sexta-feira, 6 de maio de 2022

LA PUTARIA


Escrever sobre a Cuiabá de antigamente, os costumes do seu povo, minha família, dos pontos luminosos tão numerosos nesta fase da vida, da minha memória, me dá um enorme prazer.


Nada de coisas polêmicas que me trazem aborrecimentos.


Entretanto, não gostaria de ser visto como o todo certinho que infelizmente não sou.


Tive acertos e erros que involuntariamente cometi, e me fizeram sofrer.


Li hoje no segundo caderno de um jornal importante do Rio de Janeiro, uma crônica de Joaquim Ferreira dos Santos, sobre costumes.


Diz o cronista que leio há muito anos, que “um mês depois de fechar sua penúltima livraria, Ipanema abriu este fim de semana, na calçada em frente, a La Putaria”.


Aonde nós vamos parar com essa pouca vergonha, é a pergunta que faziam os velhos de antigamente!


Relembra que vem de um tempo em que as lojas procuravam para as suas fachadas nomes exaltativos.


“Imperatriz das Sedas”, “Rei da Voz” ou o mínimo que permitiam como o ”Príncipe”, a que “veste hoje o homem de amanhã”.


Todas essas lojas estão fechadas.


La Putaria poderia ser um clube de swing, ou loja de sex shop.


Talvez até uma boate moderninha.


Mas a nova loja de Ipanema é uma loja de doces com formato de genitália desnuda.


Meu cronista tem apenas 72 anos e sempre escreveu sobre cultura e comportamento humano.


É considerado o pai da crônica moderna, e este carioca da Vila da Penha e morador de Ipanema se assusta com o encontro dos jovens, que abandonaram o “selinho” para o beijo de língua penetrante às vezes entre três amigos ou amigas.


Foi-se o tempo do “oi”.


“O Rio de Janeiro perdeu o bom senso das convivências, e os mais cínicos defendem o nome da loja como síntese dos que nos vai pelo cotidiano”.


Nas ruas internas de Ipanema, madames em patinetes elétricas de milhares de reais e entregadores em bicicletas caindo aos pedaços, todos desprezam a mais banal das ordens urbanas e atropelam pedestres na civilização das calçadas.


“O sexo é servido na loja de doces de Ipanema, chamada de La Putaria”.


Esta crônica sintetiza para os jurássicos, o significado do modernoso, do refém de ideologias das minorias, e a revolta dos mínimos conceitos da moralidade e civilidade de um povo.


Gabriel Novis Neves

02-05-2022









QUADRO COM RETRATO


Assim que retornei à Cuiabá, ainda muito jovem, fui designado para exercer um cargo público de chefia.


Não pratiquei política estudantil no Rio de Janeiro e não pertencia a família de políticos.


Logo que assumi à direção do Hospital Colônia de Alienados, casualmente me encontrei com a viúva de um médico político.


Ele sempre ocupou cargos de destaques, sendo o último o de Secretário de Educação e Saúde de Mato Grosso.


 - “Soube que você é o novo diretor do hospital do Coxipó” -  ela me disse.


“Quando meu marido era secretário, visitava constantemente esse hospital”.


“Inclusive, ele foi homenageado com o retrato em um quadro.


Me disseram que quando mudou a política tiraram o quadro da parede.


Por acaso você o encontrou abandonado em algum canto?”  


Infelizmente não, foi a minha curta e triste resposta.


Continuou a senhora, - “no tempo em que ele era secretário, em toda cidade que ia visitar, um quadro com o retrato dele era inaugurado.


Pelo que sei agora, todos foram jogados no lixo com a alternância do poder no Velho Mato Grosso. ”


“Meu filho, - não deixe que coloquem o seu retrato no quadro, quando exercer um cargo público importante,” –concluiu ela.


Até hoje, passados mais de meio século, me lembro dessa conversa.


Quando transferi a direção do hospital (1966-1968), contrariando seus funcionários, só deixei as mudanças promovidas nele, inclusive a mudança do seu nome de Colônia de Alienados do Coxipó da Ponte, para Adauto Botelho.


O quadro com o meu retrato não foi pregado nas novas dependências do hospital para não ser jogado no lixo.


Fui ocupar o cargo de secretário de Educação do Estado.


