segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

PREENCHENDO O CORAÇÃO

 

A cadeira ficou vazia na outra ponta da mesa.

 

Sempre esteve ocupada.

 

Hoje, não.

 

Preparei o café como de costume e me sentei.

 

O espaço chamou mais atenção que a ausência.

 

Cadeiras vazias falam.

 

Ou melhor — parecem falar.

 

Guardam presenças, conversas e silêncios.

 

Aprendi que certos vazios não se preenchem; apenas se respeitam.

 

Hoje vivo essa experiência.

 

Primeiro, a mesa sem uma cadeira.

 

Depois, apenas as cabeceiras.

 

Há vinte anos ocupo uma delas.

 

No início estranhei as ausências.

 

A vista procurava o que já não estava ali.

 

Com o tempo, passei a respeitar.

 

Sinto quase como invasão quando alguém se senta naquela outra ponta.

 

Não por antipatia, mas por memória.

 

A vida nos conduz por destinos que não escolhemos, e acabamos acreditando que as cadeiras falam.

 

Não falam.

 

Guardam.

 

Quem alcança a longevidade atravessa todas essas etapas e sente na alma o peso suave de cada uma.

 

A casa do velho — e ele próprio — muitos chamam de museu.

 

Cercado de lembranças.

 

Tenho móveis que atravessaram gerações.

 

São testemunhas mudas do nosso passado.

 

Tudo permanece em silêncio, ocupando um espaço de saudade.

 

Nas academias, a cadeira vazia tem número. Logo é ocupado por outro, chamado de ‘imortal’.

 

Curioso como o homem culto inventa palavras para suavizar o inevitável.

 

Na academia, morreu, perde-se a cadeira.

 

Na vida, não.

 

Há pessoas substituíveis.

 

E há as insubstituíveis.


As insubstituíveis não deixam apenas um lugar vazio à mesa.

 

Elas passam a habitar o nosso coração.

 

Suas cadeiras permanecem vazias e chamam mais atenção assim do que se estivessem ocupadas.

 

E a minha mesa de café continua com a outra extremidade calada.

 

Silenciosa.

 

Mas profundamente presente.

 

Gabriel Novis Neves

15-02-2026





domingo, 15 de fevereiro de 2026

CARNAVAIS PASSADOS


Fui buscar, no fundo da memória, a evolução do carnaval na minha cidade.

 

Minha mãe era carnavalesca.

 

Eu ainda era muito criança e guardo um retrato fantasiado de chinês, com bigodinho fino, túnica e calça comprida de seda, segurando uma sacola cheia de confetes.

 

Ao meu lado, com a mesma fantasia, minha irmã Yara.

 

Só me lembro do retrato.

 

Devia ter menos de quatro anos.

 

Minha mãe, com as amigas, participava, na segunda-feira à tarde, do Bloco dos Sujos.

 

Eram maltrapilhos mascarados de mulheres, que brincavam na Praça Alencastro até o escurecer.

 

Meu pai trabalhava os quatro dias da folia. Mesinhas reservas eram colocadas em frente ao casarão da Praça Alencastro e no calçadão da Praça da República.

 

Os salões do bar ficavam lotados, e eu, menino, observava tudo encantado.

 

Nos fundos do salão uma eletrola tocava sucessos carnavalescos.

 

Lembro-me de alguns, como Bota o Retrato do Velho, gravado por Francisco Alves — o Rei da Voz — para o carnaval de 1950.

 

Papai sorria e dizia que gostava mais da marchinha Pra Você Gostar de Mim, conhecida como TAÍ, para o carnaval de 1930.

 

Composta por Joubert de Carvalho e imortalizada na voz de Carmem Miranda.

 

Contava que se casara com a minha mãe, Irene, quatro anos depois, por causa daquela música.

 

Já crescidinho, assistia da porta da sorveteria ao desfile dos carros de corsos, com as capotas arriadas e lindas meninas cantando e dançando para alegria do povo, que lançava confetes, serpentinas e jatos de lança-perfume.

