gabriel Novis Neves

06-07-2023




ANOS DECISIVOS DA MINHA VIDA - A EDUCAÇÃO


Assumi a secretaria da educação e cultura do Estado de Mato Grosso em maio de 1968, e em novembro de 1969, Jarbas Passarinho, o ministério da educação e cultura até dezembro de 1974.


O cargo de secretário de educação me fez conhecido no MEC e pelo Ministro Passarinho.


Na inauguração do Centro Educacional Júlia Gonçalves Passarinho, em Corumbá, no início de 1971, o ministro compareceu à homenagem prestada a sua mãe.


Tinha povo nas ruas do aeroporto até ao novo prédio.


A solenidade foi no auditório de Centro Educacional, transbordando de alunos, professores, pais dos alunos e sociedade.


Presidindo a mesa de trabalhos, o Governador Pedrossiam, Prefeito de Corumbá, Ministro Passarinho, autoridades civis, militares, eclesiásticas e eu, Secretário Estadual de Educação.


Todos vestidos de terno e gravata e um calor sufocante.


Pedrossian iniciou os trabalhos elogiando uma verdadeira educadora brasileira de Xapuri, no Acre, que deixou o marido pequeno comerciante de seringueiros, para educar os filhos menores em Belém do Pará, na Escola Militar.


Ela não tinha renda e para sobreviver, lavava e passava roupas, motivo da sua escolha e empréstimo do seu nome para o moderno Centro Educacional.


Emocionado, o Ministro se levanta da cadeira e inicia a agradecer a todos da mesa diretora.


Ao chegar na minha vez, disse que estava em dificuldade de me citar.


Não sabia se me chamava de secretário cujo mandato terminaria em 15-03-1971, ou de futuro reitor da universidade federal!


Todos os presentes ao local se levantaram, aplaudiram e gritaram por um bom tempo: “queremos Gabriel”!


Acalmado o ambiente, satisfeito, Passarinho declara que eu seria o primeiro reitor da FUFMT.


Na saída pedi ao Ministro que só publicasse o ato da minha nomeação em 16-03-1971, já que o governo Pedrossian terminaria no dia 15-03-1971 e eu ainda tinha muito a concluir.


Permaneci à frente da implantação da universidade até 12-02-1982.


Impossível escrever em uma crônica esse período, que mereceria um livro.


Tudo que aconteceu em Cuiabá e Mato Grosso durante esses anos teve a participação da nossa FUFMT, como na divisão do Estado em 1977, dando origem ao Estado de Mato Grosso do Sul, com a capital em Campo Grande.


Naquela época eu morava na casa da rua Major Gama, no Porto.


O poeta, jornalista, político, empresário Augusto Mário Vieira, frequentador noturno da minha casa, vaticinou ser aquela casa uma das últimas casas cuiabanas que a gente tinha onde conversar.


Esse trabalho foi todo construído pela Regina, que adorava ficar em casa e receber visitas.


Era a política da família e muito respeitada e ouvida nesse meio, que eu não suportava.


Ocupei muitos cargos públicos que eram políticos, porém, nunca soube administrá-lo politicamente.


Abandonei a vida pública em 2003, tendo iniciado em 1966 e ocupado os seguintes cargos públicos estaduais, federais e privados:


Diretor de um Hospital Estadual, 1º Reitor da FUFMT, Delegado Federal Substituto do Ministério da Saúde da VIII Região, seis vezes Secretário Estadual, 1° Diretor da Faculdade de Medicina da UNIC, 1º Presidente da Academia de Medicina de MT, Presidente da Clínica Femina, Membro do IHGMT, Membro Honorário da Academia Brasileira de Médicos Escritores (ABRAMES).


Meus filhos estudaram Direito na FUFMT (Monica), Odontologia (Ricardo) na UNB e Medicina (Fernando Gabriel) na Gama e Filho, no Rio.


Casaram-se bastante jovens, com Administradores e Odontóloga.


Meus seis netos todos têm curso superior.