Verifiquei que em um corredor da secretaria existiam vários quadros com retratos de antigos ocupantes do honroso cargo.


Deixei o cargo de secretário de Educação e no outro dia já era nomeado reitor protempore para implantar a FUFMT.


Estava invicto no quesito “quadro com fotografia”, quando, insistentemente, recebia telefonemas de um ex-representante comercial de medicamentos (aqueles que nos visitam no consultório distribuindo as amostras grátis).


Ele havia mudado de profissão, era então fotógrafo, e seu forte era vender o seu trabalho para o governo.


Era casado com uma cuiabana de família tradicional e tinha inúmero filhos, acho que dez.


Eu era o médico da sua esposa e fiz o parto de alguns.


Wilson fotógrafo era meu velho conhecido e tínhamos relações de amizade.


Certa ocasião, meses após ter deixado a Secretaria de Educação, ele me procurou em casa dizendo que o novo secretário tinha encomendado e pago um bom preço pelo meu retrato para o quadro de ex-secretários.


Já tirei o retrato dele, com certeza, já pensando no seu futuro, disse-me o experiente fotografo das vaidades humanas.


Pedi então que me fotografasse como estava, de calça e camisa curta.


Eu me sentei numa cadeira tendo nos fundos uma parede branca.


Se não perderam o quadro na SEC, poderão verificar como eu trabalhava (1968-1971), sendo o único que não havia me preparado para o retrato, vestindo terno escuro, camisa branca e gravata escura.


Até hoje não sei porque os retratos ditos oficiais têm que ser tirados de terno e gravata.


Tinha deixado à reitoria sem o quadro com retrato, e sendo o primeiro reitor, não haveria a galeria tradicional dos ocupantes dos cargos.


Tempos depois fui novamente procurado pelo fotógrafo Wilson em minha casa.


Queria um retrato meu, agora para a universidade.


O melhor seria que eu fosse até o seu estúdio.


Lembrei-o do retrato que tinha utilizado na Secretaria de Educação.


Disse que para a universidade seria diferente pois teria que usar a pelerine!


O retrato foi feito em minha casa com a luz solar, sem artifícios de um estúdio.


Hoje ocupa a galeria dos quadros com retratos dos ex-reitores na sala do Conselho dos Órgãos Colegiados. 


No Estado existem quadros com retratos meus atualizados (2003) nas secretarias de Educação, Saúde, Casa Civil.


Desconheço quadro com meu retrato na Secretaria do Meio Ambiente.


O Presidente da República que assinou o ato de criação da nossa universidade, foi Emílio Garrastazu Médici.


Para homenageá-lo, foi colocado um quadro com o seu retrato na sala do Conselho Diretor, atual sala dos Órgãos Colegiados da FUFMT.


Anos depois foi retirado, e ninguém ficou sabendo do seu paradeiro.


Meu pai era getulista, e demonstrou todo o seu apreço colocando um quadro com o retrato de Vargas no fundo do salão do seu bar.


Quando o ditador caiu na madrugada de 29-10-1945, na manhã seguinte meu pai retirou o quadro do salão e o guardou no seu escritório para impedir que manifestantes contra Getúlio o destruíssem.


Com a volta de Getúlio em 1950, o quadro com o retrato foi colocado no mesmo lugar.


Vinte anos depois, meu pai se aposentou pelo INPS, recebendo dois salários mínimos para viver mais doze anos, deixando esse benefício por mais de vinte anos para a minha mãe, graças a legislação trabalhista feita por Vargas.


Gabriel Novis Neves

04-05-2022





quarta-feira, 4 de maio de 2022

FAZENDA EXPERIMENTAL


Poucos comentam sobre a Fazenda Experimental do Centro de Ciências Agrárias da UFMT em Santo Antônio do Leverger.


O Centro de Ciências Agrárias (CCA) foi criado em 14-11-1974, com os cursos de Agronomia, Engenharia Florestal, Medicina Veterinária, Engenharia Agrícola, Zootecnia.


Em 1975 começaram a funcionar os cursos de Agronomia e Engenharia Florestal (no “Casarão”), e iniciada a construção do prédio de Ciências Agrárias no campus universitário, obra inaugurada em 1977 pelo ministro Eduardo Portela.