 

Nós, os Carecas foi a marchinha de sucesso de 1942.

 

Vi blocos carnavalescos dos bairros desfilarem pelos três dias de festa, sendo o mais famoso o da Turma do Morro.

 

Era formado por filhos músicos e compositores do professor André Avelino, que mantinha escola no Morro da Prainha.

 

Havia mascarados e mascaradas pelo centro de Cuiabá.

 

Desfilavam as escolas de samba, sendo muito aplaudida a de Nhozinho, do Grande Terceiro.

 

Todas eram precedidas por crianças fantasiadas de índios, com seus apitos estridentes.

 

Ala de passistas, compositores, rei, rainha, mestre sala e bateria.

 

Os bailes aconteciam nos salões do Grande Hotel e do Clube Feminino.

 

Também eram animados os bailes do Bar Colorido, de dona Maria de Umbelina, atrás da igreja do Senhor do Passos.

 

Passei onze anos distante de Cuiabá.

 

Quando retornei, o carnaval já era outro. Mudaram as músicas, mudaram os cenários, mudaram as pessoas.

 

Mas, dentro de mim, continuava a tocar aquela velha marchinha que uniu meus pais.

 

O carnaval passou.

 

A memória ficou.

 

Gabriel Novis Neves

14-02-2026






sábado, 14 de fevereiro de 2026

SINTONIA FINA


O rádio estava ligado, mas o som vinha falhando.

 

Girei o botão devagar até encontrar a estação certa.

 

Um chiado comprido… depois, a voz ficou limpa.

 

Não mexi mais.

 

Fiquei ouvindo.

 

A sintonia exige paciência.

 

Na vida, como no rádio antigo, quando se encontrava o ponto exato, evitava-se qualquer movimento brusco.

 

Bastava um toque descuidado e o chiado voltava.

 

Aprendi cedo que quase tudo depende desse cuidado delicado com os detalhes.

 

Quantos chiados o nosso corpo emite e fingimos não escutar?

 

Pequenos avisos que deixamos passar.

 

Às vezes melhoram sozinhos.

 

Outras vezes pedem atenção.

 

Encontrar o ponto certo consigo mesmo é exercício diário — e silencioso.

 

Nunca imaginei que minhas lembranças seriam matéria-prima da velhice.

 

Hoje escrevo sobre a infância na rua de Baixo, a adolescência entre mangueiras generosas, a maturidade distante e o retorno definitivo à minha cidade.

 

São estações da mesma vida, cada uma com sua frequência.

 

Lembro-me do primeiro rádio em nossa casa.

 

Para ouvir melhor, eu o inclinava no colo e ficava imóvel.

 

Não podia respirar forte.

 

Qualquer movimento traria o chiado de volta.

 

Assim escutei a final da Copa de 1950.

 

Imóvel.

 

O rádio no colo.

 

O coração na boca.

 

Perdemos o jogo.

 

Mas ganhei uma memória eterna.

 

Hoje entendo que a vida inteira temos girado botões invisíveis, procurando clareza no meio dos ruídos.

 

Nem sempre acertamos de primeira.

 

Há interferências, perdas, silêncios.

 

Mas quando encontramos nossa estação interior — essa que mistura paz e lembrança — aprendemos a não mexer mais.

 

Porque a verdadeira sabedoria não está em aumentar o volume do mundo.

 

Está em manter firme a sintonia do coração.

 

Gabriel Novis Neves

13-02-2026




sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

SILÊNCIOS PROPOSITAIS


Pode nos levar à reflexão sobre afastamentos, silêncios modernos e pessoas que somem sem despedida.

 

Com a proliferação da telefonia móvel, é raro passar um dia sem fazer ou receber ligações.

 

Mesmo assim, quase sempre há um número importante que insiste em não ser atendido.

 

E isso nos leva à reflexão.

 

Alguns afastamentos até consigo compreender. Há problemas amorosos insolúveis, relações que exigem silêncio para preservar um casamento.