Não tenho nenhum filho, neto, genro ou noras, funcionários da nossa universidade ou servidores públicos.


São profissionais liberais e empresários.


Há 28 anos, por motivos de segurança, viemos morar em uma torre de apartamentos, eu e a Regina.


Há 17 anos a Regina nos deixou deste plano, e descobri um jeito de envelhecer com dignidade, que é escrevendo.


Gabriel Novis Neves

05-07-2023




terça-feira, 4 de julho de 2023

ANOS DECISIVOS DA MINHA VIDA - CRIADA A UFMT


Em 1969 a nossa casinha da Marechal Floriano não suportava mais eu, a Regina e os três filhos.


Tinha um pequeno dormitório onde não cabia outra cama, um quarto menor que só tinha lugar para dois berços.


A copa-cozinha ao lado, pequena sala de visitas, banheiro para uma pessoa e nos fundos, área de serviços e quarto da empregada, Mires, que era da Chapada e fazia os trabalhos da casa.


Durante o dia, a Regina “aloitava” com a escadinha de três filhos, e a noite quando eu voltava pra casa, ela estava cansadíssima.


Tomava banho, jantava e ia dormir me passando o “plantão” completamente extenuada.


A Monica não conseguia dormir à noite no berço.


Era só colocá-la dormindo, que ela acordava chorando sem parar.


Durante meses ela dormiu sentada no meu colo na “cadeira de balanço” que tenho até hoje.


A Monica usa essa cadeira de balanço para fazer os seus netos dormirem.


Observei na prática aquilo que estudei em psicologia médica.


O primeiro filho tem toda a afetividade dos pais.


Quando nasce o seu irmãozinho ele sente que vai ter que dividir esse espaço emocional e não aceita.


O segundo filho sabe que tem que lutar para conseguir parte desse espaço, já ocupado pelo seu primeiro irmão.


Começa a prestar atenção naquilo que seu irmãozinho mais velho faz e que preocupa seus pais, especialmente a sua mãe.


A Monica rejeitava as refeições que lhe eram oferecidas pela Regina e era magrinha.


O Ricardo logo percebeu como agradar a sua mãe e lambia os pratos das refeições e esvaziava as mamadeiras que lhe eram oferecidas e ganhou peso.


O Fernando, terceiro filho, “inventou uma diarreia crônica” que preocupava seus pais, pois seu tratamento era hospitalar (hidratação), quando recebia todas as atenções emocionais.


Meus filhos tiveram apelidos familiares e até hoje são chamados de Quinha, Caco e Neném, pela ordem cronológica dos seus nascimentos.


Em 1970 mudamos para um casarão, com quintal cheio de árvores frutíferas, na rua Marechal Deodoro, sem pavimentação, próxima à casa que morávamos.


Tinha compromisso com Pedrossian de ficar apenas dois meses como secretário de Educação do Estado.


Na semana que findava o meu prazo na SEC, irrompeu no ICLC (Instituto de Ciências e Letras de Cuiabá) uma greve dos seus três diretores.


Para não perder a sua autoridade o governador demitiu os três professores seus amigos, e pediu que eu escolhesse o novo Diretor Executivo do ICLC, terminando com o mal-estar.


Trouxe da Comarca de Dom Aquino, meu colega do Grupo Escolar e Colégio dos Padres – Atílio Ourives.


Por questão de lealdade e gratidão fiquei na SEC até o último dia do seu mandato de cinco anos de Governador do Estado.


No dia 10-12-1970, na Base Aérea da cidade de Campo Grande, o Presidente da República Garrastazu Médici e Ministro da Educação Jarbas Passarinho, assinaram o ato de criação da Fundação Universidade Federal de Mato Grosso, com sede em Cuiabá.


Presentes ao ato o Governador Pedrossian, maior protagonista dessa conquista dos estudantes e sociedade de Mato Grosso, com o seu SEC (eu) e autoridades.


À noite, com a casa já fechada, crianças dormindo, eu e Regina no dormitório prontos para dormir, ouvimos o barulho de forte foguetório e buzinar de carros em direção à minha casa.