Em Santo Antônio do Leverger existia uma área de cem hectares pertencentes ao Fomento Agrícola (Ministério da Agricultura), no lugar chamado Lagoa Capão da Bica.


O CCA precisava de um local para desenvolver as suas aulas práticas, pesquisas e promoção da extensão rural, quando fomos informados pelo seu primeiro diretor dessa área.


Autorizei a diretor do CCA, – professor Helmuth Daltro que procurasse o Ministro da Agricultura Alisson Paulinelli, que conhecia nossa universidade da época do curso de tecnólogos para animais de grande porte (Bovinocultura), Administração Rural, e Cooperativismo.


Este aprovou a transferência do terreno e encaminhou para os trâmites burocráticos ao Serviço de Patrimônio da União.


Por sorte nossa a secretária havia morado em Cuiabá, era uma saudosista dos nossos hábitos culturais, sem esquecer do doce de caju em caldas que recebeu aos vidros da reitoria.


Essa área passou a pertencer à UFMT, e o Ministro da Educação Ney Braga, veio na inauguração em 16-05-1975.


A placa comemorativa do evento foi pregada em um tronco de uma árvore da Fazenda.


Foi a primeira e última vez que um Ministro de Estado visitou Santo Antônio.


O prefeito Mário Ribeiro Teixeira nos deu todo o apoio com a abertura de uma “Alameda” ligando o centro da cidade à Fazenda Experimental.


Essa “Alameda” recebeu o nome de Lynaldo Cavalcante de Albuquerque, em reconhecimento ao diretor do MEC que viabilizou com recursos financeiros, o nosso CCA.


A Câmara de Vereadores de Santo Antônio, aprovou o projeto de lei sancionado pelo prefeito, concedendo o título de cidadão de Santo Antônio, ao professor Lynaldo Cavalcante, pelos benefícios à cidade.


O nosso CCA está completando 48 anos, tendo formado excelentes profissionais que muito contribuiu e contribui para o desenvolvimento de Mato Grosso especialmente no setor do agronegócio.


Gabriel Novis Neves

03-05-2022




PRIMEIRA FORMATURA UNIFICADA DA UFMT


Como a nossa universidade foi criada em 10-12-1970, e seu reitor pro-tempore nomeado em 16-03-1971, a primeira formatura unificada da universidade com o curso de Direito e os cursos do ICLC, aconteceu em janeiro de 1972.


O Ministro da Educação presente ao ato era Jarbas Gonçalves Passarinho.


O governador de Mato-Grosso, José Fragelli.


O ex-governador, Pedro Pedrossian.


Todos os três receberam homenagens especiais.


Passarinho foi o ministro que assinou o ato de criação da UFMT com o Presidente Médici (1970-1974).


Pedro Pedrossian o governador que criou as condições necessárias para o governo federal implantar uma universidade federal aqui (1966-1971).


O governador Fragelli foi figura ímpar no primeiro ano da criação da UFMT, dando o suporte financeiro à universidade federal que não possuía orçamento próprio (1971).


O ato solene foi presidido pelo reitor-fundador Gabriel Novis Neves, que foi Secretário de Educação (1968-1971) e Reitor da UFMT (1971-1982).


Esta solenidade foi realizada no estacionamento da piscina, por absoluta falta de um lugar apropriado no campus universitário.


O local estava completamente ocupado por autoridades civis, militares, religiosas.


Ministro Jarbas Passarinho, Governador Fragelli, ex-governador Pedro Pedrossian, Reitor, Vice-Reitores, membros da administração superior, docentes, servidores, formandos, familiares e amigos dos formandos lotavam totalmente o pátio do estacionamento.


Havia a mesa dos trabalhos da colação de grau com autoridades acadêmicas e a mesa das autoridades civis, militares e religiosas.


Cadeiras para os formandos, seus padrinhos e convidados.


Uma multidão de pé.


O cerimonial deu por concluído o evento após o discurso final do Ministro da Educação.


Houve a dispersão dos presentes.


Depois, em outra semana, cada aluno comparecia à secretaria dos cursos onde assinavam seus diplomas, que depois eram assinados pelo reitor.


Aquele canudo branco que recebiam no dia da colação de grau servia apenas para as fotos de praxe.