 

Nesses casos, atender à ligação não é desejado — a distância parece ser a melhor escolha.

 

Esse silêncio provoca sofrimento em quem liga e também em quem não atende.

 

Fica sempre a esperança de que, um dia, a chamada seja finalmente atendida, com sucesso na conversação.

 

Uma ligação não atendida raramente é definitiva.

 

Nessas situações resta esperar.

 

A modernidade também nos impõe certos silêncios como forma de defesa, diante de golpes cada vez mais frequentes.

 

Quem nunca foi vítima de alguma falcatrua ao atender uma chamada desconhecida ou falsa?

 

Por duas vezes fui prejudicado por quadrilhas bem treinadas, que se aproveitaram da nossa boa vontade — ou ingenuidade.


Há homens e mulheres matriculados na universidade do crime, organizada e eficiente, que utilizam telefonemas com finalidade criminosa.


Hoje, com a bina, só atendo chamadas cujos números estejam entre meus favoritos.

 

O que mais dói, porém, é gente que some sem se despedir.

 

Quando é da mesma cidade, ainda se pode dar um jeito de provocar o atendimento.

 

De outra cidade ou de outro Estado, talvez até a polícia possa ajudar.

 

Gente que some sem se despedir não considero falta de educação, mas uma fuga cujos motivos desconheço.

 

Nas situações citadas, a solução mais simples costuma ser mudar o número do telefone.

 

Assim, a ligação deixa de existir e o computador passa a responder friamente: este número não existe.

 

Mas o que faz a ligação de um número — entre os meus favoritos — não ser atendida?

 

Só consigo pensar na insegurança de falar com quem está do outro lado da linha.

 

Gabriel Novis Neves

28-11-2025




quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

DENTRE AS MANIAS QUE TENHO / 🎼

 

O copo de água ficou na cabeceira a noite inteira.

 

Acordei e ele ainda estava lá, no mesmo lugar.

 

Não lembrava se havia bebido algum gole antes de dormir.

 

A água parecia limpa, parada, sem sinal de uso.

 

Apoiei o braço na cama, observei por alguns segundos e segui com a rotina.

 

Arrumei o lençol, calcei o chinelo e fui ao banheiro.

 

O copo continuou esperando, como faz todas as noites.

 

Levar um copo de água para o quarto de dormir é uma dessas manias que fui acumulando com o passar dos anos.

 

Hoje é meu companheiro inseparável.

 

Nas poucas noites em que preciso levantar, amenizo a secura dos lábios —agravada pela máscara do CPAP —com um gole breve, quase automático.

 

Lembro da minha mulher, que levava para o dormitório o copo acompanhado da garrafa térmica.

 

Dormir com o copo de água na mesinha da cama é um hábito antigo, transmitido sem ensinamento, absorvido pelas novas gerações.

 

Meus netos e bisnetos mesmo tendo uma mini geladeira no quarto, não dispensam o copo na cabeceira.

 

Segredos entre quatro paredes morrem ali, e o copo d’água, discreto, não fala.

 

Nem sei bem por que escrevo sobre isso, embora faça parte do nosso cotidiano.

 

Talvez porque nada seja mais revelador do que prestar atenção nas coisas simples da vida, aquelas que atravessam o tempo sem pedir explicações.

 

Conversando com um contemporâneo, ele me contou que anotava mudanças trazidas pela modernidade.

 

Citou os antigos comerciantes da minha infância.

 

Quem vendia alimentos tinha venda, depois armazém, mercado, supermercado, atacadista.

 

Chamavam-se comerciantes.

 

Hoje, são empresários.

 

Meu pai, durante cinquenta anos, foi proprietário do Bar Moderno e sempre foi comerciante.

 

Hoje, sem dúvida, seria chamado de empresário.

 

Em quase tudo houve mudança de nome, de forma, de ritmo.

 

Mas o copo de água na cabeceira permanece.

 

Simples, silencioso, fiel.

 

Talvez porque algumas necessidades não envelhecem.