A TV Centro América estava funcionando precariamente e tínhamos falta de notícias.


Nesse dia decolei de um mono-motor pilotado pelo Guilherme Alemão em direção a pista de pouso para aeronaves pequenas em Campo Grande.


A pista da Base Aérea estava fechada para pouso, apenas habilitada para o avião da Presidência da República.


Pedrossian chegou no dia anterior, e no horário previsto eu estava no local da solenidade, onde um sonho que se iniciou em 1808, ano da chegada da Família Real à Salvador (Bahia), iria ser transformado em realidade.


Chovia muito e queria trazer para Cuiabá uma xérox do ato de criação da FUFMT.


Entreguei ao Paulo Zaviaski, apresentador oficial do “Jornal da TV Centro América”, a cópia do ato mais importante do século XX para Cuiabá.


Começou a falação no Coreto do Jardim Alencastro reformado pelo Vuolo, com discursos de estudantes, líderes estudantis, associações de classe, povo e políticos em geral.


Todos se diziam “os pais da universidade” e, terminado o ato público de comemoração, uma enorme carreata foi até a minha casa.


Como a minha casa estava com as lâmpadas apagadas, o cachorro solto e latindo e "sem sinal de vida", a carreata prosseguiu pelas ruas de Cuiabá, com buzinaço e foguetório.


No dia seguinte os “pessimistas” diziam que já tinham vistos muitos atos criados, publicados no Diário Oficial da União e que não davam em nada.


Além do mais a nossa universidade havia sido criada em dez de dezembro e o orçamento para o próximo ano estava fechado e para funcionar, na melhor das hipóteses só em 1972.


Tinha também que resolver o problema político da nomeação do reitor, pois eram muitos os candidatos.


Comprei uma casa inacabada na rua Major Gama, no bairro do Porto, então 2º Distrito de Cuiabá.


Quando disse ao meu pai, ele me respondeu: “você vai morar na entrada do Morro do Tambor? “


Demorei três anos para concluí-la, e morei durante vinte anos no Porto.


Depois, me transferi para o apartamento onde moro, na antiga rua do Caixão.


Meus filhos se casaram jovens e eu fiquei só com a Regina.


O local no Porto não nos fornecia mais segurança e resolvemos viver enjaulados.


Gabriel Novis Neves

04-07-2023




segunda-feira, 3 de julho de 2023

ANOS DECISIVOS DA MINHA VIDA - VISANDO O FUTURO

 ANOS DECISIVOS DA MINHA VIDA


Os primeiros dias de Cuiabá e os últimos cinco meses de 1964 foram de felicidade pela chegada da Monica, apoio dos colegas mais antigos e novos e dificuldades a vencer.


Desde o início de 1965 a Regina queixava-se de enjoos matutinos.


Naquela época não tínhamos o exame laboratorial da dosagem do BHCG ou ultrassonografia para o diagnóstico precoce da gravidez, e ela ainda amamentava e não menstruava.


O exame era feito em sapos, abundantes em Cuiabá, chamado de reação de Galli Manini.


Regina estava grávida e seu parto programado para a primeira quinzena de setembro.


Ricardo nasceu de parto normal na Maternidade de Cuiabá, em 13 de setembro de 1965 pelas mãos de Clóvis Pitaluga de Moura, aumentando a felicidade e alegria da nossa casa.


Eu precisava urgente pagar os aluguéis vencidos da nossa casa, comprar um telefone fixo, um automóvel usado e um horário em consultório de um colega, e não tinha dinheiro.


Carlos Eduardo Epaminondas, meu colega desde o curso primário no Grupo Escolar da Praça Ipiranga, companheiro de quarto em pensão no Rio de Janeiro e faculdade de medicina, sabedor da minha situação se dispôs a me ajudar.


Ele me apresentou ao gerente do Banco Real, Beto, mais tarde dono da mais chique lanchonete da Presidente Vargas, o Bar do Beto.


