sexta-feira, 4 de abril de 2025

DOM AQUINO CORRÊA


Nasceu numa chácara à beira do rio Cuiabá, em 2 de abril de 1885. Dono de inteligência invulgar, foi aluno do Liceu São Gonçalo. Desde menino, deliciava-se com os segredos da bela Língua Portuguesa.

 

Com 19 anos seguiu para a Universidade Gregoriana de Roma, onde se doutorou em Filosofia e Teologia.

 

Aí se ordenou sacerdote. Depois, regressou ao Brasil.

 

Também num 2 de abril — aos 29 anos — foi alçado ao episcopado, sendo mais tarde nomeado arcebispo.

 

Famoso por seus sermões brilhava por onde passava.

 

Lançou, então, seu nome à seleta Academia Brasileira de Letras.

 

O Chiquinho da Rua Nova, aquele do esquecido e tão distante Mato Grosso, venceu o pleito.

 

Bem ele, que viera dos sertões de sol e de flores.

 

Um portento! É de se destacar o fato de ter sido governador de seu Estado natal.

 

Coube a ele fundar a prestigiada Academia Mato-Grossense de Letras.

 

Poeta primoroso, orador de escol, foi autor de livros que hão de eternizar seu nome.

 

Sua despedida se deu em 22 de março de 1956.

 

Isso orfanou não só Cuiabá — sua mimosa flor do sertão —, mas o Estado de Mato Grosso, que tanto amou, e que teve nele, é certo, o autor da página mais linda de sua história.

 

Dom Aquino foi o pastor que seduziu ao caminho do Senhor o seu vasto rebanho.

 

Praticou a catequese com devoção, servindo de exemplo a muitos jovens que seguiram a vida sacerdotal, oferecendo-lhes sólidos ensinamentos em Teologia, Filosofia e Letras.

 

Antes de viajar para estudar Medicina no Rio de Janeiro, fui ao Seminário onde Dom Aquino morava para ser recebido em audiência pública.

 

Comuniquei-lhe minha intenção de ser crismado por ele e seguir a carreira médica.

 

Ele acolheu meu pedido e me crismou naquele domingo à tarde.

 

Fez-me uma única pergunta:

 

— Você vai ser médico do corpo ou da alma?

 

— Do corpo e da alma —  foi a minha resposta.

 

Tive grande convivência religiosa com Dom Aquino Corrêa, sendo seu auxiliar como coroinha nos grandes eventos da Catedral: Missa do Natal, Ano Novo, Semana Santa, Corpus Christi, Imaculada Conceição.

 

Muito jovem nos deixou, sendo uma das três maiores personalidades de nossa história.

 

Esta crônica foi escrita com a participação do Prof. Germano Aleixo Filho.

 

Gabriel Novis Neves

02-04-2025







quinta-feira, 3 de abril de 2025

SEXTA-FEIRA


De todos os dias da semana, a sexta-feira é o dia mais simpático. Todos a chamam pelo apelido carinhoso de —sextou!

 

Dá a falsa impressão de que se inicia um tríduo de descanso.

 

É o esquecimento da dieta, quando tudo é permitido — inclusive fazer um empréstimo bancário para, com os amigos, saborear uma picanha na brasa, com vinagrete, acompanhada de uma bem gelada.

 

O sonho de tirar o domingo para uma pescaria no Pantanal, sempre rico em peixes dos mais variados.

 

Logo chega a noite de domingo e, quem gosta, assiste aos gols do Fantástico.

 

É hora de dormir — e ninguém descansou. O tempo passou rápido, e já estamos planejando descansar na próxima semana.

 

E assim se vão as semanas, os meses, os anos.

 

Nosso calendário favorece as sextas-feiras. Durante o ano, temos várias sextas ‘fixas’ em semanas de comemorações.

 

Qualquer feriado no meio da semana é um convite a um arrastão de folgas, sempre puxando a sexta-feira pelo braço.

 

Dizem que o número de pessoas que, nas segundas-feiras se apresentam ao trabalho com atestados médicos de cinco dias — datados de quarta — é enorme.

 

Ricos e pobres, cada qual à sua maneira, celebram o sextou.

 

É uma doce ilusão que se renova toda semana.

 

E o que seria de nós, se não tivéssemos motivos para comemorar diariamente?

 

O aniversário de um familiar ou amigo, a aprovação em um concurso, a compra de um carro novo, as bodas que conquistamos com o passar dos anos...

 

Hoje é mais uma crônica que publico no blog Bar do Bugre. Um marco a ser lembrado por mim.

 

Memes divertidíssimos povoam as redes com o tema sextou, no ‘Dia Internacional da Cerveja’ ou mesmo da faxina.

 

Sexta-feira também é o dia da renovação, quando tudo parece felicidade.

 

Pena que, numa semana, só exista uma sexta —arrastando consigo o sábado e o domingo.

 

Acho que a sexta tem um charme que outros dias não têm.

 

Sextou para a minha crônica — e vou descansar do computador.

 

Gabriel Novis Neves

21-03-2025




quarta-feira, 2 de abril de 2025

PLANTÃO DE 31 DE MARÇO DE 1964


Hoje ao postar uma crônica percebi que ontem foi uma data histórica muito importante na minha vida.

 

Conclui o curso de Medicina em 15 de dezembro de 1960 na Faculdade Nacional de Medicina da Universidade do Brasil, com a cerimônia realizada no Teatro Municipal do Rio de Janeiro.