 

E certos hábitos, quando são de cuidado, não precisam ser modernizados.

 

Gabriel Novis Neves

23-01-2025


Com Tônia Carrero
 Inauguração do Teatro da UFMT




quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

SAPATOS NA PORTA


Tirei os sapatos assim que entrei.

 

Deixei os dois alinhados perto da porta, com a ponta voltada para fora.

 

Sempre faço isso sem pensar.

 

O chão estava frio.

 

Caminhei pela casa de chinelos, resolvendo pequenas coisas.

 

Os sapatos ficaram ali, esperando a próxima saída, sem pressa, sem incômodo.

 

Era um costume antigo deixar os sapatos na porta da rua para não sujar os ladrilhos do chão, sempre limpos e brilhantes.

 

Eles eram varridos com vassouras de pelos e depois ganhavam brilho com a passagem de panos úmidos presos em cabos de vassoura.

 

Alguns ainda passavam cera para aumentar o lustro, embora escorregasse e oferecesse risco de queda, motivo pelo qual acabou sendo pouco usada.

 

O cuidado com a limpeza era tamanho que, mal a visita entrava, atrás vinha a limpadora, pano úmido em mãos, apagando marcas e poeiras deixadas pelos sapatos alheios.

 

Os ladrilhos hidráulicos brilhavam, fabricados ali mesmo, na rua Nova, assim como azulejos usados nos banheiros.

 

Havia orgulho no chão bem cuidado.

 

Antigamente, muitas crianças e idosos caminhavam descalços para poupar os sapatos engraxados, reservados para ocasiões especiais.

 

Várias casas tinham tapetes próprios na entrada, sinal claro que dali para dentro o cuidado era outro.

 

Meus colegas do Colégio dos Padres, moradores do Coxipó da Ponte, vinham a pé, trazendo os sapatos nas mãos.

 

Na entrada do colégio havia uma torneira onde lavavam os pés empoeirados e os secavam numa toalha feita de saco de feijão estendida no chão.

 

Cuiabá tinha poucas ruas pavimentadas e o principal meio de transporte era o próprio corpo, em caminhada lenta.

 

Em casa, ficávamos descalços ou de chinelos.

 

Os sapatos aguardavam na porta.

 

Fazemos certas coisas na vida sem lembrar quem nos ensinou.

 

São gestos que permanecem, silenciosos, como os sapatos alinhados, esperando a próxima saída.

 

Gabriel Novis Neves

04-02-2026




terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

RELÓGIO PARADO NÃO ADIANTA


O relógio da parede do meu apartamento estava parado.

 

Percebi quando olhei as horas e algo não bateu.

 

Os ponteiros não tinham mudado.

 

Fiquei observando por alguns segundos.

 

Não troquei a pilha.

 

Ele continuou ali, marcando um horário que já não existia mais.

 

Segui o dia sem corrigi-lo.

 

Na vida, às vezes imitamos o relógio sem pilha.

 

Paramos de viver quando a família deixa de nos visitar.

 

Ficamos em casa falando conosco mesmos.

 

É quando precisamos nos reinventar para prosseguir, descobrindo uma maneira de não sermos apenas um adorno no velho duplex.

 

Há vinte anos, inventei de escrever pequenos textos marcantes do meu passado.

 

Foi como trocar a pilha do meu envelhecimento.

 

Dizem que recordar é viver, e eu garanto ser a mais pura verdade.

 

Fico pensando que a minha geração, chamada de ferro, já passou.

 

Hoje observo meus netos e bisnetos crescerem em outro tempo.

 

Os futurólogos apelidaram a atual de ‘geração cristal’.

 

Os valores éticos da minha geração já não existem como antes.

 

As antigas revistas encontradas nas salas de espera dos consultórios foram substituídas pelas mídias sociais dos celulares, exibindo excessos, banalizando o corpo e confundindo limites.

 

A oferta é feita sem controle, desgastando lentamente a fibra social dos bons costumes.

