Onde antes se ouviam risadas e aplausos, hoje há silêncio e eco.
Mas, quando o sol se põe, parece que as sombras dos antigos espectadores ainda tomam seus lugares.
Eu tinha sete anos de idade quando foi inaugurado o Cine Teatro de Cuiabá.
Logo depois, o célebre artista Procópio Ferreira veio com sua companhia teatral encenar a peça Deus lhe pague.
Lembro-me como se fosse hoje do meu pai convidando a minha mãe para assistir à peça, de sucesso nacional.
Ela não pôde acompanhá-lo — eram quatro filhos, e o menor com pouco mais de um ano, exigia cuidados especiais.
Incentivou, porém, o meu para ir. E ele foi só.
Morávamos na rua de Baixo.
Ali, no Cine Teatro, assistíamos a filmes, peças teatrais e programas de auditório da rádio ‘A Voz do Oeste’.
Antes da construção dessa obra por Júlio Muller, existia no local um galpão com cinema.
Na ampla sala de espera, meu pai montou o seu bar, em 29 de junho de 1920.
O estabelecimento foi registrado na Junta Comercial como Bar Moderno, mas todos o chamavam de Bar do Bugre.
Lá eram servidos salgadinhos preparados por minha avó Eugênia, ajudada pelas filhas mais velhas, além de refrigerantes, cervejas, vinhos e conhaques.
Anos depois, meu pai comprou um lindo casarão na esquina da rua de Cima, com a avenida Presidente Vargas, de frente para as praças Alencastro e da República, reformando-o para funcionar como bar e sorveteria.
Depois vieram outros cinemas: o do Cháu, numa antiga garagem da Rua de Baixo; o
Cine Bandeirantes, na rua de Cima; o Cine São Luiz, no Porto; e o Cine Tropical, na rua Barão de Melgaço — o mais luxuoso de Cuiabá.
Hoje, os shoppings mantêm confortáveis salas de cinema, e a Universidade Federal inaugurou o seu teatro, com tachos no foyer, em fevereiro de 1982, apresentando Macunaíma com o elenco de Antunes Filho.
Funciona também no campus universitário, o Cine Coxiponés, sempre com excelente público.
Dos antigos, apenas o Cine Teatro Cuiabá permanece em atividade.
Outros teatros e centros de cultura surgiram como o Teatro Zulmira Canavarros, da Assembleia Legislativa de Mato Grosso.
A televisão, porém, retirou grande parte do público das antigas salas.
E quando o sol se põe, parece mesmo que as sombras dos antigos espectadores voltam a ocupar seus lugares.
Os outros não suportaram o progresso — e onde antes ecoavam risadas e aplausos, hoje restam apenas o silêncio e a memória.
Gabriel Novis Neves
11-11-2025



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