segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

TODO CUIDADO É POUCO


Separei a camisa cedo, ainda com o dia clareando.

 

Não estava amassada, mas também não estava perfeita.

 

Decidi usá-la assim mesmo.

 

Abotoei com calma, olhando no espelho sem muita exigência.

 

Lembrei que, por muitos anos, sair de casa exigia roupa passada, sapato limpo e cinto alinhado.

 

Havia um ritual.

 

Uma atenção aos detalhes que hoje parece exagero, mas que fazia parte da rotina.

 

Hoje a camisa cumpre sua função.

 

Não reclama.

 

Não exige ferro quente nem pressa.

 

Caminhei até a sala, peguei os óculos e segui com o dia sem ajustar mais nada.

 

Com os anos passando fiquei menos rigoroso comigo.

 

Não é relaxamento.

 

É um cansaço manso, desses que chegam sem alarde.

 

Deixamos de fazer a barba todos os dias, de engraxar os sapatos antes de sair, de procurar defeitos no espelho.

 

E, sem perceber, estendemos essa falta de cuidado ao corpo.

 

Adiamos consultas, pulamos exames, deixamos o médico para depois.

 

É assim que, de maneira silenciosa, a doença se aproxima.

 

Às vezes chega como uma pneumonia quase sem sintomas.

 

Outras, como a necessidade de trocar uma prótese antiga, esquecida no tempo em que cuidávamos melhor de nós.  

 

Não é apenas a camisa amassada que denuncia o envelhecimento.

 

É a atenção que vai faltando.

 

O zelo que se perde aos poucos.

 

Sabemos que pequenos cuidados fazem diferença para a saúde física e mental.

 

Assim como as camisas sofrem com o uso, o organismo também se desgasta — às vezes cedo demais.

 

A tecnologia criou tecidos que não amassam e cirurgias que salvam vidas ainda no berço.

 

Mas nenhuma inovação substituiu o gesto simples de cuidar de si.

 

Passar a camisa é detalhe.

 

Passar por si mesmo, com atenção, é necessidade.

 

Gabriel Novis Neves

01-02-2026




domingo, 1 de fevereiro de 2026

CULTIVANDO AFETOS


Resolvi regar as plantas antes do horário.

 

A terra ainda estava úmida, mas molhei assim mesmo.

 

A água escorreu devagar pelo vaso.

 

Observei por alguns segundos e segui para a próxima.

 

O verde continuou igual.

 

Guardei a mangueira no lugar e lavei as mãos.

 

Pequenos cuidados ocupam bem o tempo.

 

O jardim do terraço do meu apartamento é muito bonito, com suas flores e verdes, que todas as manhãs, ao compartilhar minha crônica, costumo acompanhá-la com a foto de uma rosa colhida ali mesmo.

 

Alguns leitores já manifestaram o desejo de conhecê-lo.

 

Meus filhos gostam da companhia de animais de pequeno porte em casa.

 

Eu prefiro as flores, que não latem, apenas pedem cuidado.

 

Tive a sorte de contar com uma cozinheira apaixonada pelo jardim.

 

Ela cuida dele, fotografa-o para o meu blog e chama o paisagista quando a manutenção se faz necessária.

 

Com as chuvas, as plantas agradecem, devolvendo beleza em cada canto.

 

Tive vários tipos de jardins no terraço do meu duplex.

 

Antigamente, ele dividia espaço com a piscina, muito apreciada por minha mulher, filhos e netos.

 

Os canteiros de terra preta tinham contornos irregulares, marcados por pedrinhas do rio Coxipó.

 

A pérgola era coberta por trepadeiras de flores amarelas, tão comuns em nossa região.

 

Paguei caro a um arquiteto-paisagista para projetar e executar aquele espaço.

 

Bastou a primeira chuva para a água descer pela escada e inundar a sala de visitas.

 

Vieram então novos modelos, pensados por mim, até chegar ao atual: sem piscina, com mais espaço para o jardim, agora pleno de trepadeiras, árvores frutíferas, folhas ornamentais e flores.

 

Herdei essa paixão pelos jardins do meu bisavô paterno, que construiu o primeiro jardim público de Cuiabá, a Praça Alencastro.

 

Por onde passei, deixei um jardim com árvores frondosas — sendo o maior de todos a transformação do cerrado na arborizada Cidade Universitária do Coxipó da Ponte.

 

Talvez por isso eu regue as plantas antes da hora.

 

Não por necessidade, mas por afeto.

 

Gabriel Novis Neves

30-01-2026