 

A sociedade que conheci já não existe mais.

 

A pilha do tempo foi trocada por outra semelhante, mas falsificada.

 

Como dói escrever sobre esses assuntos —eles me revoltam e me fazem mal.

 

Tomo um gole de água gelada do copo ao meu lado, tentando esfriar a mente aquecida pelas lembranças da sociedade que vi nascer.

 

O telefone toca.

 

Talvez me faça bem, desviando a atenção desse problema tão sério que é cuidar das crianças desta nação!

 

Não podemos deixar parado o relógio do tempo.

 

É preciso trocar as pilhas, antes que ele pare de vez — ignorando que o tempo, indiferente a nós, continua andando.

 

Gabriel Novis Neves

26-01-2026




segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

RESISTÊNCIAS SUTIS


A gaveta emperrou logo cedo.

 

Puxei com cuidado.

 

Ela resistiu.

 

Tentei de novo, um pouco mais forte, e só então cedeu.

 

Nada estava fora do lugar.

 

Talheres alinhados, panos dobrados, tudo como sempre.

 

Fiquei alguns segundos parado, olhando para aquele pequeno esforço desnecessário.

 

Há coisas que funcionam a vida inteira e, sem aviso, começam a pedir mais paciência.

 

Recentemente fui obrigado a trocar o armário do banheiro.

 

O trabalho foi tão bem-feito que agora não preciso fazer esforço algum para abrir ou fechar as gavetas.

 

O antigo exigia força, quase um tranco.

 

Passei a observar em mim o mesmo processo. Tenho aprendido a ter paciência para caminhar, mesmo dentro de casa.

 

De andarilho pelas calçadas da cidade, passei a contar passos curtos entre um cômodo e outro.

 

O pior é que eles doem e exigem, quase sempre, um braço amigo.

 

A velhice precisa ser compreendida.

 

Sem essa compreensão, ela facilmente se transforma em doença.

 

No meu caso, não chegou de repente.

 

Veio insidiosa, pedindo pequenos esforços quase imperceptíveis.

 

O acúmulo deles me obrigou a fazer movimentos antes desnecessários, levando-me a me reinventar para continuar.

 

Se a parte intelectual segue invejável, não posso dizer o mesmo de outras áreas do meu organismo.

 

Algumas gavetas do meu corpo já não funcionam nem com esforço ou tranco.

 

E não conheço técnico habilitado para esse tipo de conserto.

 

São órgãos que ficaram enferrujados com o tempo.

 

Resta, então, muita paciência para esse finzinho de vida.

 

Procuro compensar o desgaste das dobradiças do meu organismo me apegando aos filhos, netos e bisnetos.

 

Quando estou agarrado a eles — especialmente aos bisnetos — o tempo deixa de ter pressa.  Ouço com calma, sorrio sem economia e esqueço as pequenas limitações.

 

Assim, deixo de perder paciência com esforços que um dia foram desnecessários e passo a valorizar aquilo que ainda abre fácil: o afeto.

 

Gabriel Novis Neves

06-02-2026




domingo, 8 de fevereiro de 2026

PEQUENAS MUDANÇAS


Arrastei a cadeira alguns centímetros.

 

Não foi por necessidade, apenas por conforto.

 

O barulho foi curto, seco.

 

Sentei novamente e testei a posição.

 

Ficou melhor assim.

 

A mesa continuou a mesma, o ambiente também.

 

Às vezes, um ajuste simples resolve o resto do dia.

 

Quantas vezes, no decorrer da nossa existência, pequenos ajustes melhoraram a nossa vida?

 

Escrevendo, então, esses ajustes são quase necessários.

 

Redijo meus textos com atenção, e deixo-os ‘esfriar’.

 

Na revisão, quase sempre faço adequações.

 

São simples arranjos que os tornam mais musicais, tornando a leitura mais agradável.

 

Um ponto de exclamação pode mudar o ritmo do texto.

 

E é tão simples!