Fiz um empréstimo bancário para comprar o aparelho telefônico e um Dauphine bastante usado, tendo como corretor o Moises, sucessor de Antônio Amaro na Santa Casa.


Era o carro mais barato que encontrei e ele funcionava como por milagre.


Vivia na oficina do Almiro Saraiva, na Prainha, e seu maior problema era o motor de arranque, entre outros.


Seu destino seria o cemitério dos carros para o desmonte e venda de algumas peças inexistentes no mercado.


O secretário de saúde era amigo do Carlos Eduardo.


Uma tarde ele me acompanhou ao gabinete do colega e lhe disse: “secretário, o Gabriel precisa trabalhar. ”


Ele me olhou e respondeu: “em Cuiabá não tem vaga para você trabalhar.”


Se quiser ir para Rosário Oeste, Alto Paraguai, Poxoréo ou outras cidades desse porte eu tenho como lhe nomear.


Isso foi em 1965, e em 1966 assumiu o Governo do Estado Pedro Pedrossian, engenheiro ferroviário filho de migrante armênio, nascido em Miranda, no sul do Estado.


Escolheu como secretário de saúde, o renomado médico cuiabano Clóvis Pitaluga de Moura com um problema urgente para resolver: o Hospital Colônia de Alienados do Coxipó da Ponte.


Clóvis me indicou ao governador como o único médico capaz de cumprir essa missão, embora não fosse um especialista, mas pelo meu perfil.


Coisas da vida: há um ano não existia vaga para mim em Cuiabá.


Agora eu era o único medico capaz de resolver esse problema da secretaria de saúde!


No início de 1966 tinha o meu salário de médico do Ministério da Saúde.


Era “bagrinho” do Clovis Pitaluga no SAMDU (Serviço de Assistência Médica Domiciliar e Urgência).


Uma vez por semana era responsável pelo plantão de 24 horas na Maternidade de Cuiabá (alcançável e não remunerado), substituindo Clóvis Pitaluga.


Em compensação ele me chamava para auxiliar em algumas das suas cirurgias, cujo valor era suficiente para vivermos durante um mês.


Também frequentava a Santa Casa e mesmo não tendo clientes, auxiliava as cirurgias dos colegas de pacientes pagantes ou não, os indigentes.


Atendia a “Portaria da Santa Casa”, que funcionava como “Pronto Atendimento” da cidade.


Ficava o final da tarde no corredor do consultório do Lotufo, no primeiro andar de um prediozinho comercial, do Urbano de Arruda, próximo à Praça Ipiranga, para atender um ou outro paciente que chegava sem médico.


Entrei em um consórcio de sessenta pessoas, para o sorteio mensal de um fusquinha zero quilômetro, administrado por Vilanova Torres, coronel Torquato e Omar Canavarros.


Fui sorteado na terceira rodada, e desde então automóvel não foi mais problema em minha casa.


Em 15-03-1966 Pedrossian tomou posse como governador do Estado de Mato Grosso e nomeou Clóvis Pitaluga de Moura secretário de saúde.


À noite no Palácio Alencastro o novo governador e senhora ofereceram o Baile de Gala da posse aos poderes constituídos e sociedade mato-grossense.


Para animar a festa foi contratado o cantor Miltinho, sucesso na época.


No outro dia à noite, para minha surpresa e da Regina, foi nos visitar Clóvis Pitaluga.


Ele foi até a minha casa para me convidar para se diretor do Hospital dos Alienados, conhecido como “Chácara dos Loucos. “


Para mim seria um péssimo negócio aceitar o convite, pois eu ia bem na medicina que escolhi para trabalhar.


Mas não podia dizer não ao Clovis, de comum acordo com a Regina.


Só o nosso sentimento de gratidão garantiu esse ato.


No dia 17 de maio de 1967 a nossa casa ficou maior com o nascimento do nosso terceiro filho na Maternidade de Cuiabá, parto cesáreo realizado por Clóvis Pitaluga, padrinho do nosso caçula – Fernando Gabriel.