Já em 1975, a colação de grau unificada era realizada com todo o conforto no Ginásio de Esportes com lotação para seis mil pessoas.


Era um verdadeiro show, comandado pelo nosso querido chefe do cerimonial, professor Lídio Modesto.


As partituras musicais amenizavam a ansiedade dos formandos e das famílias de viverem um sonho realizado.


Grandes oradores desfilaram pela tribuna, lembrando sempre do pensador e filósofo Eduardo Portela.


Ele defendeu a escola de samba da nossa universidade.


Temas como a divisão territorial do Estado foi assunto num momento de grande “depressão” da gente de Cuiabá e norte do Estado.


Quando um universitário, que é um brasileiro privilegiado cursando o ensino superior em universidade pública, lançou do seu bandejão um bife de carne de boi ao chão, foi lembrado no discurso do reitor.


A funcionária que tinha colocado o bife no bandejão e que ele lançou no chão, ao sair de casa não havia sequer deixado um pedaço de carne para o almoço dos seus filhos.


Com a conclusão da primeira turma de medicina (1986), seus alunos não participaram da solenidade de conclusão de formandos unificados no Ginásio de Esportes.


Esta histórica colação de grau foi realizada no Teatro da Universidade (1986).


Há muito não participo dessas solenidades e a informação que tenho é que elas são realizadas num Hotel do Coxipó, como as outras universidades fazem.


Gabriel Novis Neves

01-05-2022




segunda-feira, 2 de maio de 2022

ALGUNS COLEGAS DE FACULDADE


Eu pertencia a uma turma de medicina com muitos estudantes, pois além das 100 vagas ofertadas no vestibular, ainda tínhamos os excedentes e os bolsistas estrangeiros de todos os países sul americanos.

No primeiro ano do curso nos reuníamos em amplo anfiteatro para as aulas teóricas de histologia, embriologia, biofísica e, aula inaugural de anatomia descritiva.

Os professores se comunicavam através de microfones.

Depois, a turma era dividida em grupos menores para aulas práticas na Praia Vermelha e vários hospitais do Rio de Janeiro.

Eu era da turma da Santa Casa e praticamente não tinha contatos com os colegas do Hospital São Francisco (avenida Presidente Vargas) e São Sebastião, no Caju.

Na parte profissionalizante, quando no quinto ano prestávamos concurso para a Prefeitura, o contato entre nós ainda era menor, pois ficávamos trabalhando na imensa rede pública de Urgências e Emergências, espalhadas por todo o Rio de Janeiro.

Outros já estavam frequentando hospitais de acordo com a sua futura especialização (Pro Matre, Hospital Ortopédico, Moncorvo Filho etc.)

No nosso primeiro ano, a partir do mês de julho um grupo de cem alunos frequentavam o CPOR (Centro Preparatório de Oficiais da Reserva).

Com esse grupo surgiu novas e duradouras amizades.

O grande ponto de encontro, dos estudantes do interior e que era maioria, era o bandejão como era conhecido o restaurante universitário.

Pertenci ao chamado “baixo clero” dos estudantes vindos do interior.

Eles moravam em pensões no Catete, faziam suas refeições no bandejão ou moravam na casa do estudante nos fundos da faculdade.

O contato dos alunos do interior com seus colegas cariocas ou que moravam no Rio, era muito restrito e seletivo.

Tinha certa intimidade com alguns, como o filho do doutor Sobral Pinto, que morava nas Laranjeiras.

No segundo ano, às vezes era convidado a estudar em seu apartamento ocasião que conheci seu pai famoso.

Após a conclusão do nosso curso de medicina (1960), no início reuníamos todos os anos, sempre, no Rio.

Depois, de cinco em cinco alunos.

Me lembro muito bem de uma reunião que fizemos, para comemorar nossos vinte anos de formados.

Tinha muita gente, alegria, abraços de saudade, mas, já tive dificuldades em reconhecer alguns e algumas.

Nessas ocasiões é comum ouvir a frase, - “você se lembra de beltrano? Ou de sicrano? ”

Deixei a festa totalmente abalado.

Nestes últimos dez anos participei de umas três festas, que reuniu no máximo vinte colegas, no restaurante do Jóquei Clube.