 

Trabalho para entregar ao leitor do Bar do Bugre um produto o mais agradável possível.

 

Para isso, conto com o auxílio de uma experiente revisora e com o formato final do editor.

 

Ambos têm total autonomia para as adequações e até alteração do título da crônica.

 

Quase sempre acho que ficou melhor assim.

 

A vaidade não permite essa experiência de ajustar a pequena posição de uma cadeira, ou de adequar uma curta frase ou título de uma crônica.

 

Essa rigidez de posição é contrária à experiência.

 

Sempre trabalhei com pessoas inexperientes, que se aconselhavam com as experientes.

 

Escrevo o que fiz.

 

Em todos os cargos públicos que ocupei na minha vida, eu não tinha experiência prévia para ocupá-los.

 

Procurei, então, convidar os melhores para me ajudar.

 

Foi assim que conseguimos implantar uma universidade moderna, em pleno Centro-Oeste, nos anos setenta, quando as dificuldades eram enormes.

 

Tenho certeza de que muitos dos meus escolhidos não seriam aceitos hoje, nem eu mesmo, por não possuir doutorado e eles curso superior.

 

Um jornalista me pergunto se hoje eu exerceria o cargo de reitor.

 

Disse que não, por não possuir pós-graduação e poder contratar sábios sem curso superior.

 

Meu professor de Medicina, Pedro Nava, definia a experiência como dois faróis de automóvel virados para trás: só iluminavam o passado.

 

Gabriel Novis Neves

06-02-2026




sábado, 7 de fevereiro de 2026

INCÔMODO SILÊNCIO

 

O telefone ficou em silêncio a manhã inteira.

 

Passei perto algumas vezes, olhei a tela apagada e segui adiante.

 

Nenhuma chamada, nenhuma mensagem.

 

O aparelho permaneceu ali, imóvel, enquanto o dia corria do mesmo jeito.

 

Almocei, caminhei pela casa e só no fim da tarde percebi que ele continuava exatamente como estava.

 

Senti, então, que estava aposentado como médico e velho também.

 

Por mais de meio século, o telefone foi para mim um importante instrumento de trabalho.

 

Como médico parteiro, ele me chamava o dia todo.

 

Também era por ele que se organizava minha intensa vida social.

 

Hoje, permanece mudo quase o tempo inteiro.

 

Como dizia minha mãe, Irene: ‘eu morri para o mundo’.

 

As pessoas na plenitude da vida profissional não têm tempo de atender telefone.

 

Essa função fica para os secretários.

 

Raramente falam com subordinados, a não ser quando o assunto lhes interessa.

 

Quando uma autoridade atende pessoalmente, sentimo-nos homenageados, de tão raro que é.

 

Hoje, meu telefone fica em silêncio quase o dia todo, fazendo-me companhia enquanto escrevo.

 

A cuidadora só fala comigo quando pergunto, e acho melhor assim.

 

Como a vida dá voltas em todos os setores da nossa existência!

 

Faço uma regressão aos meus primeiros anos e, como num filme, chego aos dias atuais.

 

Tudo passou rápido como um sopro.

 

E o que passou, passou.

 

O telefone continua mudo, agora me incomodando.

 

Como seria bom se ele tocasse!

 

O seu ruído seria entendido como coisa nova, sinal de alguém interessado em conversar comigo.

 

É só depois que perdemos os chamados do telefone, que passamos a valorizar o antigamente.

 

Geralmente é assim: damos mais valor ao que perdemos.

 

As perdas são sempre supervalorizadas.

 

Gostaria de terminar este texto com o meu telefone, hoje mudo, chamando sem parar.

 

Gabriel Novis Neves

04-02-2026



sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

LUZES ACESAS


A luz da sala ficou acesa sem necessidade.

 

Só percebi quando o sol já estava alto.

 

Fui até o interruptor e desliguei.

 

A claridade entrou pela janela sem pedir licença.

 

A casa mudou de tom.

 

Voltei para a cadeira e continuei sentado.