Os resultados todos conhecem: mudei o nome do hospital para Adauto Botelho e demos dignidade aos doentes mentais.


A nossa gestão foi aprovada pela sociedade, e meu mandato interrompido no início de maio de 1968 para exercer o cargo de secretário de educação com a missão de implantar duas universidades.


A Federal, com sede em Cuiabá, e a Estadual em Campo Grande, ambas, inclusive, com os cursos de medicina.


Gabriel Novis Neves

03-07-2023




sábado, 1 de julho de 2023

ANOS DECISIVOS DA MINHA VIDA - FORMANDO A FAMÍLIA


Na manhã do dia 31-07-1964 estava com a Regina, e muita esperança, no Aeroporto do Galeão no Rio de Janeiro de retorno para à minha cidade natal.


A empresa aérea que escolhi para nos transportar foi a Cruzeiro do Sul, por ser a única que fazia o voo direto com um moderno avião à jato até a cidade de Campo-Grande, hoje a capital de Mato Grosso do Sul.


Lá trocamos de equipamento por um velho DC3 até Cuiabá, numa viagem bem mais agradável e rápida que aquela de março de 1953.


O aeroporto daqui já era pavimentado, e é o atual Aeroporto Internacional Marechal Rondon de Várzea Grande e Cuiabá.


Pedi ao Adélio, meu colega de plantão do Hospital Souza Aguiar, que me levasse ao Galeão.


Lá chegando, entreguei-lhe em um envelope lacrado o meu pedido de demissão de médico concursado, efetivo e estável da Guanabara.


“Se dentro de trinta dias eu não aparecer no plantão, por favor entregue o documento no setor de pessoal do hospital” - eu lhe disse emocionado.


Nunca mais tive notícias desse querido colega mineiro.


No Galeão uma multidão viajando para todas as partes do Brasil e principalmente para o exterior.


Encontrei com o meu professor de embriologia, Bruno Alípio Lobo Neto, que embarcava para um Congresso nos Estados Unidos da América.


Ele me perguntou se eu iria também.


Respondi: estou voltando para trabalhar em Cuiabá.


Ele apenas sorriu e se perdeu nas filas de embarques dos voos internacionais.


De Campo Grande para Cuiabá o avião vinha com poucos passageiros e para nossa alegria sentou-se entre nós meu professor do colégio dos padres, o Padre Pedro Cometi.


Conversou muito com a Regina, passou minhas informações a ela, disse que seríamos felizes e eu era “muito inteligente. ”


Meus pais foram ao aeroporto nos receber, e meu colega e cunhado Édio Lotufo no seu velho Citröen para ajudar a trazer as malas da mudança.


Fomos para a casinha de oitenta metros quadrados na Marechal Floriano Peixoto, rua não pavimentada, alugada de Eurico Saraiva, próxima à casa de Zulmira Canavarros, ao lado da antiga Escola Artífice Federal de Cuiabá.


Deixamos as malas fechadas.


Regina abriu apenas a que continha o enxoval, e fomos jantar com os nossos pais e irmãos na casa da rua do Campo.


Minha família era numerosa e uma das minhas irmãs namorava o bancário e radialista Paulo Zaviaski, que apresentava na Rádio a Voz d´Oeste, às nove horas da noite, o noticiário de maior audiência de Cuiabá – “O Grande Jornal Falado. “


Cuiabá ainda não possuía televisão, e antes de apresentar o programa radiofônico, ele foi à casa da minha mãe para me cumprimentar e conhecer a Regina.


Na despedida pediu a mim e a Regina que ligássemos o rádio às nove horas, o que fizemos.


Após a vinheta do programa, ele lia as manchetes do dia.


Nesse dia ele leu para que todos pudessem ouvir: “Sumidade médica chega à Cuiabá! “


Era a notícia do nosso retorno médico para exercer a profissão.


No outro dia não fui à Santa Casa, com vergonha dos colegas mais antigos, dos amigos de infância pelas ruas e da porta do bar do Bugre, centro dos fuxicos de Cuiabá.