Atualmente, mantenho contato com poucos e, não há mais condições de reunir a turma de médicos de 1960.

Alguns colegas de turma, mesmo em outro plano espiritual, como o Dito Canavarros e Marcondes Pouso Filgueira, aqui de Cuiabá, não são esquecidos por mim.

Cada qual com a sua mania, sempre estivemos juntos.

Ataliba Antônio de Oliveira Neto (Tico), foi o intelectual do nosso grupo e partiu aos trinta e dois anos.

Quando o Presidente Jânio Quadros tomou posse dia 31 de janeiro de 1961, um dos seus primeiros atos foi nomear o recém-formado médico (em 15-12-1960), para ocupar a Delegacia Federal de Saúde em Florianópolis (Santa-Catarina).

Jânio Quadros foi vizinho dos pais de Ataliba, ambos professores e, ficou amigo do esperto guri (Tico).

Por problemas de saúde, o Ataliba pediu demissão do cargo com menos de três meses da sua nomeação e, eu estava presente no dia da sua despedida em Florianópolis.

Dos três colegas que passaram no exame vestibular em primeiro lugar, minha atenção foi para o José Aldrovando.

Ele quase não participava das aulas das outras disciplinas do currículo médico.

Passava os dias, noites e até madrugadas nos laboratórios de anatomia dissecando peças anatômicas.

Logo foi convidado a ser monitor da disciplina sendo auxiliar direto do célebre professor de anatomia, doutor Cavalcante.

Incomodado com o aparente abandono das outras disciplinas, certa ocasião perguntei ao Aldrovando:

Você abandonou o curso de medicina?

Ele me respondeu dizendo:

Quero chegar na Santa Casa, e ouvir a irmãzinha dizer:

Seu paciente está anestesiado. Pode se preparar para o ato cirúrgico.

Só então iria saber o tipo de cirurgia a fazer.

No quarto ano com o professor Cavalcante, implantou a disciplina anatomia descritiva, topográfica e neurológica na faculdade de medicina de Vitória (Espírito Santo).

No final do nosso curso, todas as segundas-feiras à noite, íamos para o Instituto Médico Legal.

Ele era meu professor em técnica cirúrgica, cuja programação era feita de acordo com as peças anatômicas disponíveis.

Eu retornei à Cuiabá, e ele permaneceu fazendo cirurgia cardíaca e torácica e sabendo tudo de anatomia e técnica cirúrgica. Aposentado mora no Rio.

Meus colegas de turma achavam que eu era um estudante muito esforçado, que consegui criar universidades e faculdades de medicina em Mato Grosso.

Gabriel Novis Neves
27-04-2022



ALGUNS PROFESSORES DA FACULDADE


O curso de medicina da Praia Vermelha em 1955 era um nicho de notáveis professores.


É difícil de mensurar o que representava para um jovem do interior saber que o seu professor de Biofísica era filho de um dos mais consagrados pesquisadores brasileiros - Carlos Chagas.


Descobriu o protozoário causador da Malária, e o parasita transmissor da “Doença de Chagas”.


Não ganhou o Prêmio Nobel por ter encontrado grande oposição por parte dos médicos brasileiros, que por muitas vezes duvidaram da existência da doença e da autoria da descoberta.


Carlos Chagas Filho foi meu professor e consultor científico do Papa, tendo se ausentado por um mês das aulas para orientar cientificamente o Papa sobre o uso do DIU (Dispositivo Intra Uterino).


Thales Martins, meu professor de fisiologia foi um dos precursores da Endocrinologia Experimental, de renome internacional.


Considerado um pioneiro no campo da Fisiologia da Reprodução, sempre citado nos livros didáticos internacionais.


Quando fui seu aluno diziam que ele havia sido indicado para o Prêmio Nobel, e não venceu.


Era um pensador original e escritor.


Paulo de Carvalho, nosso catedrático em farmacologia relatou em aula sua experiência em Congresso Internacional sobre a maconha, realizada de Salvador.


Foi um dos cientistas que se ofereceu a fumar a maconha para experimentos.


Disse que não apresentou nenhum dos sintomas relacionados com a pesquisa.


Afirmou também que essa droga só produz efeitos alucinógenos e delírios naquelas personalidades predispostas (1957).