 

Às vezes, pequenos descuidos fazem parte da rotina e acabam pesando no bolso.

 

Outros, atingem diretamente a saúde.

 

Hoje acordei mais cedo para que a cuidadora me aplicasse a injeção semanal de controle da diabete.

 

Aproveitei também para completar a lista dos medicamentos de uso mensal.

 

Graças a esses cuidados, minha saúde está em ordem, segundo os últimos exames laboratoriais.

 

Quem administra a própria casa, como eu, sabe muito bem o que representa esquecer uma lâmpada acesa durante o dia.

 

Para as finanças pesa.

 

Os antigos eram mais atentos a essas pequenas coisas.

 

Até hoje ouço minha mãe, em voz alta, chamando a atenção para a torneira do tanque da área de serviço, transbordando água.

 

Completava sempre:

 

—Isso é dinheiro e não pode ser desperdiçado.

 

Bem mais tarde, já como secretário de Educação do Estado, em 1968, tomei conhecimento da existência de um curso universitário de Economia Doméstica.

 

A primeira cuiabana formada nesse curso, em Minas Gerais, eu a contratei.

 

Depois, levei-a para a recém-criada Universidade Federal de Mato Grosso, onde prestou relevantes serviços até a sua aposentadoria.

 

Em nome da ideologia do não desperdício, grandes obras foram realizadas.

 

O cuidado era tamanho que eu mesmo, pela manhã, percorria as salas desligando interruptores esquecidos.

 

À noite, porém, o câmpus permanecia iluminado.

 

As lâmpadas dos postes ficavam acesas.

 

Beleza também tem seu preço.

 

Como era bonito passear à noite pelo câmpus e contemplar seus oitenta hectares iluminados, mesmo gastando dinheiro.

 

Mas beleza tem preço, não é?

 

Gabriel Novis Neves

05-02-2026




quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

COISAS FUNCIONAM DE SEU JEITO


A caneta não escreveu logo de primeira.

 

Risquei o papel algumas vezes até a tinta sair.

 

Depois, funcionou normalmente.

 

Continuei escrevendo sem trocá-la.

 

A letra saiu igual às outras.

 

A caneta ficou ali, ao lado do papel, pronta para o restante do texto.

 

A vida é assim.

 

Algumas conquistas exigem insistência.

 

Outras, por mais que tentemos, não se realizam.

 

Hoje, a cuidadora chegou para trabalhar e deixou o carro desligado na garagem do edifício.

 

Tomou o café com calma e depois desceu para dar partida.

 

A bateria respondeu, poupando-a de trocar uma bateria já com quatro anos de uso.

 

Como não tenho carro há mais de dez anos, nem sei mais dirigir os modelos modernos.

 

Antigamente, em situações como essa, recorríamos à famosa ‘chupetinha’, hoje desaconselhada.

 

Quem usa celular sabe: quando algo falha, basta desligar, esperar um pouco e ligar novamente.

 

Como num passe de mágica, tudo volta a funcionar.

 

Quem me socorre com os problemas do notebook e do celular é o fisioterapeuta que me atende em casa, duas vezes por semana.

 

O fato é que esses apetrechos, impostos pelos tempos modernos, passaram a fazer parte do nosso cotidiano.

 

O problema maior é para nós, idosos.

 

As crianças, ao contrário, já convivem com a tecnologia desde os berçários das maternidades.

 

Fiquei surpreso com a atitude da minha filha, que perdeu o celular e passou a usar o da própria neta — minha bisneta de apenas dois anos.

 

Trouxe o primeiro computador IBM 11.30 para a UFMT, em 1974.

 

Foi necessário construir um laboratório com pé-direito alto e refrigeração intensa para que ele funcionasse.

 

Quando visitava o laboratório na Cidade Universitária do Coxipó, entrava de casaco e saía com dor de garganta.

 

Hoje, a caneta da crônica continua do mesmo tamanho.

 

E o computador cabe na palma da minha mão.

 

Gabriel Novis Neves

27-01-2026