Até hoje sinto vergonha da manchete do rádio do dia em que voltei para ficar na minha cidade natal, com menos de cem mil habitantes.


A primeira noite que dormimos em Cuiabá foi decisiva para a nossa vida matrimonial e profissional.


Regina demonstrou todo o seu amor comigo e com a cidade que escolheu para viver, ter os seus filhos, morrer e ser sepultada, há 17 anos no Cemitério da Piedade.,


Estávamos prontos para dormir e senti que ela estava com uma preocupação elegantemente contida.


Disse-lhe com muita cautela que se ela quisesse no outro dia cedo voltaríamos para o Rio, pois na pior das hipóteses tínhamos um bom emprego que garantiria nossas refeições.


Ela não me respondeu, rezou, me beijou na testa, virou-se em decúbito lateral esquerdo, por orientação do obstetra, e desligou a lâmpada do abajur da cabeceira da cama.


Eu imóvel na cama fingia dormir, sabendo que a Regina estava com dificuldade de “pegar no sono”.


No silêncio do quarto ouço o ruído de um animal voador batendo suas asas no guarda roupa e caindo no chão.


Regina imediatamente acende a luz do quarto, senta-se na cama e me pergunta se eu tinha ouvido.


Disse que não, pois dormia profundamente.


Ela me relata o acontecido e pede que eu faça uma vistoria no dormitório.


Já sabia o que tinha acontecido, e temia na nossa primeira noite em Cuiabá.


Pelas janelas do dormitório entrou uma enorme barata voadora que se chocou com o guarda roupa caindo morta no chão.


Demonstrando tranquilidade disse não ter sido nada, apenas uma barata voadora que iria jogar na lixeira da copa.


Assustada ela me pergunta: barata aqui voa?


Um mês depois, em sete de setembro de 1964, na Maternidade de Cuiabá, da rua 13 de junho, nascia de parto normal pelas mãos de Clóvis Pitaluga de Moura, minha filha Monica.


Gabriel Novis Neves

02-07-2023











ANOS DECISIVOS DA MINHA VIDA - AMIZADES PRECIOSAS


Em 1961 concluí a segunda metade do CPOR (Curso Preparatório de Oficiais da Reserva).


A primeira etapa foi realizada em 1955, quando estava no primeiro ano de medicina, e a segunda etapa depois de formado.


Fiz estágio no Ambulatório da Policlínica Central do Exército, no período da tarde, próximo ao Hospital Moncorvo Filho.


Após cumprir essa etapa recebi a carteira de 2º tenente reservista de Saúde do Exército Brasileiro, cujo prazo de validade era indeterminado.


Essa identidade foi de extrema utilidade para mim no período militar, pois ocupei importantes cargos públicos que me obrigavam a viajar muito.


Os aeroportos eram super vigiados, e mesmo possuindo uma identificação de Reitor e RG, o que valia mesmo no embarque era a carteira de militar.


Com a mudança da capital federal para Brasília muitos médicos da rede pública do Rio de Janeiro receberam incentivos do governo federal e se mudaram para lá.


Para ocupar as vagas abertas, a prefeitura do Rio de Janeiro contratou como médicos os acadêmicos de medicina que haviam passado no concurso.


Na minha época faltavam médicos no interior do Brasil e o curso tinha terminalidade.


Assim que o aluno de medicina concluía o seu curso e recebia o seu diploma, ele retornava à sua cidade natal para exercer a sua profissão de “médico generalista”, apto a cuidar de adultos e crianças.


O meu foco no período de faculdade foi ginecologia-obstetrícia, e urgências e emergências médicas.


Iniciei a minha profissão com o salário de médico da Prefeitura do Rio, que correspondia a cinco vezes ao salário de um médico do Estado de Mato Grosso.


Mais um salário de 24horas por semana da Maternidade Álvaro Dias, de Jacarepaguá, e alguma coisa da Maternidade Pro-Matre.


Permaneci nesses lugares até o retorno à minha cidade natal.