O professor de microbiologia foi o fundador do Instituto de Microbiologia na UFRJ (1950), que leva o seu nome – Paulo de Góes.


Carlos Cruz Lima, que nos ensinou semiologia médica na Santa Casa. Possuidor de invejável didática.


Clementino Fraga Filho, que empresta o seu nome ao Hospital Universitário do Fundão (RJ), foi meu professor de clínica médica.


Dr. Magalhães Gomes, estudioso em cardiopatia reumática, na Santa Casa.


Arnaldo de Morais, de ginecologia chamado pelos seus alunos de “Eunaldo de Morais”.


Dr. Ripper que trouxe para o Brasil o colposcópio, exame obrigatório em consultório de ginecologistas para diagnóstico precoce das doenças do colo uterino.


Merisa Miguez Garrido, pioneira no tratamento da infertilidade feminina no Brasil.


Professor Carlos Zanotta, mastologista do Moncorvo Filho.


Rodrigues Lima, obstetra que em 1971 veio implantar o ambulatório de planejamento familiar aqui em Cuiabá.


Deolindo Couto, professor de neurologia e fundador do Instituto de Neurologia da UFRJ.


Mariano de Andrade, professor de clínica cirúrgica na Santa Casa. 


Marcou a modernização e desenvolvimento da cirurgia experimental no Rio de Janeiro, com a criação de laboratório dedicado à Cirurgia Experimental.


Um dos grandes nomes da Cirurgia brasileira.


Abreu Fialho, foi meu professor de oftalmologia. Foi também idealizador e fundador do Banco de Córneas (1948).


Ugo Pinheiro Guimarães, professor Catedrático de Cirurgia, Patologia e Propedêutica Cirúrgica.


Inaugurou o INCA (Instituto Nacional do Câncer).


Muito elegante era pai da Cissa Guimarães.


Nise da Silveira, minha professora de psiquiatria revolucionou o tratamento psiquiátrico no Brasil.


Abandonou o eletrochoque e medicamentos psicotrópicos, pela pintura, música e artes artesanais.


Criou o Museu do Inconsciente, hoje Patrimônio da Humanidade.


A arquitetura do Museu foi obra de Oscar Niemayer e construído em Niterói.


O paraninfo dos médicos de 1960, foi o professor de anatomia patológica Floriano dos Santos Lima.


O reitor, Pedro Calmon, que disse que, “na minha universidade só se entra pelo vestibular” - frase proferida por ele quando da tentativa da invasão da faculdade de medicina por tropas do exército brasileiro em 1955.


Diretor da faculdade de medicina, Arnaldo de Moraes.


Eugênio Cavalcanti (anatomia), Bernardo Couto (neurologia), Bruninho Lobo (histologia), Haroldo Portela (ortopedista), Guilherme Serrano (obstetrícia), Sílvio Fraga (dermatologista) entre outros homenageados.


Para escrever este texto após sessenta e dois anos de formado em medicina, tive que retirar os ossos do fundo do baú da minha existência.


E fico com a pergunta: porque escolhi a medicina como profissão?


“A vida é como um anfiteatro anatômico onde vemos a hipocrisia do otimismo, tudo num montão de lama – a sociedade.


 A medicina é a profissão que me ofereceu mais encantos, porque por intermédio dela estudei este emaranhado de vasos, esta reunião de músculos, esta teia de nervos, que compõem este monte de elementos apodrecidos” (Pedro Nava).


Gabriel Novis Neves

29-04-2022




domingo, 1 de maio de 2022

PITORESCO XXIV


O 1º Presidente da República do Brasil era monárquico. Proclamou a República sem saber.


Estava no sobrado da sua casa no Centro do Rio de Janeiro, próximo a atual Praça da República, no Campo de Santana.


Foi carregado por republicanos e colocado na sela do cavalo, em estado de “grande mal asmático”.


Foi escolhido por ser herói da Guerra do Paraguai para ser nosso 1°Presidente da República Federativa do Brasil.


Depois do Marechal Deodoro da Fonseca “outras coisas” já ocuparam esse posto.


Bem antigamente, Deodoro da Fonseca quando tenente se casou em Cuiabá, com a mulher que não amava. Foi obrigado a casar com a sua cunhada, para salvar a honra da sua namorada, mulher do médico-capitão.