 

Na época havia sido aprovado em concurso para acadêmico de Medicina da Prefeitura do Rio de Janeiro.

 

Com a mudança da capital para Brasília, os antigos acadêmicos foram aproveitados como médicos concursados do Estado.

 

Permaneci no Hospital e Pronto-Socorro Municipal Souza Aguiar — o maior do Brasil e da América Latina.

 

Continuei na Equipe Cata Preta. Seu chefe era o doutor Otávio Barbosa e o vice Paulo Ferreira.

 

Nossa equipe contava com cirurgiões gerais, neurocirurgião, angiologista, ortopedista e traumatologista, otorrino, oftalmologista, radiologista, pediatra, clínicos gerais, ginecologistas, obstetras, especialistas em análises clínicas, intensivistas e anestesistas.

 

O diretor-geral do hospital era o médico Brito Cunha.

 

O horário do nosso plantão, era o seguinte: às terças-feiras, das 14h às 20 h; às quintas das 20h até às 8h da manhã seguinte; domingos alternados das 8h às 20h.

 

O dia 31 de março de 1964 caiu numa terça-feira —dia do meu plantão.

 

No vestiário, durante a troca da roupa pelo uniforme branco, pouco antes das 14 h um tumulto tomou conta do local.

 

Algo grave estava para acontecer. Os colegas que encerravam o plantão desejavam boa sorte aos que entravam.

 

Como de costume fomos até a cantina do hospital tomar o cafezinho.

 

De repente uma voz grave soou pelos alto-falantes convocando os médicos Augusto Paulino Neto e Gabriel Novis Neves a comparecerem com urgência ao gabinete do diretor Brito Cunha.

 

Este nos recebeu com uma metralhadora no peito, uma estação de rádio clandestina no gabinete, e foi direto ao ponto:

 

—Estamos montando um hospital de campanha dentro do Palácio Guanabara onde está o governador Carlos Lacerda. Vocês foram escolhidos por méritos pessoais.

 

Preparamos uma ambulância disfarçada da Cruz Vermelha Internacional. Vocês irão deitados para evitar detenções. No Palácio serão levados diretamente para prestar atendimento médico ao governador.

 

Lacerda nos recebeu cercado por duas metralhadoras.

 

Participei de um dos momentos mais delicados da história recente do Brasil.

 

Sou talvez o único sobrevivente desse episódio que a história jamais registrou.

 

Gabriel Novis Neves

01-04-2025


Carlos Lacerda com a metralhadora sobre mesa





terça-feira, 1 de abril de 2025

O RÁDIO COMO COMPANHIA


Em Cuiabá a primeira estação de rádio foi fundada pelo professor Jercy Jacob, em uma sala de sua casa na rua do Campo.

 

A PRH3-ZYZ5 Rádio A Voz do Oeste, operava em ondas curtas, mal alcançando o Coxipó da Ponte.

 

Havia radioamadores, que se comunicavam com os fazendeiros da região, prestando socorro e orientação.

 

Esses radioamadores transmitiam pela manhã e à noite, prestando relevantes serviços à sociedade.

 

O rádio fazia companhia — era a voz amiga. E ainda é, para muitos.

 

Mesmo com a chegada da televisão, a audiência das rádios continua imensa, fazendo-se presente, sobretudo, na vida do homem do campo e dos madrugadores.

 

Foi a grande escola dos comunicadores, muitos dos quais migraram para o jornalismo impresso e televisivo.

 

A grande universidade do rádio foi a Rádio Nacional, do Rio de Janeiro, numa época em que ainda não se ensinava jornalismo nas faculdades brasileiras.

 

Dela surgiram jornalistas, locutores, atores.

 

A Voz do Oeste foi a nossa pioneira. Hoje, não sei quantas emissoras de rádio existem em Cuiabá.

 

Seus primeiros profissionais produziam programas caipiras, hoje sertanejos ao amanhecer, seguidos de noticiários. Mais tarde, retransmitiam A Voz do Brasil, o informativo do Governo Federal.

 

Transmitiam também partidas de futebol e anúncios comerciais.

 

Vou me esforçar para lembrar de alguns pioneiros do rádio de Cuiabá: Djalma Valadares, na locução comercial, Luís Atílio, locutor esportivo, Newton Alfredo comentarista e poeta, o próprio Jerci Jacob e sua esposa cuidavam da emissora o dia inteiro, como contrarregras e sonoplastas.

 

Hoje, as emissoras de rádio permanecem no ar vinte e quatro horas do dia, com programação diversificada e ampla audiência.

 

Com o advento da internet e dos celulares, os radioamadores despareceram. Surgiram os satélites Starlink, levando a comunicação a qualquer canto do planeta.

 

Hoje, não há lugar onde alguém não possa ser alcançado.

 

E, apesar de todo o progresso, o rádio continua sendo a voz amiga — o companheiro fiel de muitos.

 

Gabriel Novis Neves

31-03-2025






N.E. - FOTOGRAFIAS DE DOMÍNIO PÚBLICO NA INTERNET E TAMBÉM INTEGRANTES DO ACERVO PESSOAL DE FRANCISCO CHAGAS ROCHA,  PUBLICADAS NO GRUPO DE FACEBOOK CUIABÁ-MT DE ANTIGAMENTE