Tinha condições financeiras de permanecer mais um tempo estagiando em clínicas para ser médico do interior.


Nunca tive compromissos amorosos em Cuiabá obrigando o meu retorno imediato, e nem sérios no Rio.


Estagiei em várias clínicas onde obtive conhecimentos necessários para atender adultos e crianças.


Recusei uma bolsa de estudos do meu professor Sílvio Fraga para fazer patologia da pele, nos Estados Unidos da América do Norte, para me instalar no Rio de Janeiro.


Seria o único especialista da cidade do Rio de Janeiro, e iria ficar rico.


Mas eu precisava retornar à minha cidade natal.


Meu pai já estava velho, em situação financeira difícil, eu era seu filho primogênito e com muitos irmãos precisando de ajuda.


O namorico com a Regina, que se iniciou depois da minha formatura, virou namoro, noivado e casamento em 09-12-1963, com a presença dos meu pais.


O dinheiro ficou curto para me manter no Rio.


Todos os meus colegas de turma já estavam trabalhando e ganhando dinheiro em Cuiabá.


Aluguei uma casinha conjugada com oitenta metros quadrados e mandei a minha mudança.


O governador do Estado de Mato Grosso, solicitou ao seu colega da Guanabara minha disponibilidade sem ônus do seu governo.


Eu temia pela adaptação da minha mulher, uma jovem argentina-carioca, e esperando seu primeiro filho para quarenta dias após a nossa chegada.


Carlos Lacerda, em um despacho raivoso, fez um X na solicitação de Fernando Correa da Costa, escrevendo:


“Não! Quem não quiser trabalhar, demita-se!!!”


Em campanha para a Presidência da República pregava a interiorização dos médicos!


Desempregado, com a mudança em Cuiabá, seis meses de aluguel vencido, sem poder contar com a ajuda financeira do meu pai, por acaso encontrei o meu salvador.


Em fevereiro de 1964 estava numa enorme fila de acesso ao elevador social do prédio da avenida Rio Branco no Rio de Janeiro onde funcionava o gabinete do ministro da saúde, Wilson Fadul.


Desligado há quase doze anos da cidade, perdi muito dos meus contatos de infância, e não sabia o que eles faziam na “terrinha”.


Ouço alguém me chamar na porta do elevador privativo do ministro, e nunca poderia imaginar que fosse o Bugrinho, filho da dona Janoca, do Largo da Mandioca.


Foi logo me perguntando, pois tinha pressa: o que fazes aqui?


Respondi: hoje é dia de audiência pública e consegui, pela amizade do meu tio médico-sanitarista Oswaldo Novis com o Dr. Cláudio chefe de gabinete do ministro, uma audiência.


Relatei o drama que estava enfrentando sem ajuda de ninguém.


Ele abre a sua pasta de couro marrom clara cheia de documentos, retira um bloco de papel branco com a bandeira do PTB, e embaixo: Presidência do Partido Trabalhista Brasileiro-Diretório Estadual de Mato Grosso.


Em letras garrafais escreveu:


"Fadul, preciso dessa nomeação para Cuiabá."


Silva Freire


Subiu de elevador comigo, chegou na ampla sala de espera, cumprimentou todos os funcionários, não esperou ser chamado, passou a mão na maçaneta da porta do gabinete do ministro e ficou com ele por cerca de quinze minutos.


Na saída disse que o meu problema estava resolvido, e que não esquecesse de entregar o bilhete ao ministro Fadul.


Fui nomeado interinamente para ocupar a única vaga que havia, que era atender o ambulatório de doenças mentais em Cuiabá.


Como não pertencia a essa área, o Ministério da Saúde me ofereceu uma vaga em curso que estava iniciando para trinta psiquiatras brasileiros.


Fui o quarto colocado no exame e retornei com a Regina para Cuiabá, no dia 31-07-1964.


Pela manhã atendia no Posto de Saúde da rua 13 de junho, o ambulatório de doenças mentais do Ministério da Saúde.


Gabriel Novis Neves

01-07-2023