Na Cuiabá antiga, a guarnição do exército brasileiro tinha como sede, uma casa na rua Cândido Mariano ao lado da Igreja da Boa Morte.


Na Cuiabá antiga, morava nesse casarão frei Quirino, Pároco da Igreja da Boa Morte.


Bem antigamente, diziam que Deodoro não teve filhos por castigo Divino. Hoje, é mais lembrado como nome de rua.


Na Cuiabá antiga, o 2º Presidente da República quando tenente do exército também serviu em Cuiabá. Hoje, empresta seu nome a rua Marechal Floriano Peixoto.


Bem antigamente, “coisas” ocuparam a Presidência da República e, nem serviram para batizar nome de rua em Cuiabá.


Na Cuiabá antiga, vinha com meu motorista do Tanque do Baú, passávamos pela porta da casa do Mestre Inácio, dono de banda popular em Cuiabá, cruzávamos a rua do Coxim, e entrávamos na rua do Caixão. Ele não sabia onde eu queria ir. Respondi, para minha casa. Em que bairro? Tanto faz - Popular, Goiabeiras ou Duque de Caxias.


Bem antigamente, sinal de velhice era andar de bengalas. Hoje, quando você conheceu as pessoas que deram nomes a prédios públicos, ruas, avenidas e praças.


Na Cuiabá antiga, pé de pequi era uma árvore carregada desses frutos. Hoje, é quando você descobre um bom negócio para ganhar dinheiro.


Bem antigamente, Praça Popular era o lugar onde o povo se reunia. Hoje, é ponto de encontro de grã-finos.


Na Cuiabá antiga, andava-se de táxi. Hoje, de Uber.


Bem antigamente, comprava-se tecido para fazer vestidos na Casa Rosa. Hoje, na Casa Rosa se compram flores.


Na Cuiabá antiga, compravam-se relógios para casa. Hoje, todos têm no celular.


Bem antigamente, dois irmãos italianos instalaram os primeiros telefones em Cuiabá. Os fios telefônicos eram aéreos e seus aparelhos pretos eram de manivela com um disco numerado em seu centro.


Na Cuiabá antiga, existia uma telefonista central que era quem realmente fazia a ligação. Às vezes informava sobre o destino das pessoas procuradas. Hoje, fazemos ligações pela internet por várias operadoras de forma instantâneas.


Bem antigamente, os aposentados “batiam ponto” nos bancos, quando consultavam diariamente seus saldos bancários. Hoje, aposentados queixam da falta de distração.


Na Cuiabá antiga, domingo era chamado de “pé de cachimbo”. Hoje, de “dia morto”.


Bem antigamente, chegar à meia idade era estar próximo a morte. Hoje, meia idade é alguém realizado economicamente e considerado “bom partido”.


Na Cuiabá antiga, “bom partido” era alguém que pertencia ao “partido” do Presidente da República.


Bem antigamente, as moças que trabalhavam nos serviços de casa tinham como profissão “prendas domésticas”. Hoje, prenda é um presente, que poderá ser de uma doméstica.


Na Cuiabá antiga, mulher de malandro apanhava. Hoje, “certas socialites” procuram apanhar dos seus maridos, para procurarem a Lei Maria da Penha para receberem indenizações.


Bem antigamente, “perder a hora” era perder o horário. Hoje, é de perder a hora de fazer seu pé de meia.


Na Cuiabá antiga, quando alguém falecia dizia-se que a pessoa tinha fechado os olhos. Hoje, fechar os olhos é encobrir malfeitorias.


Bem antigamente, “casa de ferreiro o espeto é de pau”, era um ditado popular que traduzia que os médicos não sabiam tratar da saúde dos seus familiares. Hoje, continuam assim.


Na Cuiabá antiga, quando um não queria dois não brigavam. Hoje, quando um não quer o outro apanha.


Bem antigamente, dizia-se que pancada de amor não doía. Hoje, pode até matar.


Na Cuiabá antiga, trepar ao galho mais alto da mangueira para agarrar a fruta, significava trazer a fruta mais alta da árvore.


A Cuiabá antiga, é bem diferente da Cuiabá de hoje.


Gabriel Novis Neves

17-01-2022